sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Bicicletas, gênero, etnia e classe social

Ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar. O marido aconchegou-a entre os braços e afagou sua cabeça com um cafuné. Sorriu. Como sou chorão, imediatamente me afastei para chamar a próxima da fila. Paula* veio até mim e em silêncio me abraçou. Ela tinha acabado de aprender a pedalar, sonho infantil que por pouco não foi abandonado.

Passo por situações parecidas uma vez por mês na Escola Bike Anjo, projeto que ensina adultos e crianças a pedalar. Atendo apenas os adultos e sempre começo a aula ouvindo, deixando que me contem os motivos que os levaram a adiar este aprendizado. Na maior parte das vezes foi apenas falta de oportunidade, mas em alguns casos estão envolvidos traumas sérios e lidar com isso exige que eu coloque no máximo toda minha capacidade de empatia e paciência. Ser Bike Anjo exige que eu coloque para fora o melhor ser humano que existe em mim.

Costumo fazer o treinamento de novos voluntários no CUBA (Curso de Formação Bike Anjo) e uma das coisas que sempre falo é que devemos estar muito bem no dia da atividade, se alguma coisa nos aflige ou se estivermos em paciência, é melhor não ir ou chegar apenas para conversar, esparecer, beber uma cerveja, mas sem ensinar ninguém. Coisas simples são capazes de comprometer todo o aprendizado, como uma respiração que indique que estamos de saco cheio ou um franzir de sobrancelha. Esses sinais são captados pelo aluno que pode achar que está sendo um incômodo e desistir da aula.

Fico pensando nos psicólogos e terapeutas que lidam com traumas alheios diariamente. Uma atividade de três horas por mês já exige tanto de mim, tentar imaginar como profissionais que atendem diariamente vítimas de violência sexual e doméstica, crianças abusadas, espancadas e demais situações do gênero é um esforço que está além da minha capacidade de dedução. Minha admiração à essas pessoas.


Uma vez atendi uma mulher que perdeu uma irmã atropelada enquanto pedalava quando criança. Nunca passei por situação parecida e jamais conseguirei imaginar a dor pela qual aquela pessoa passou e as barreiras que teve que romper para chegar até mim naquele dia e subir numa bicicleta. Mas ela foi e aprendeu. Uma heroína que enfrentou um dos seus maiores medos e venceu. Eu aprendo e me fortaleço com essas pessoas.

Recorrente são as mulheres que somente puderam realizar seus sonhos depois da morte do marido. Comum viúvas me contarem que só depois de atingirem este estado civil puderam fazer coisas simples, como dançar e andar de bicicleta. Triste ter que esperar alguém morrer para isso.

No fundo, aprender a pedalar é o que menos importa. Bike Anjo é sobre ocupação da cidade, criação de laços entre as pessoas e superação de barreiras. E, acima de tudo, igualdade.

Impossível não considerar questões de gênero, etnia e classe social. Esses assuntos precisam estar na nossa pauta. Mulheres são menos de 10% dos ciclistas e o motivo não é a falsa fragilidade e medo do trânsito. O que afasta as mulheres das ruas são os mesmos motivos que as afastam de tantas outras esferas sociais: o machismo.

E o machismo não oprime apenas as mulheres. São raros os homens que aparecem lá sozinhos, e acredito que é porque não possuem coragem de assumir que não sabem fazer algo e procurar ajuda.
Ser Bike Anjo exige que eu coloque para fora o melhor ser humano que existe em mim.
Aqui no Rio a Escola Bike Anjo começou nos jardins do Museu de Arte Moderna, um espaço na Zona Sul do Rio, elitista e que afasta muita gente. Negros são constantemente revistados por agentes do Aterro Presente e entendo que as famílias branquinhas fazendo piquenique no gramado possam ser uma visão, talvez não opressora, mas no mínimo desconfortável para muita gente.

Nunca vou esquecer Seu Sebastião*, que chegou às dez da manhã, vindo da Baixada, para a atividade que começava às 14h30. Negro, de jeito simples, não se sentiu a vontade e foi embora antes do término da aula. Minha impressão é que ele não estava acostumado a ter jovens brancos de classe média dispostos a ajudá-lo e, de alguma forma, numa posição inferior a ele, já que professores no Brasil são vistos como subservientes. Aquele ambiente e aquelas pessoas não faziam parte do mundo do Seu Sebastião que, apesar das promessas de retorno, nunca mais voltou. Coloco este abandono na minha lista de derrotas.

Felizmente estão surgindo novos núcleos. São Gonçalo e Grande Méier já possuem grupos autônomos que estão realizando as Escolas Bike Anjo. Que a periferia se aproprie do projeto e faça as adaptações necessárias para chegar a cada vez mais pessoas.

Que gênero, etnia e classe social deixem de ser barreiras no acesso à cidade.

* Nomes fictícios.

12 comentários:

  1. Parabéns pelo incrível texto e por conseguir explicar muito bem várias verdades!
    Aprendo sempre com essa rede! :)

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  2. Nossa incrível gente, parabéns por essa construção. Me arrepiei aqui lendo.

    Parabéns ;)

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  3. Voce é luz! Ainda estou na categoria mulher que nao teve oportunidade e o medo. um dia eu chego ate aí de verdade. Ja tentei uma vez, mas...

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    1. Beth, passa em uma das nossas Escolas Bike Anjo :)

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  4. Parabéns...Norton é com pessoas como você que aprendem demos o verdadeiro sentido do amor ao próximo....realmente não existe felicidade maior do que a alegria de poder ser usado nesse projeto maravilhoso ao qual aprendemos a ser uma pessoa melhor a cada EBA

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  5. Tive o prazer de ser ensinado num único dia pelo Fábio e pelo Norton aos 40 anos a andar de bicicleta, quando eu mesmo não acreditava mais na possibilidade. Foi um dos mais importantes aprendizados da minha vida. Vida longa a esta gente generosa e realmente empenhada com um futuro melhor.

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    1. Fala Guilherme, que bom ter contribuído com este aprendizado, é tão significativo para mim como é para você.

      Forte abraço, meu amigo.

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  6. Concordo.Narraçao emocionante. Eu tbm 35 anos e nao sei.pedalar,um dos meus sonhos...Meu obstaculo? Medo. Monto na bike de minhas sobrinhas,e quando desequibro..desisto..E condtrangedor ver pessoinha q paguei no colo,cuidei,n ter medo de algo q eu ate hj nao consegui.

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    1. Oi Vania, passa em uma das nossas Escolas Bike Anjo.

      Abraços.

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