quinta-feira, 25 de julho de 2019

7 coisas para serem aprendidas antes dos 40

Outro dia conversava com uma amiga sobre uma lista de 20 coisas para se fazer antes dos 30 publicada no Medium. Como já estou perto dos 40, achei aquelas recomendações pueris, como criar o hábito ler diariamente, cuidar da alimentação e fazer atividade física. Consegui atingir muitos daqueles objetivos, depois dos 30, é verdade, mas cada um tem seu tempo.

Tentei, desde então, pensar numa atualização para minha faixa etária. São exercícios que pratico diariamente e a diferença é que a minha é mais focada no outro, enquanto sua análoga mais jovem trata de conquistas pessoais. Ao invés de fazer, é sobre aprender.

7 coisas para serem aprendidas antes dos 40

Ter mais responsabilidade afetiva

Uma antiga namorada me escreveu numa carta anos atrás: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Não sabia, mas era uma frase bem conhecida d'O Pequeno Príncipe, livro infantil que só agora estou começando a entender.

Confesso que tenho negligenciado isso. Não posso mais continuar sem dar a devida atenção aos sentimentos que os outros nutrem por mim. Desde as coisas mais pequenas, como desmarcar um compromisso sem dar satisfação, até coisas maiores.

Ser um incentivador

Tenho tentado fazer um elogio por dia, pessoalmente ou pelas redes sociais. Parabenizar um amigo por uma conquista, elogiar um trabalho, tentar motivar alguém que está triste, enviar uma mensagem em um dia especial, essas coisas que não custam nada mas que podem fazer uma grande diferença.

O mundo já um lugar cruel demais, com milhões de obstáculos e gente tentando nos derrubar. Sejamos pontes.


É impossível mudar o outro

Não se engane, fazer alguém mudar é uma tarefa quase impossível. Não quero mais começar um relacionamento com alguém aceitando determinadas características que me são desagradáveis acreditando que com o tempo vou conseguir mudá-las.

Tem coisa que é imutável, e cabe a nós desenvolver a habilidade de saber distinguir das que não são.

Deixar de ser grosso 

Achava que o mundo estava ficando nutella demais, com as pessoas se magoando por qualquer coisa. Talvez elas estejam mesmo, mas ouvir de alguns amigos que sou grosso tem me deixado mais atento quanto a isso.

Não achar como os outros devem agir

Frases que tenho tentado abolir nos meus diálogos: "você deveria ter feito isso..." e suas variações. As pessoas sempre tentam fazer o melhor possível (tá bom, nem sempre), mas quem sou eu para saber como cada um deveria ter procedido?

Não quero mais opinar sem ser solicitado. Muitas vezes, tudo que nosso interlocutor precisa é de uma escuta afetiva, sem sugestões ou tentativas de resolução de seus problemas.

Quando me perguntado, tento responder: "no seu lugar, eu teria agido desta forma".

Não julgar, principalmente julgamentos morais

Ninguém sabe o que o outro viveu para fazer determinadas coisas e na maior parte das vezes só tomamos conhecimento de um lado da história. Pré-julgamentos na internet já foram responsáveis pelo assassinato de inocentes e destruição de reputações. Por isso tenho tentado ser um 'espaço seguro', ser aquele cara que está sempre disponível para ouvir qualquer segredo, até mesmo os mais bizarros, sem julgar. Ouço calado, tento controlar todas minhas reações corporais e só emito minha opinião se solicitada, e minha opinião sempre vai ser de conforto.

Não acredito em livre arbítrio, por isso acho que tudo é natural e normal. "Faça o que tu queres pois é tudo da lei" (segunda citação clichê do texto), desde que seja consensual e que não fira terceiros.

Só insistir em relacionamentos que valem a pena

"Onde não puderes amar, não te demores" (eita que hoje tá um festival de clichês). 

Tem gente que não tá a fim, então é melhor deixar ir. Se apegar a isso é um tremendo sofrimento.

E você, acrescentaria alguma coisa?

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Safe space

Tenho tentado criar espaços seguros nos meus relacionamentos, fazer com que o espaço entre mim e meu interlocutor possa ser um lugar onde não sejam necessárias máscaras, armas ou armaduras. Garantir que qualquer coisa possa ser dita, sem julgamentos, sem ofensas.

Em um mundo fluido, no qual ninguém mais se importa com ninguém, no qual trocamos de relacionamentos com um passar de dedo na tela do celular, se sentir acolhido tem sido cada vez mais difícil, e muita gente só encontra esse tipo de acolhimento por duzentos reais a consulta. Por isso tenho feito um esforço consciente para acolher os outros, e esse esforço passa por três premissas:

1) Escuta afetiva: realmente parar para escutar o outro, entendo toda a história com empatia. Saber a importância de ouvir e segurar minhas opiniões para outros momentos;

2) Não julgar: tento controlar todas minhas reações, como expressões faciais e respiração. Não importa o que estão me contando, pode ser o caso mais absurdo que eu já tenha ouvido, ouço tudo com naturalidade e não faço nenhum juízo de valor. Nenhum;

3) Sigilo: uma certeza dou a todos que se abrem comigo, que é a garantia de sigilo. Nunca, em nenhuma hipótese, vou contar para outra pessoa o que me foi confidenciado.

Na maioria das vezes não funciona, mas em alguns casos sim. Trabalho numa organização que tem como voluntários pessoas em situação de risco, e sentar e oferecer toda minha atenção faz parte do meu dia a dia e vejo a importância que isso tem.

No Bike Anjo, trabalho voluntário no qual ensino adultos a andar de bicicleta, também tenho contato com traumas e muitas outras questões, e muitas vezes só ouvir já ajuda a pessoa a superar algumas barreiras para começar a pedalar.

Sejamos todos espaços seguros para os outros.

sábado, 8 de junho de 2019

Recortes

Ano passado assisti num evento de cicloativismo a palestra da Clarisse Linke, diretora do ITDP, um instituto internacional que trabalha desenvolvendo a mobilidade sustentável em diversas cidades do mundo. Ela apresentou um recorte de gênero e etnia das locomoções por bicicleta.

Clarisse mostrou, em um estudo de caso, um mapa de calor que indicava os locais de moradia das mulheres negras e os locais que elas frequentavam, como supermercados, creches e escolas, de um determinado município. Em cima desse mapa colocou onde foram criadas as ciclovias, mostrando que a estrutura cicloviária tem cor e gênero, ou seja, foi colocada ali para atender homens brancos.

Há muito sabia que o movimento cicloativista é um movimento branco de classe média, mas foi nessa palestra entendi melhor essa dinâmica e compreender que é possível fazer recorte de classe, gênero, etnia sobre qualquer assunto.

Desde então tenho ficado mais atento durante as Escolas Bike Anjo, evento nos quais, dois domingos por mês, eu voluntariamente ensino adultos a andar de bicicleta. São raras as mulheres negras que vão, principalmente as com idade por volta dos trinta e quarenta anos. Quando aparecem, seguem o padrão de dupla jornada (trabalho e cuidados com a família) e que contaram com a ajuda de alguém para poderem deixar a casa num domingo. O tempo médio por aula é de trinta minutos, mas nestes casos sempre fico mais tempo. 


Gosto de conversar com meus alunos, saber um pouco de suas histórias e tentar criar algum vínculo emocional. Parece uma atividade frugal, de pouca importância, e em muitos casos realmente o é, mas ali lido com algumas questões muito importantes.

Uma vez atendi um mulher, nordestina, que levou uma surra do pai quando criança depois de subir numa bicicleta. Como se não bastasse, o pai passou um facão em sua orelha, mas do lado sem corte, para assustá-la ainda mais e fazê-la nunca mais subir numa bike. Isso não é coisa de menina.

Uma outra mulher perdeu a irmã atropelada enquanto pedalava na infância.

Idosas que sempre tiveram como sonho pedalar, atividade que só puderam realizar depois de ficarem viúvas e terem seus filhos criados.

No Bike Anjo lido com muitas dores e desigualdades, machismo, racismo, violências. Foram várias as lágrimas que vi correndo depois de proporcionar as primeiras pedaladas. 

terça-feira, 14 de maio de 2019

I know kung fu

Matrix mostra um futuro distópico no qual é possível fazer o download de qualquer habilidade em segundos. Trinity precisava aprender a pilotar um helicóptero e o operador 'instalou' o aplicativo em seu cérebro quase que instantaneamente. Professor para que, não é mesmo?

Neo, assim que foi desconectado, passou por um 'treinamento' de combate no qual aprendeu diversas lutas e operação de armas. Habilidades impossíveis de serem adquirida por um ser humano através das formas tradicionais de aprendizado, mesmo com anos de treinamento. Foram instaladas as habilidades técnicas mas quem fez a amálgama de tudo isso isso, quem deu motivação e sentido para o uso destas habilidades foi o Morfeu com questionamentos filosóficos como, por exemplo, o que é real.

Professores sempre serão necessários, não como transmissores de conteúdo, já que o aluno tem todo o conhecimento do mundo no bolso, mas como aquele vai ajudar na construção dos fundamentos morais e éticos destes saberes. Neo sabia lutar kung fu e como atirar com uma metralhadora, mas o que o moveu para a defesa da liberdade humana foi a filosofia. Sem refletir sobre conceitos como prisão, liberdade, realidade, democracia, justiça, servidão, entre outros, todas as pessoas daquele universo seriam exterminadas ou escravizadas pelas máquinas.


O dilema do carro autônomo 

A tecnologia está permitindo a aplicação prática de dilemas filosóficos antes restritos ao campo do exercício reflexivo. Um deles é o dilema do bonde:

Um bonde está desgovernado no trilho, indo no sentido de cinco pessoas que foram amarradas ali por um filósofo malvado. Você está parado ao lado da alavanca que pode mudar o bonde de trilho, mas  esta mudança matará um sexto indivíduo, também amarrado. Você puxaria a alavanca?

Diversas empresas estão desenvolvendo carros autônomos, que dirigem sem motorista, como a Google, Uber e Tesla. Esses veículos já rodam nos Estados Unidos e os programadores que estão escrevendo os códigos vão ter que decidir se a alavanca vai ser puxada ou não.

Uma decisão real que precisa ser programada: cinco crianças correm para o meio da rua atrás de uma bola. O carro pode realizar duas ações: atropelar as crianças e salvar o ocupante do veículo, ou se jogar contra a parede, salvando as crianças e matando o passageiro. 

O dilema do bonde era antes um exercício filosófico, agora o dilema do carro autônomo é um problema real. Alguém, sentado na frente do computador, precisa decidir o que o carro vai fazer. O que você escolheria?

Esta não é uma escolha individual e as aulas de filosofia dentro da grade do curso de programação de computadores vai ajudar a escolher a melhor resposta.

Essas questões aparecem também quando falamos sobre o avanço da tecnologia relacionada ao DNA e biotecnologia. Os filmes de ficção científica estão aí para mostrar isso, mas já nem são tão ficção assim.

Um mundo mais justo

Sou ateu, mas isso não significa que eu não acredite em coisas que não posso ver ou que não existam na natureza. Democracia, liberdade, direitos humanos e justiça são conceitos tão etéreos quanto religião e espiritualidade. Estas ideias começaram a surgir no ágora grego, praça onde todos os cidadãos debatiam a vida na cidade.

Se esses pensamentos hoje são aplicados no nosso cotidiano, regulamentando a convivência entre as pessoas e pautando nosso comportamento foi porque eles foram defendidos no campo filosófico (com algumas cabeças guilhotinadas). São conquistas que precisam ser resguardadas diariamente através não apenas das discussões, mas também pelas nossas ações que necessitam ter como fundamento esses ideais, e quem faz essa defesa são as ciências humanas e a filosofia.

Um farmacêutico, ao elaborar um novo medicamento, pode ter sido motivado a fazer isso apenas pelo lucro de sua empresa, mesmo que este lucro prive os doentes mais pobres do acesso ao remédio, ou pode ter sido guiado por um senso de justiça que busque a garantia de acesso ao tratamento por toda a população. Há quem acredite que é possível equilibrar essa balança, e a disciplina que vai levar esta discussão dentro da faculdade de farmácia é a filosofia. Sem esta discussão, o individualismo se fortalece e pavimenta a estrada rumo a mundo brutalmente desigual.

As artes marciais orientais não apenas ensinam a lutar, elas possuem toda uma fundamentação filosófica sobre o uso destas habilidades. O discípulo pode sair por aí dando chutes na cara dos outros na rua a troco de nada ou pode usar todo seu conhecimento na defesa dos oprimidos ou autodefesa. O mestre é quem vai guiar seus alunos para o melhor caminho.

Resumindo

Professores e mentores sempre serão necessários. Não como transmissores de conteúdo, mas como guias que ajudam seus discípulos a encontrar significado na técnica;

O método sem fundamentação filosófica favorece o individualismo e abre caminho para o fortalecimento de ditaduras e perda das liberdades;

As defesas da democracia, justiça e direitos humanos passam pela discussão profunda destas ideias até nos nossos atos mais cotidianos.

Atacar as ciências humanas é condenar nosso povo ao obscurantismo. 

domingo, 28 de abril de 2019

Meio Frida, meio Lampião

Meu mapa étnico. Acesse o resultado completo aqui.
África (21,9%)

Meu avô materno era negro e me lembro dele ao olhar pro espelho. Durante minha infância e adolescência, nossos narizes foram parecidos, largos e achatados, característico dos afrodescendentes. Um amigo artista, que estudou muito proporções do corpo para seus quadros, sabia, mesmo sem eu contar, que tinha um ascendente direto negro apenas olhando para meu nariz.

Meu avô e eu éramos muito próximos e foi com ele que aprendi a flanar por aí. Não de forma boêmia, já que ele era evangélico, mas a andar pela cidade com a tranquilidade de quem não busca um destino, mas de quem está aproveitando o caminho. Caminhávamos em silêncio e muitas vezes acompanhei diálogos que ele travava consigo mesmo, nos quais explicava suas ideias para um interlocutor imaginário.

Não consigo lembrar de absolutamente nada que ele tenha me dito, nenhum conselho, nenhuma bronca. Caminhávamos pelas ruas em silêncio, e foram o silêncio, as ruas e sua companhia que ficaram marcadas na minha memória.

Vô João foi o meu primeiro parente próximo a morrer, e foi essa morte que me ensinou sobre o luto. Tenho vívidas lembranças da manhã em que ele saiu de casa para o hospital e nunca mais voltou. Estávamos na sala, ele com a mão no peito reclamando da dor do infarto e eu, preocupado, olhando-o e tentando de alguma forma confortá-lo.

Quando resolvi fazer o teste de DNA para mapear minha ancestralidade, o motivo principal era saber de qual lugar da África veio o nariz que herdei do meu avô. Sendo brasileiro, era fácil supor, por conta da escravidão, que seus (nossos) antepassados vieram da região de Gana, Camarões e Nigéria, e foi exatamente isso que o resultado mostrou. Sou 8,6% nigeriano. Só o que mais chamou minha atenção é que minha parte africana maior vem do norte do continente, magrebe e seus países vizinhos, totalizando 11,4% do que sou. Uma região muçulmana, Egito, Líbia, Marrocos e Tunísia.

Também sou 1,9% queniano (Tanzânia, Uganda e Etiópia), costa índica, e pensar o fluxo migratório que todas essas pessoas fizeram até chegar em mim é algo que dá um nó na minha cabeça. Não consigo parar e olhar meu mapa étnico e ficar imaginando povos nômades cruzando o deserto, a dor das viagens nos navios negreiros e intercâmbios comerciais entre o norte e a África subsaariana.

Norte da África: 11,4%
África Ocidental (Nigéria): 8,6%
África Oriental (Quênia): 1,9%

América Central e do Sul (22,9%)

Além do meu nariz, outra característica são meus olhos levemente puxados. Por isso, antes de ter o resultado dos testes, imaginei ter um pé na Ásia. Meus palpites da minha composição genética foram:

- Ibérico;
- Alguma da África (Guiné, Congo ou Angola);
- Indígena Amazônico;
- Europa Ocidental (toda minha família é nordestina, alguma coisa me dizia que tinha um pedacinho holandês por conta da ocupação de Pernambuco);
- Alguma coisa asiática, por causa dos olhos.

Errei 'rude' nos meus palpites. Acertei apenas na parte ibérica, o que é bem óbvio por causa da nossa colonização portuguesa. Conversando com meu pai descobri que ele teve um avô italiano (meu bisa), o que explica os 12,4% italianos.

Na África eu confundi os portos de partida dos negros (Guiné, Congo e Angola) com a região de onde os escravos eram capturados.

Errei também na parte indígena (apenas 0,8%, minha menor composição, provavelmente de um hexavô - temos 128 hexavós) e na Europa Ocidental (0%. Como minha mãe se chama Mauricéa e o nome da cidade fundada por Maurício de Nassau era Maurícia, eu chutei, mesmo sabendo da inexistência de qualquer relação entre o nome e minha origem, que teria uma parte holandesa no meu DNA).
Meus olhos são puxados como os dessas crianças maias, mas isso não significa que essa seja a origem desta minha característica
E também não tenho absolutamente nada asiático, o me faz supor que meus olhos são da costa pacífica da América (22,1%), o que é assustador já que tal porcentagem indicaria que algum dos meus avós seria inca, maia, asteca, quéchua ou qualquer outra etnia desta região*. Flávia me mandou uma foto da Frida Kahlo, de origem indígena, para mostrar o quanto nossos olhos são parecidos, mas minha composição genética está dentro da média brasileira, formada por aproximadamente 30% centro-americana, então olhos como o meu deveriam ser mais comuns porque estou dentro da curva. Resumindo, fica o mistério.

Europa (55,2%)

Além da conhecida parte ibérica (30,2%) e italiana (12,4%), meu mapa apresenta outras duas regiões europeias: norte ocidental (10,2%, Alemanha, Bélgica, França, Suíça, República Checa e Países Baixos) e judeu asquenazita (2,4%, Polônia, Ucrânia, Romênia, Lituânia e Bielorrússia).

Sou um vira-lata brasileiro, e como um bom vira-lata não tenho registros dos meus antepassados. O máximo que consigo chegar conversando com meus pais é até, vagamente, meus bisavós. Minha mãe mandou imprimir um brasão dos Barbosa e dos Silva, que exibe emoldurado na sala de casa, mas no fundo todo mundo sabe que a gente não tem brasão nem pedigree. O quadro é apenas uma forma de imaginar um passado aristocrático que, sabemos, não possuímos.

Assim, esse meu DNA do norte ocidental da Europa e judeu se perdeu.

(uma curiosidade: tive uma bisavó que era prima de segundo grau de Lampião. Olho de Frida, sangue de cangaceiro)

Finalizando

Na verdade, todos os seres vivos são parentes de alguma forma. Você e a samambaia da sua varanda possuem um ancestral em comum, ambos surgiram da primeira forma de vida que brotou, provavelmente, no fundo do oceano, na chamada sopa primordial.

Querendo você acreditar ou não, somos sim parentes dos macacos e o mesmo exame de DNA que passa no programa do Ratinho para mostrar a paternidade de uma criança é o utilizado para provar que nós somos primos dos chimpanzés.

Carregamos em nós a história de toda humanidade e de todos os seres vivos. Aprofundando mais, cada uma das nossas moléculas que compõem nosso corpo foi cozida na explosão de estrelas bilhões de anos atrás. Somos poeira das estrelas, como disse Carl Sagan. Somos o universo em miniatura e, no fundo, pouco importa saber minha ancestralidade. Precisei fazer um exame de DNA para descobrir isso.

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* Como funciona o teste de ancestralidade

Obs: isso é um resumo. O processo é muito mais complexo que isso.

Assim como fiz com a homeopatia, pretendo escrever um texto explicativo sobre a origem da vida e a evolução de forma resumida e simples. O que importa dizer agora é que todos os seres vivos (plantas e animais) são formados por uma combinação de apenas quatro letras (A, T, C e G) que compõe o DNA, armazenados em 46 cromossomos localizados no núcleo de todas as células. Também existe o DNA mitocondrial, igualmente utilizado em mapeamento de ancestralidade por algumas empresas, mas que não é utilizado como molde para criação de um ser humano.

Nós temos três bilhões de pares dessas quatro letras mas apenas 1,5% disso é utilizado para codificar proteínas. O restante ainda é um mistério para a ciência, provavelmente resquícios de quando éramos outras espécies e que já tiveram funções no passado.

O processo de multiplicação de uma célula não é perfeito e por vezes uma dessa letras do DNA é trocada. Essa mudança na receita é chamada mutação, que pode resultar em uma desvantagem evolutiva, como uma doença, ou uma vantagem.

Os primeiros Homo sapiens surgiram na África e como os continentes eram mais próximos uns dos outros, eles foram andando ou navegando para todo o resto do mundo, fazendo com que este isolamento geográfico fizesse com que determinadas mutações gênicas ficassem restritas a estes grupos. Isso explica porque os seres humanos de cada continente tem características físicas próprias. Por exemplo, na Europa, como a incidência solar é escassa, a pela branca foi uma vantagem evolutiva ao permitir maior captação solar para produção da vitamina D, enquanto na África a pele negra é mais adequada por conta do excesso raios solares.

As empresas que verificam a ancestralidade procuram no DNA essas mutações restritas a determinados grupos étnicos. Não é perfeito, é uma análise estatística já que alguns povos possuem os mesmos marcadores gênicos, mas baseado em fluxos migratórios e na média de determinadas populações é possível chegar perto da realidade.

Não é feita uma leitura completa de todos os pares, apenas uma pequena fração é analisada. O DNA de todos os humanos é 99,9% igual. Apenas 0,1% é diferente, e é essa pequena parte a responsável por nossas diferenças (altura, cor dos olhos, formato dos cabelos etc). É também só essa parte que é lida pelos laboratórios.

Ciências humanas e o futuro da humanidade


Bate papo entre Zuckerberg e Harari. Como já era de se esperar, o CEO do Facebook acredita que a tecnologia ajuda a fortalecer a democracia e conectar comunidades, enquanto o historiador coloca suas preocupações sobre como regimes totalitários podem fazer uso desses novos aparatos.

Minha conclusão: a inteligência artificial, assim como qualquer ferramenta, pode ser usada para o bem ou para o mal, assim como uma faca que pode ser utilizada para cozinhar ou matar alguém. O fundamental é que a conduta, a ética e a moral humana sejam conduzidas para o bem comum, e as principais disciplinas que fazem isso em uma sociedade são a filosofia, a sociologia e a antropologia.

Ao abrir mão das ciências sociais, nosso governo mais uma vez abre mão de participar dessas questões tão importantes para o futuro da humanidade. Estamos abrindo mão não apenas da nossa soberania, mas ameaçando o destino do Brasil e enfraquecendo as vozes que defendem a igualdade no mundo, nos aproximando de uma distopia. Uma lástima.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Encarando o hater

Dedico as manhãs de dois domingos meus por mês ao Bike Anjo Rio, em uma atividade que ensina crianças e adultos a andar de bicicleta. Pode parecer algo recreativo, um ativismo sem importância diante de tantos problemas mais sérios que a cidade enfrenta, mas para mim é algo que tem ligação direta com a diminuição do ódio, preconceito e, consequentemente, da violência. Na abertura do evento costumo fazer uma rápida preleção na qual eu explico essa relação, e vou tentar fazer um resumo abaixo:

No Oriente Médio, árabes e judeus estão, literalmente, se matando. Enquanto isso, aqui no Rio, as duas etnias convivem pacificamente na Saara, área de comércio popular da região central da cidade. O que faz com que em um lugar exista ódio enquanto em outro exista o respeito? A resposta é simples: aqui não existe um muro separando os dois povos.

A construção de uma barreira física que segrega a convivência entre dois grupos cria também uma barreira psicológica, fazendo com que se enxergue os que estão do outro lado como diferentes, como inimigos.

Esses muros podem ser visíveis e invisíveis. Os muros invisíveis são os muros da religião, que faz com que terreiros de cultos de matriz africanas sejam constantemente atacados, são os muros da preferência sexual que agride gays, lésbicas e outras minorias vulneráveis. São muros étnicos que permitem a execução de famílias negras. São muros virtuais, daqueles que ficam atrás de um computador atacando os outros.

Mas por aqui também existem muros físicos, como os dos condomínios, que colocam num mesmo espaço pessoas do mesmo perfil socioeconômico, criando um ambiente propício para separação entre o nós e o eles.

Ativar os espaços públicos é colocar pessoas de diferentes cores, credos e origens num mesmo ambiente. É derrubar os muros que as separam e criar pontes. Assim, com todo mundo ‘junto e misturado’, percebemos que nossas diferenças não são motivos para o ódio e surge a empatia.

Quando realizamos a Escola Bike Anjo nós fazemos isso. Criamos um ambiente de convivência entre pessoas de diferentes origens. No fundo, usamos a bicicleta apenas como uma ferramenta de construção de uma cidade mais justa.

Minha motivação para escrever agora foi esta campanha da Sprite, que colocou um hater (alguém que fica na internet ofendendo outras pessoas) diante de suas vítimas, que vestiam camisetas nas quais estavam escritos os xingamentos. O muro virtual foi derrubado, e aposto que a vida desse garoto mudou.

Referências

Sobre árabes e judeus convivendo pacificamente no Rio:

O condomínio torna a cidade mais desigual:

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Nossas vidas no trânsito


O que você acharia se a prefeitura colocasse no meio da rua, por motivos estéticos, um canteiro gramado que forçasse os carros a dar a volta para continuar o trajeto? Absurdo, né? Então por que temos que achar normal quando fazem isso na calçada, com o pedestre?

A esquina da foto fica na Rua Sacadura Cabral. O arquiteto que fez o planejamento da via colocou um gramado no meio do caminho, acreditando que desta forma forçaria o trânsito das pessoas até a faixa de pedestre. Obviamente que não é assim que funciona na vida real e todo mundo passa por cima da grama. Com o tempo, toda a vegetação morre e fica só a terra. Reparem que por onde as pessoas não passam ainda está verde.

É um transtorno financeiro, já que o consórcio vez por outra precisa repor a grama, e é um transtorno para os caminhantes que encontram um obstáculo no percurso. Quando chove vira lama, piorando ainda mais a situação.

Hoje em dia, no trânsito de Nova Iorque, morrem menos pessoas do que na época em que circulavam carroças nas ruas, e a prefeitura conseguiu fazer isso entendendo a dinâmica de uso da cidade.

Culpar o pedestre que morreu embaixo da passarela não vai resolver. Se queremos realmente diminuir o número de pessoas que morrem em seus deslocamentos precisamos observar como a cidade é usada. As pessoas não vão usar uma passarela muito grande, assim como não vão esperar vinte minutos o sinal fechar para os carros. Nova Iorque entendeu isso e planejou seus espaços para atender às demandas dos pedestres, se tornando caso de sucesso na redução de mortes.

No Brasil, o caminho mais curto sempre vai ser o do carro. O motorista que for cruzar a Av. Presidente Vargas vai fazer uma linha reta. Já o caminhante vai precisar entrar na Av. Passos, andar 50 metros até o sinal e depois voltar para a Vargas. Este desvio acontece em vários outros cruzamentos e é comum encontrar grades nas calçadas para obrigar as pessoas a fazerem este desvio. Obviamente, muita gente se arrisca andando entre a grade e os carros e a culpa não é da falta de educação da população, é culta do planejamento urbano inadequado que prioriza o caminho dos veículos motorizados em detrimento da nossa vida.

Na minha palestra sobre mobilidade eu exibo a reportagem abaixo do Jornal Nacional. Nunca se morreu tão pouco no trânsito novaiorquino e isso aconteceu reduzindo a velocidade das vias, diminuindo espaços para os carros, aumentando as calçadas e dando real prioridade aos pedestres.

A pergunta que me faço é seguinte: até quando, no Brasil, a vida vai ter menos importância do que a pressa do motorista?

Planejamento urbano e empatia


A Saara, tradicional pólo de comércio popular, teve origem com comerciantes árabes e judeus, que convivem pacificamente no centro do Rio enquanto no Oriente Médio eles estão, literalmente, se matando.

Por que isso acontece? O que faz com que num ambiente essas etnias sejam amigas enquanto em outro elas sejam inimigas mortais?

Uma das resposta é a ausência de um muro que as separem. Os muros, além de constituírem barreiras físicas, também são barreiras mentais e fazem com que as pessoas enxerguem os que estão do outro como adversários.

Quando diversos grupos sociais, de diferentes classes econômicas, etnias, religiões e orientações sexuais dividem o mesmo espaço físico, eles tendem a perceber que suas diferenças não são motivos suficientes para o ódio e a empatia aparece.

Vez por outra dou uma palestra sobre urbanismos e mobilidade em empresas, relatando minha experiência como voluntário do Bike Anjo e mostrando a bicicleta como uma ferramenta de apropriação da cidade e dos espaços públicos, derrubando barreiras simbólicas e, desta forma, criando um ambiente mais tolerante.

Muitas vezes parece que militar por causas urbanistas tem menos importância do que outras lutas, mas a forma como a cidade é planejada ajuda a tornar a convivência entre os munícipes mais harmoniosa, diminuindo casos de homofobia, intolerância religiosa entre muitas outras violências.

Salvei o vídeo acima para apresentar na minha palestra. Fala das nossas origens e derruba barreiras perniciosas ao convívio com outras pessoas. Por menos de trezentos reais é possível fazer um teste deste de DNA, mas estou esperando a 23andMe, do Google, disponibilizar o kit para o Brasil.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A filosofia do coentro

Tive uma professora de filosofia na faculdade que tinha a certeza absoluta que o comportamento humano é resultado único e exclusivo do meio, moldado pela cultura. Àqueles que pensavam na influência da genética e da biologia, como eu, ela apenas reservava um sorriso debochado como se estivesse dizendo: você é jovem, não sabe nada da vida ainda. Desde então, toda vez que leio alguma coisa sobre o assunto eu lembro dela.

Uma das coisas boas que 2018 me deixou foram os livros. Apesar dos pesares, a produção literária e científica continua avançado e nos dando um sopro de esperança.


Em O Gene, Uma História Íntima, o médico indiano Siddahartha Mukherjee traça toda a história da descoberta dos genes, começando nas primeiras reflexões sobre hereditariedade feitas pelos filósofos gregos. Passa pelo experimento das ervilhas de Mendel, a teoria da evolução, o projeto genoma até as mais recentes descobertas, entre elas, estudos comportamentais que provam que identidade de gênero, preferencia sexual, temperamento e personalidade são cingidos pelo DNA. A cultura, obviamente, tem influência, mas o ser humano quando nasce não é uma massa disforme que pode ser totalmente moldada pelo meio.

Difícil acreditar que já no Século XX uma docente universitária tenha esse tipo de pensamento, que começou a cair na década de 70. Mas sabe a diferença entre um filósofo e um geneticista? O geneticista faz experimentos. Dezenas de estudos com centenas de gêmeos idênticos e fraternos, criados em famílias separadas, já foram realizados e mostraram que os irmãos univitelinos possuem mais semelhanças de personalidade do que os bivitelinos, deixando claro que existe um fator hereditário na equação, apesar de ainda não terem sido localizados os genes comportamentais. Já o filósofo chega às suas conclusões partindo apenas de reflexões teóricas.


Não tem aqui nenhum juízo de valor, não estou dizendo que uma é melhor que a outra, só estou apontando as diferenças. As ciências duras tiveram origem na filosofia, mas em algum momento da história alguns resolveram testar suas hipóteses através de experimentos e criaram novos ramos do conhecimento.

O mapeamento genético avançado só foi possível graças ao avanço da capacidade de processamento de dados dos computadores, coisa de não mais do que vinte anos, ou um pouco menos. Como estes estudos levam muitos anos para serem realizados e precisam de muitos recursos, ainda não temos provas que apontam genes à personalidade, mas as evidências são claras e em breve novas descobertas confirmarão ainda mais a importância do DNA em nosso comportamento, desde nossas preferências sexuais até o gosto pelo coentro.

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Li Gene com o Youtube aberto para assistir aulas de genética para o Enem e relembrar conceitos básicos e entender melhor o livro. A forma que a vida encontrou para se multiplicar e evoluir é de extremamente bela, quase poética. A divisão celular, os cromossomos, o DNA... pensar em como tudo isso surgiu dá um nó na cabeça.

Apesar de Mukherjee não tratar de como a vida se originou no planeta, imaginar elementos químicos se combinando no fundo do mar, criando aminoácidos que juntos formaram esferas de gordura, as cariotecas primitivas, e dentro delas outros aminoácidos e açúcares criando os primeiros DNAs capazes de se multiplicar até chegar, em milhões de anos, a seres conscientes como nós é incrível. Algo tão improvável de acontecer que não duvido que sejamos os únicos seres inteligentes do universos, e olha que o universo é tão grande que beira o infinito.

Só em nossa galáxia, a Via Láctea, existem quatrocentos bilhões de estrelas, o que equivale a dez estrelas por cada grão de areia que tem na terra. E cada estrela pode ter vários planetas em volta, o que faz com que o número de lugares onde possa ter surgido vida consciente seja tão grande que nossa mente limitada não consegue nem imaginar. E isso apenas em uma galáxia, dentre as bilhões e bilhões que existem.

Os próximos temas que quero estudar são evolução das espécies e astronomia. Alguma recomendação de livros sobre estes assuntos, numa linguagem parecida com a utilizada por Harari (de Sapiens) e Mukherjee?