quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Refrigerante saudável e segurança alimentar

Eu realmente acho que um dia teremos uma fórmula saudável de refrigerante e outros ultraprocessados, como biscoitos, lasanhas congeladas e macarrões instantâneos, mas neste vídeo eu vou te contar porque mesmo quando este dia chegar devemos continuar evitando esses compostos alimentícios.


O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação que serve como orientação para todas as políticas públicas nutricionais do país, elogiada por diversas entidades ao redor do mundo, está sendo atacada pelo governo Bolsonaro, o que representa um retrocesso na proteção da saúde do brasileiro.

As principais doenças crônicas que mais matam são oriundas da má alimentação, causadas principalmente pelo alto consumo de compostos alimentícios ultraprocessados, as chamadas comidas porcaria, e afrouxar esse entendimento junto à população é um ato que compromete ainda mais a escolhas de alimentos saudáveis.

Diabetes, câncer, hipertensão, osteoporose, doenças cardíacas são apenas algumas que estão diretamente relacionadas a uma dieta inadequada e são essas as principais causas de mortes no brasil e no mundo.

Mas eu acredito na tecnologia de engenharia alimentar e realmente acho que um dia essa comida porcaria vai ser saudável. Imaginem só, que maravilha, beber uma coca cola sem medo de desenvolver diabetes, ou comer um Big Mac sem risco de entupir as artérias de gordura e ainda nutrir seu corpo com nutrientes que vão te fortalecer.

Mas mesmo quando esse dia chegar, a gente precisa fazer consumo eventuais desses alimentos por um único motivo: soberania alimentar.

Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, decidir o que e como cultivar, o que destinar ao mercado interno e externo e a gestão dos recursos naturais. 

Comer é mais que o simples ato de nutrir o corpo, nossas escolhas têm implicações sociais, econômicas e ambientais, e quando alguém resolver comprar de uma multinacional alimentícia, está transferindo para essa multinacional todas as decisões relacionadas a cadeia produtiva e enfraquecendo outros setores, como a agricultura familiar.

A gente sabe que o objetivo das empresas sempre vai ser o lucro e o respeito aos trabalhadores, ao meio ambiente e clientes só acontece quando esses grupos possuem poder de pressão, caso contrário essas corporações vão fazer o que for possível para maximizar seu faturamento, como apertar salários e direitos trabalhistas e utilizar processos produtivos altamente poluentes, por exemplo.

Quando a gente tira o poder da população em produzir seus alimentos e transfere essa responsabilidade para apenas algumas corporações, a gente enfraquece a capacidade de pressão da população, colocando todos numa situação de vulnerabilidade e sujeita às ambições dessas empresas.

Soberania é uma palavra derivada do latim e significa poder supremo, ou seja, dar soberania aos cidadãos é dizer que não existe nada acima deles, nem o interesse predador de empresas multinacionais.

Em um estado onde impera a soberania popular é aquele no qual o povo é a fonte de todo o poder e está lá, na nossa Constituição, artigo primeiro, e para ser soberano o povo precisa ser livre para decidir suas estratégias alimentares e possuir os meios de produção, de forma a preservar culturas locais e a sustentabilidade das futuras gerações.

Precisamos ter o controle sobre nossos hábitos alimentares e não delegar essa responsabilidade para apenas algumas instituições financeiras e transnacionais alimentícias que vão colocar seus interesses à frente aos da população, como o agronegócio de monoculturas para exportação, enfraquecendo culturas tradicionais e aumentando o preço interno da comida, como estamos vendo agora, uso abusivo de agrotóxicos, produção de ultraprocessados prejudiciais à saúde, ocultação da informações como se os alimentos são ou não transgênicos, privatização da água, patenteamento de sementes e incêndios dos nossos biomas para aumento de áreas cultiváveis e pastos.

Falar sobre soberania alimentar é falar sobre reforma agrária, garantindo acesso de milhares de famílias ao trabalho e à produção de alimentos diversificados, trabalho de cooperativas, agroecologia, hortas urbanas, uso de energias renováveis, criando uma alternativa solidária ao atual sistema de produção que deixa milhões de pessoas passando fome no Brasil.

Atualmente apenas 10 empresas controlam o mercado de produção de alimentos no mundo, e aumentar ainda mais o poder destas empresas é muito preocupante e não é exagero imaginar um futuro distópico.

Apenas 10 empresas controlam o mercado mundial de alimentos

O poder não pode estar concentrado em poucos, é preciso pulverizar todas as responsabilidades sobre o que e como produzir, preços a serem cobrados, cadeia de distribuição e, principalmente, os lucros da comercialização, e isso não se aplica apenas aos alimentos, mas a toda manufatura humana.

Para fortalecer a soberania alimentar do Brasil, dê preferência para comida de verdade da agricultura familiar.

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

O blog virou canal no Youtube

Primeiro vídeo no ar: precisamos falar sobre Nutella. Curta o canal

terça-feira, 28 de julho de 2020

Uma postagem pro inferno

A primeira vez que entendi a necessidade do brasileiro em acreditar em forças sobrenaturais para manutenção do cotidiano foi quando prestei serviços para a Telemar. Além do trabalho dos engenheiros, só mesmo o trabalho de entidades espirituais fortíssimas para fazer com que você tire o telefone do gancho e ele te permita falar com alguém em outro lugar.

Ainda hoje acredito que todos os dias de manhã um caboclo bafora fumava de charuto naqueles painéis para permitir que as ligações aconteçam.

Em nada me admira a Prefeitura do Rio fazer contratos com o Caboclo Cobra Coral. Só mesmo um ser de luz, muito evoluído, para não ter ressentimento contra uma população que literalmente exterminou seus antepassados para, ainda assim, dedicar um tempinho da sua existência para nos livrar de desastres naturais. Na boa? Se fosse comigo eu deixava era todo mundo morrer afogado.
Caboclo Cobra Coral
Escrevo isso para falar que ainda não estou acreditando que um cientista enviou dez amostras concentradas de coronavírus para diferentes laboratórios do Brasil por Sedex. É ou não é o prelúdio do apocalipse?

Se eu fosse o responsável pela postagem, meu ateísmo ia sumir mais rápido do que antivax correndo para fila de vacinação do covid. Eu ia ajoelhar na frente da agência dos Correios, acender 20 velas e rezar para todos os deuses conhecidos, praticamente uma cena da Porta dos Fundos.

Cada dia que passa eu tenho mais certeza que o fim do mundo vai começar no Brasil.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Quando surgiu a fome no Brasil?

Pensa rápido: quando começou a fome no Brasil?

O racismo e a xenofobia marcaram a história da humanidade, é nosso mito fundador. Assim como hoje existem várias raças de cachorros, já existiram várias raças de seres humanos que conviveram no mesmo período e território, e todos eles foram exterminados por nós, os sapiens, não apenas por uma disputa de recursos, mas por serem grupos diferentes dos nossos.

Esse genocídio, obviamente, não se deu sem que antes pudéssemos nos divertir um pouco e trazemos em nosso DNA a herança de cruzamentos sexuais com os neandertais entre outras famílias de humanos.

Avançando um pouco, passamos pelas Cruzadas, nas quais cristãos combatiam contra os infiéis, a colonização das Américas e da África, Holocausto, Guerra Fria entre outros milhares de conflitos que no fundo se resumem ao nós, superiores e melhores, contra eles, hereges, impuros.

O racismo é a base de todos os nossos problemas, inclusive a fome, que chegou ao Brasil nas caravelas que cruzaram o Atlântico.

Os povos tradicionais tinham na guerra o seu propósito, o constante objetivo de eliminação de outros grupos fomentava todo o sistema de organização política indígena. Entretanto, não há registro de fome neste período, e havia um certo respeito no processo bélico.
A máscara de flandres tinha o objetivo de impedir que negros comessem e bebessem
O ritual antropofágico, descrito em detalhes por Hans Staden, mostrava que o inimigo a ser devorado muitas vezes convivia anos na taba adversária, compartilhando das mesmas refeições e até casando com mulheres locais.

A limitação ao acesso aos alimentos no Brasil começou com a escravização nativa e africana feita pelo homem branco. A máscara de flandres, fixada na cabeça do cativo, tinha objetivo de impedi-los de ingerirem alimentos e bebidas.

O racismo é a base do capitalismo, assim como foi a base de todos os outros sistemas antes dele, e deve ser nossa pauta principal de luta.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Rio: monumento à tortura

Outro dia escrevi sobre a forca que existia na Praça Mauá e uma amiga comentou que nunca pisaria ali. Infelizmente andar no Rio é andar por um cemitério indígena e negro, praticamente cada uma das nossas esquinas tem um histórico de tortura e execução.

E nem adianta ficar em casa. Em 1996, ao fazer uma reforma residencial, uma família encontrou ossadas de escravos recém chegados ao Brasil. Eles moravam, literalmente, em cima de um cemitério e hoje esse espaço é o Instituto do Pretos Novos, local de visitação obrigatória para se saber como esse país foi erguido.

Existiam mais dois outros patíbulos na região: um na esquina da Avenida Passos com a Rua Senhor dos Passos, onde Tiradentes foi executado, e outro no Largo da Capim, Rua dos Andradas, demolido para dar passagem à Avenida Presidente Vargas.

Vale citar uma antiga tradição portuguesa trazida para o Rio, a lúgubre procissão dos ossos. Na noite anterior ao dia dos finados, a Irmandade da Misericórdia, com sede na Santa Casa (Rua Santa Luzia), vestida com capas pretas e sob a luz de tochas, punha-se em marcha pelas ruas recolhendo corpos pendurados nas forcas e demais cadáveres que não tinham direito a uma sepultura, descartados ao lado dos patíbulos, para um enterro cristão no cemitério do hospital.

Em 1498, o Rei Dom Manuel I permitiu que a Irmandade, todo dia primeiro de novembro, recolhesse os ossos dos justiçados para dar-lhes sepultura. 

Ponta do Calabouço

A vista ao decolar ou pousar no Santos Dumont é deslumbrante, mas muita gente não sabe que pertinho da atual cabeceira ficava a Ponta do Calabouço, uma repartição pública que tinha como objetivo castigar escravos, já que seus senhores estavam proibidos pelo Estado de infringir eles próprios as punições nos cativos.

Mapa do Largo do Capim. A rua São Pedro virou a pista da direita e a Rua do Bom Jesus a da esquerda da Presidente Vargas (fonte)
Comércio de escravos

A poucos metros da minha casa fica o Observatório do Valongo, campus dos cursos de astronomia da UFRJ. Um lugar incrível com diversas atividades para a comunidade, como observação dos astros, palestras e cursos.

Um de seus telescópios, disponível para visitação, ajudou a mapear o pouso do homem na lua.

Mas o lugar inicialmente funcionava como sítio de engorda dos escravos recém chegados da África. É muito provável que o caminho que eu faço até o trabalho, pela Ladeira do Valongo, seja o mesmo percorrido pelos africanos depois de desembarcar no Cais do Valongo, tombado recentemente pela Unesco por ter sido o porto que mais recebeu escravos no mundo, aproximadamente um milhão de pessoas chegaram por ali para realizar trabalhos forçados.

O extermínio continua

A Candelária também fica na Região, e em 1993 oito jovens foram assassinados enquanto dormiam nas ruas. Uma cruz em frente à igreja lembra o evento.

A prática de execução de negros, infelizmente, continua em vigor nas nossas favelas, herança portuguesa desde os primórdios da cidade.


Caminhar no Rio é caminhar sobre sangue.

Guarabu e as abelhas

Cresci numa casa com quintal no Morro do Guarabu, Ilha do Governador. Lembro bem que existiam duas pequenas colmeias, de umas abelhinhas sem ferrões, dentro da parede, cuja entrada dos insetos era através de um tubo de cera que elas produziam.

Não faziam mal a ninguém e junto das borboletas, também comuns naquela época, deram um leve clima bucólico à minha infância.

Mas criança entendiada faz besteira e uma vez fiz xixi dentro de uma dessas colmeias. Mirei o jato exatamente no duto de entrada. Meu pai viu, me deu um safanão, brigou comigo e desde então não tenho mais lembranças desses bichos por lá. Talvez eu tenha matado todos eles.

O Rio é um cemitério indígena que obteve sucesso no seu projeto de fundação que incluía, entre outros objetivos, exterminar toda população tradicional do território usurpado. Não temos mais índios, as únicas coisas que sobraram foram as toponímias espalhadas por toda a cidade.

A Ilha é cheia de lugares com nomes nativos, como Cacuia, Cocotá, Tauá, a própria rua onde cresci, Muapire, além de dezenas de outros logradouros e bairros, como Copacabana, Ipanema e Grajaú, só para citar alguns poucos exemplos. Como bem mostrou Rafael Freitas no livro O Rio Antes do Rio, esses nomes têm ligação direta com as tabas ou características geográficas de seus territórios.

Outro dia resolvi entrar num sebo e comprei um exemplar de Denominações Indígenas na Toponímia Carioca, lançando em comemoração ao quarto centenário da cidade. Já que o morro onde cresci não é um bairro, o significado de seu nome não consta no Armazenzinho, banco de dados do Instituto Pereira passos que contêm, entre outras informações, um resumo da história do Rio.

Com o livro na mão, fui direto no verbete Guarabu: suas variações, como garabu, guaravu e guarau, designam uma casta de abelhas sem ferrões, a Melipona. O Google me levou ao resto da descoberta, mostrando que elas eram criadas pelos povos tradicionais para obtenção de mel e outros derivados.

Entrada da colmeia (fonte da imagem)
Uma busca das imagens confirmou as minhas suspeitas, são exatamente as abelhinhas que tinham no meu quintal.

Guarabu também pode significar o som do guará, socó (uma ave muito comum na Ilha até hoje) ou uma árvore de grande porte nativa do Rio, mas a história das abelhas é muito mais legal e vai ser essa que vou contar quando perguntarem o significado do nome do morro onde cresci.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

A pandemia começa no prato


O coronavírus surgiu na China, mas a próxima pandemia pode ter origem no Brasil. O desmatamento da Amazônia para abertura de pasto e plantações de soja para criação de ração animal vai colocar o homem em contato com novos microrganismos contra os quais não temos anticorpos.

Isso não sou eu quem está dizendo, é resultado de uma simulação financiada pelo Fórum Econômico Mundial e pelo Instituto Bill & Molina Gates com participação de cientistas e políticos de diversos países.

Essa simulação, conhecida como Evento 201, foi feita em outubro do ano passado e tinha como objetivo traçar um protocolo de operação de enfrentamento a um contágio em nível global.

Acabo de ver que a China identificou nos porcos uma nova gripe com potencial pandêmico. Não é mais questão de se, é uma questão de quando passaremos por isso outra vez.

Agora vem a pergunta: o que isso tem a ver com seu prato? Nosso apetite por carne criou um sistema produtivo doente, fonte dos maiores problemas que a humanidade está enfrentando.

Gripe suína, gripe aviária, vaca louca, por mais que depois mudem os nomes para desassociar as doenças ao consumo de proteína animal, está no nosso hábito alimentar a origem não apenas do aquecimento global, mas das pandemias. Nosso almoço vai destruir o planeta.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Quilos mortais e a esquerda brasileira

Iniciei minha reeducação alimentar há uns oito anos. Depois de uma separação e com a auto estima no chão, me olhei o espelho e percebi que precisava mudar. Comecei, então, a dar pequenos passos e essa caminhada continua até hoje.

A primeira mudança foi comer apenas um acarajé toda sexta-feira depois do expediente. Costumava comer dois, três, antes de pegar a barca para Ilha. Na semana seguinte troquei o pê efe do botequim por comida a quilo, substituindo aos poucos os carboidratos e proteínas animais por verduras e legumes.

Trabalhar na Ação da Cidadania me faz pensar em comida praticamente durante todo o período em que estou acordado, até mesmo nos meus momentos de lazer. Quando estou realizando alguma tarefa em casa, abro o YouTube e fico assistindo Quilos Mortais, reality que mostra a luta de obesos mórbidos para mudar seus hábitos e conseguir emagrecer e salvar suas vidas.

Na teoria o processo de emagrecimento é muito simples: apenas mude a alimentação. A bariátrica é só uma ferramenta auxiliar e que em nada vai resolver se o prato não mudar.

Quilos Mortais
A taxa de sucesso das pessoas que conseguem é de apenas cinco por cento. Vejam bem: apenas cinco por cento das pessoas que estão à beira da morte conseguem uma reeducação alimentar de longo prazo para salvar suas vidas.

Agora imaginem a taxa de sucesso das pessoas que não têm a morte no seu horizonte próximo, pessoas que possuem como meta apenas um planeta sustentável para as gerações futuras, quantas conseguem abrir mão do prazer da carne?

Sei que estou ficando monotemático, mas fico impressionado com a ginástica retórica que a esquerda progressista faz para não mudar seus hábitos alimentares. A produção de proteína animal está acabando com o planeta e podemos começar a mudar isso agora, sem precisar esperar a queda do capitalismo, queda esta que é muito mais retórica do que real.

Mas se apenas cinco por cento daqueles que estão à beira da morte conseguem, o que podemos dizer daqueles que ainda gozam de boa saúde?

"Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Que tal mudarmos o mundo começando por nós mesmos?" Martin Luther King.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Face App

A democracia é um ideal que precisa ser defendido constantemente, ela nunca estará suficientemente sólida ao ponto não nos preocuparmos com seu derretimento. Hoje, por exemplo, o Brasil tem um governo que está preparando a cama para um golpe militar, uma aspiração do presidente que nunca foi escondida.

Agora imaginem o que um regime totalitário seria capaz de fazer se tivesse acesso à tecnologia de reconhecimento facial? Yuval Harari fala disso em Homo Deus, conjecturando como seria se a União Soviética tivesse acesso à ferramentas de controle e vigilância que começam a ser disponibilizadas. Um sistema praticamente impossível de ser derrubado, uma distopia real à la 1984.

A tecnologia está aí, e a única forma de nos defender é questionando seus usos através da arte, filosofia e ciências humanas, áreas de conhecimento naturalmente questionadoras e que sempre são atacadas pelas ditaduras.

Nem países com instituições democráticas fortes, como os Estados Unidos, estão livres disso. Reconhecimento facial está sendo usado para identificar manifestantes do Black Lives Matter.

Enquanto isso, aqui no Brasil, tem muito comunistas trocando de gênero no Face App, ajudando a gestar essa que vai ser nossa ruína.

domingo, 17 de maio de 2020

Mofinho

Hidroforça de Devastação
Mofinho. Foi assim que minha mãe me apelidou quando criança, uma referência aos longos períodos em que eu ficava no quarto, muitas vezes com as janelas fechadas, criando um ambiente propício para proliferação de mofo.

Passaria pelo pelo isolamento social com mais tranquilidade naquela época, apesar de não existirem todos os recursos tecnológicos de hoje. Só tinha uma televisão na casa, sem controle remoto, que ficava na sala e com preferência de uso dos adultos, seis estações que saíam do ar um determinado horário da noite.

Nem telefone fixo nós tínhamos, o tempo corria em outra velocidade para a gente que foi a última geração analógica da história. A rua era a extensão do lar e os vínculos com nossos vizinhos eram muito mais fortes.

Tô aqui lembrando dos brinquedos que mais me fizeram não sentir necessidade de gente: maquininha de escrever, que utilizava carbono como fita, e um microscópio, que me deixava o dia inteiro dentro do quarto escuro olhando insetos e plantas.

Minha mediocridade não me permitiu avançar em nenhuma das duas profissões, escritor ou cientista, mas deixaram marcas indeléveis na minha vida.

Também ganhei o Guia Prático de Ciência, 14 volumes com dezenas de experimentos para fazer com materiais domésticos. Um pulmão com um copo, canudos e bexigas, uma bussola com agulha e imã, um sistema hidráulico com seringas. Os livros ainda estão na casa dos meus pais, a única coisa que restou e que não vou me desfazer. Não foi barato e lembro do dia em que chegou pelos correios, comprados, se não me engano, através do envio postal de uma ficha que veio junto com a Revista Globo Ciência, da qual era assinante e que também ocupou muito do meu tempo.

Todo meu atual pragmatismo tem relação direta com meus interesses na infância.

Outro presente no qual gastei horas e mais horas foi o Hidroforça de Devastação dos Comandos em Ação, uma máquina de guerra anfíbia que custou bastante dinheiro dos meus pais, comprado na antiga Eletrolândia do Cacuia. Apesar de ter imaginado diversos combates, nunca sofri do mal de querer ser militar.