domingo, 17 de maio de 2020

Mofinho

Hidroforça de Devastação
Mofinho. Foi assim que minha mãe me apelidou quando criança, uma referência aos longos períodos em que eu ficava no quarto, muitas vezes com as janelas fechadas, criando um ambiente propício para proliferação de mofo.

Passaria pelo pelo isolamento social com mais tranquilidade naquela época, apesar de não existirem todos os recursos tecnológicos de hoje. Só tinha uma televisão na casa, sem controle remoto, que ficava na sala e com preferência de uso dos adultos, seis estações que saíam do ar um determinado horário da noite.

Nem telefone fixo nós tínhamos, o tempo corria em outra velocidade para a gente que foi a última geração analógica da história. A rua era a extensão do lar e os vínculos com nossos vizinhos eram muito mais fortes.

Tô aqui lembrando dos brinquedos que mais me fizeram não sentir necessidade de gente: maquininha de escrever, que utilizava carbono como fita, e um microscópio, que me deixava o dia inteiro dentro do quarto escuro olhando insetos e plantas.

Minha mediocridade não me permitiu avançar em nenhuma das duas profissões, escritor ou cientista, mas deixaram marcas indeléveis na minha vida.

Também ganhei o Guia Prático de Ciência, 14 volumes com dezenas de experimentos para fazer com materiais domésticos. Um pulmão com um copo, canudos e bexigas, uma bussola com agulha e imã, um sistema hidráulico com seringas. Os livros ainda estão na casa dos meus pais, a única coisa que restou e que não vou me desfazer. Não foi barato e lembro do dia em que chegou pelos correios, comprados, se não me engano, através do envio postal de uma ficha que veio junto com a Revista Globo Ciência, da qual era assinante e que também ocupou muito do meu tempo.

Todo meu atual pragmatismo tem relação direta com meus interesses na infância.

Outro presente no qual gastei horas e mais horas foi o Hidroforça de Devastação dos Comandos em Ação, uma máquina de guerra anfíbia que custou bastante dinheiro dos meus pais, comprado na antiga Eletrolândia do Cacuia. Apesar de ter imaginado diversos combates, nunca sofri do mal de querer ser militar.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Como fortalecer o sistema imunológico em época de coronavírus

O coronavírus é potencialmente mais perigoso em pessoas com o sistema imunológico debilitado, por isso a importância de manter o corpo são para evitar os riscos desta doença. Diante deste cenário, tenho visto várias postagens e mensagens de Whatsapp com supostas receitas para fortalecer a imunologia, como chás, sucos e ‘superalimentos’.

Neste texto vou explicar porque tomar cuidado com essas receitas e como fortalecer de fato o sistema imunológico. Está dividido em duas partes: dicas gerais de alimentação e dicas específicas para quarentena.

Mas antes vamos esclarecer uma coisa: não adianta tomar chá de astrágalo se o resto da sua alimentação é só porcaria. Uma boa nutrição é formada por todo o conjunto de alimentos consumidos regularmente e só assim é possível fortalecer o sistema imunológico.

Dicas gerais de alimentação

1) Comer, preferencialmente, alimentos in natura ou minimamente processados. Os alimentos in natura são aqueles que são consumidos da forma como são encontrados na natureza, como ovos, legumes, frutas, hortaliças entre outros vegetais e carnes frescas.

Os minimamente processados são aqueles que sofreram alterações mínimas: foram cortados, descascados, polido, moídos, fermentados ou congelados, como grãos, cereais, farinhas, leguminosas, vegetais ou carnes congeladas.

Faça destes alimentos a base da sua alimentação e use ingredientes brasileiros e de produtores locais. Nossa cultura alimentar fornece excelentes exemplos de combinações perfeitas, como o tradicional arroz com feijão, salada e uma proteína animal. Ao final do texto tem outros exemplos para o café da manhã, almoço, jantar e lanche usando ingredientes facilmente encontrados nas nossas feiras e supermercados.

2) Os alimentos processados podem ser consumidos também, mas em menor quantidade do que os in natura ou minimamente processados. Para entender esta categoria de alimentos é preciso, antes, saber o que são as preparações culinárias.

Preparações culinárias são ingredientes que não são consumidos sozinhos, mas utilizados para cozinhar e temperar as receitas, como óleos, manteiga, sal, açúcar e gorduras. Devem ser usados moderadamente.

Os processados são alimentos in natura ou minimamente processados que sofreram adição de alguma preparação culinária com o objetivo de prolongar sua durabilidade, como enlatados (milho, ervilha, sardinha, atum), conservas, pães e queijos.

A última dica não é a menos importante:

3) Evite, sempre que possível, os ultraprocessados, que são preparados alimentícios que utilizam componentes e técnicas industriais impossíveis de serem reproduzidos nas nossas cozinhas. Possuem ingredientes sintetizados em laboratório e são ricos em sal, açúcares e gordura, sendo comprovadamente ligados a obesidade, diabetes, doenças do coração entre outros males.

São biscoitos, refrigerantes, temperos como caldos em tabletes e sazon, macarrão instantâneo, embutidos como salsicha, presunto e peito de peru, hambúrguer industrializado, salgadinhos de pacote e quase a totalidade de guloseimas encontradas nos mercados.

O ideal é eliminar totalmente esse tipo de preparo da dieta, mas não precisamos ser tão radicais e só a redução do consumo já é suficiente para melhorar em muito a saúde.
10 passos para alimentação saudável. Fonte: Guia Alimentar Para a População Brasileira
Dicas para a quarentena

Seguir essas dicas em época de confinamento não é simples, já que dependemos de ingredientes frescos, mas é possível:

1) Aprenda a congelar legumes e demais vegetais, assim você diminui a quantidade de vezes que precisa sair de casa para ir à feira ou ao hortifrúti. O processo se chama branqueamento;

Também congele carnes, preferencialmente frango e porco, evitando carnes vermelhas;

2) Os enlatados devem ser incluídos na dieta, mas sempre com moderação. Picles, champignon, palmito, milho, ervilha, jardineira de legumes e demais vegetais em conservas, além de sardinha e atum. Ocupam pouco espaço e duram bastante tempo.

3) Varie nas receitas e ingredientes, quanto maior a variedade, melhor.

Resumo

Receitas que dizem fortalecer o sistema imunológico que recebemos pelo Whatsapp não vão adiantar nada se todo o resto da alimentação for formada por ultraprocessados. Por isso tome cuidado com elas e com os ditos superalimentos;

Complementos vitamínicos em cápsulas não funcionam. Um comprimido de potássio não é a mesma coisa que comer uma banana, já que a fruta possui muitas outras substâncias que atuam em conjunto;

Coma, sempre, comida de verdade.

Outra coisa importante: faça exercícios físicos. Vários profissionais de educação física estão dando aulas gratuitas pelo Instagram e dicas de como se exercitar em casa. Também é possível gastar pouco com alguns itens que ajudam neste processo. Eu, por exemplo, comprei uma corda de pular e elásticos que podem ser usados para fortalecer braços, pernas e demais grupos musculares. Várias aulas podem ser assistidas no Youtube.

A realidade é um pouco mais complexa do que o exposto aqui, existem algumas nuances não citadas, mas é um bom começo para entender nutrição adequada e de qualidade.

Sugestões de refeições

O menu abaixo, assim como parte das dicas anteriores, são do Guia Alimentar Para a População Brasileira. É uma publicação brasileira referência no mundo.

Café da manhã: frutas, café, café com leite, bolo de milho, cuscuz, ovos, pães integrais, pão francês, queijo, suco e tapioca.

Almoço/jantar: arroz com feijão, grão de bico, carne, macarrão, polenta, legumes refogados, omelete, saladas, pirão, lentilha, aipim, sopas cozidos e assados.

Lanche: iogurte natural, frutas, vitamina, castanhas, nozes, frutas secas, pão integral, ovo mexido ou cozido, milho cozido.

Observação

Neste texto estou falando para os meus. Trabalhando com entrega de cestas básicas, tenho contato com pessoas em vulnerabilidade social e que não possuem o básico para o agora, quanto mais para pensar em estocar alimentos.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Rio, a cidade que deu certo

A imagem de Aimberê morto na praia, amparado por José de Anchieta, foi a abertura da aula sobre a fundação do Rio de Janeiro ministrada por Henrique Silveira. O quadro ‘O último tamoio’ retrata a vitória portuguesa sobre os indígenas, marcando definitivamente o início da ocupação da região onde a cidade foi erguida

As festas, feijoadas e rodas de samba que acontecem no dia primeiro de março são, na verdade, a comemoração de um genocídio. Claro que a gente resignificou essa história, mas não podemos esquecer que o Rio foi erguido sobre sangue indígena e, depois, negro

Esta cidade deu certo, não encontramos mais índios pelas ruas, todos foram eficazmente assassinados

'O último tamoio', em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia
Uma vez, estava com um amigo anarquista em São Paulo em frente a uma catedral quando fiz um comentário sobre a beleza do prédio. Ele disse que não achava bonito, já que não conseguia ver beleza em obras realizadas com trabalho escravo

Acho Cuba um país incrível, sem gente dormindo nas ruas, medicina e universidades gratuitas, entre outras conquistas sociais atingidas, em parte, por uma ditadura e pelos paredões dos tribunais revolucionários que mataram não apenas criminosos de guerra, mas opositores do regime

No fundo, tudo que a humanidade construiu foi assim, na base de guerras, genocídios, exploração e sofrimento. Sem julgamento de valor, o que move o ser humano é a destruição

Você não estava aqui

Certa vez conversava com um amigo sobre as condições de trabalho escravo encontradas nas Zonas Especiais de Exportações em países pobres, onde eram produzidos os tênis da Nike

Era uma época pré internet, conseguir esse tipo de informação não era fácil. Eu sabia por causa do livro Sem Logo, da Naomi Klein, no qual ela narra, entre outros assuntos, a construção de grandes marcas de consumo e toda sua cadeia de exploração na China, Vietnã e adjacências, pagando centavos por dia de doze ou mais horas de trabalho

Depois de considerar o que eu estava dizendo, meu amigo acabou agradecendo a Nike por estar lá, nesses lugares, mesmo que escravizando aquelas pessoas porque, segundo sua opinião, a realidade delas seria pior sem esses 'trabalhos'

Fiquei sem saber o que responder. Uma pessoa agradecendo por uma companhia bilionária estar explorando seus trabalhadores. No mundo que eu quero viver, nenhum ser humano é explorado por outro

Esse tipo de argumentação ainda é comum hoje em dia. Não é difícil encontrar quem defenda posições uberizadas alegando que sem esses subempregos a situação seria pior


Empresas riquíssimas, que constroem patrimônios equivalentes ao PIB de pequenos países, extorquindo a mais valia de seus 'colaboradores'

Acabei de assistir Você Não Estava Aqui e estou, neste exato momento, arrasado. Meu otimismo deu lugar a uma tristeza extrema com relação ao nosso futuro, e é impossível não se colocar no lugar daquele pai de família que precisa sustentar os seus. Nem consegui chorar

Vivendo num país com treze milhões de desempregados, sem falar daqueles que desistiram de procurar empregos, dos informais e precarizados, com um presidente incapaz e cruel, minha cabeça ficou a mil

Pensando aqui no meu futuro, sem aposentadoria, na minha decisão de não ter filhos por acreditar que não serei capaz de sustentá-los num mundo que não precisa da minha capacidade produtiva, do aumento da coerção do estado contra aqueles que vão contra o sistema, da destruição paulatina dos direitos conquistados com muita luta

Hoje sou uma péssima companhia, mas Você Não Estava Aqui é fundamental para nos dar esse choque de realidade

Jesus nos dias atuais

Jesus andava com leprosos, o que na atualidade seria o equivalente a andar com os cracudos na beira da Avenida Brasil, a parte da população mais excluída da sociedade. Jesus estaria pregando nas cracolândias e para travestis e transexuais hoje em dia

Ele foi preso, torturado e morto pelos soldados romanos, o correspondente a nossa polícia

O que motivou sua prisão foi o ataque ao templo, local transformado em comércio pelos líderes religiosos. Trazendo isso para a atualidade, é como se Jesus tivesse entrado na Catedral Mundial da Fé, na Avenida Suburbana, e quebrado tudo. Edir Macedo, putaço, liga para 190 e chega a viatura. Os PMs lançam um ‘teje preso’ para Jesus, dão um pau nele, levam para a rua e executam o meliante. Tudo isso sob os aplausos dos cidadãos de bem, afinal de contas, bandido bom é bandido morto

Ele desrespeitou, em nome do amor, diversas regras da Torá, a Bíblia da época, além das leis judaicas e seus líderes, como a que dizia que quem tocasse num leproso se tornaria impuro. É o equivalente a amar e respeitar os homossexuais mesmo que o pastor diga que isso fere os mandamentos bíblicos, porque o amor ao próximo é a própria manifestação de Deus

Não é difícil trazer Jesus para os tempos atuais, e foi isso que a Mangueira fez. Estava torcendo por ela

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Jesus, hoje em dia, estaria andando nas favelas, pregando para cracudos e travestis. Estaria desrespeitando a bíblia e pastores em nome do amor ao próximo. Teria ficado com muita raiva por ver templos sendo transformados em comércio. Teria entrado na Catedral Mundial da Fé e quebrado a porra toda

Edir Macedo, boladaço, ligaria para a PM e os canas chegariam enquadrando o marginal. Dariam um pau nele e o executariam no meio da rua, sob aplausos dos cidadãos de bem

domingo, 12 de janeiro de 2020

A História de Jairo

Fui estagiário de uma das maiores redes de supermercados do mundo. Processo seletivo dificílimo, milhares de candidatos. Sonho de todo estudante que se mostrou um pesadelo. Foi uma experiência rica, em termos de aprendizado profissional e humano, mas que me fez chorar algumas vezes ao chegar em casa. Foram tantas histórias que um amigo roteirista já quer transformar num longa-metragem.

Foi conversando com esse amigo que lembrei da história do Jairo, o cartazista. Sua posição era de extrema importância para todos os gerentes que tinham que abrir a loja com os preços de seus setores atualizados, por isso manter um bom relacionamento com ele era fundamental.

A principal ocupação do Jairo era ser pastor de uma congregação evangélica localizada num bairro pobre da Baixada Fluminense, trabalhar em supermercado era só o jeito que ele achou para pagar as contas.

Por algum motivo, Jairo não simpatizou comigo num primeiro momento e ele externava isso deixando meus cartazes para o final, mesmo que eu tenha sido um dos primeiros a chegar. Um dia descobri que ele tinha dois livros publicados sobre liderança e eu, estudante de administração, me interessava pelo assunto. Comprei um mas não consegui terminar a leitura. Seus argumentos falavam sobre liderança por uma perspectiva bíblica, de obediência aos desejos de deus e eu, ateu, não passei das primeiras páginas.

Jairo sempre esperou minha opinião sobre sua obra, mas nunca dei esse feedback. Em compensação conversamos muito sobre literatura. Expliquei como fazer o registro do livro na Biblioteca Nacional, coisa que ele não tinha feito, ISBN, Lei Rouanet e concursos literários. Viramos amigos e conquistei o primeiro lugar na fila dos cartazes.

Certo dia ele me narrou a história de um conto que estava prestes a escrever, sua obra-prima, acreditava. Contava o caso de um trabalhador de uma fazenda que tinha um patrão que oferecia casas aos seus funcionários, salário acima da média, que tratava todos muito bem. Em determinado momento ele percebeu o quanto aquela história estava inverídica, estava utópica demais já que nenhum patrão é tão bom assim. Ficou alguns dias pensando numa solução esse insight veio de repente: o protagonista estava sonhando. Depois de apresentar este universo quase perfeito, o herói acordava e percebia que tudo não tinha passado de um sonho. Um desfecho genial.

Quando eu era criança, provavelmente quarta séria, uma editora foi até a escola com um projeto de livro. Cada turma deveria escrever uma história que seria publicada, transformando todos os alunos em autores. Um dos contos tinha um desfecho parecido com o que Jairo imaginou para seu texto, o protagonista acordava de um sonho. É um final comum na literatura, um verdadeiro clichê que incomoda leitores mais experientes. A diferença entre as duas histórias está na idade de seus idealizadores, crianças do ensino fundamental e um senhor com aproximadamente sessenta anos.

Quando contei esse caso para meu amigo numa mesa de bar, achávamo-nos muito inteligentes por discutir o mito da caverna, a inexistência da verdade e da nossa total incapacidade de dar respostas curtas para muitos questionamentos, mas no final percebemos que a gente só estava reproduzindo pensamentos que filósofos gregos tiveram há três mil anos.

A solução para o conto do Jairo não era nova, assim como fazer analogias modernos ao mito da caverna também não é. O resumo disso tudo é: se há alguma verdade nesse mundo, é que a gente não sabe de porra nenhuma.

Ops, acho que alguém já disse isso.

O Amor é Cozinha

Tenho muita dificuldade para realizar tarefas repetitivas e que demandam tempo e paciência, como cultivar uma horta, limpar minha bicicleta ou artesanato. No mundo hiperconectado de hoje, até ler um livro ou assistir um filme são atividades quase impossíveis de serem realizadas sem dar aquela checada no Facebook ou WhatsApp a cada cinco minutos.

Acho que a única coisa que consegue minha total atenção é a cozinha. Planejar minhas refeições, escolher os alimentos na feira, o preparo e a limpeza da louça são atividades nas quais emerjo. Passo boa parte do tempo fazendo isso, já que faço todas minhas refeições em casa.

Impossível cozinhar sem ter paciência ou querendo atropelar processos para chegar logo ao resultado. Muitas vezes passam-se horas no preparo para que o consumo seja realizado em poucos minutos.

Cozinhar é cuidar, é ficar atento ao fogão para não queimar, é perceber pequenos detalhes como o ponto da fermentação da massa do pão, é entender que o cozimento no forno é lento e que não adianta aumentar a temperatura para diminuir a espera.

Meu pão de fermentação natural
Numa sociedade de consumo de massa como a nossa, tudo nos leva para a compra de produtos prontos. Tá tudo ali, na prateleira, é só pegar e comer. O capitalismo veio para nos libertar das amarras do prazo, para dar-nos tempo livre para atividades realmente importantes e cozinhar não é uma dessas atividades importantes.

O Tinder é o supermercado dos relacionamentos, transportamos nosso modelo de consumo para a forma com a qual lidamos com as pessoas. Queremos o resultado de uma comida caseira mas sem a necessidade de passar por todo o processo que isso envolve.

Almejamos relações duradouras mas não sabemos mais como construí-las. É preciso parar, voltar algumas casas e aprender (ou reaprender) como construir ligações sólidas com o outro, assim como temos feito quando repensamos nossa alimentação, quando voltamos a colocar a mão na comida e apreciar cada etapa do processo, com a calma e a paciência necessária para o preparo, no fogo baixo, de um guisado.

Tenho repensado meus relacionamentos e cheguei a conclusão que preciso fazer com eles o mesmo que faço na cozinha. O capitalismo molda todos os nossos comportamentos e fugir de suas garras, mesmo que seja uma fuga ilusória, é um dos meus objetivos.

Construir o amor é como cozinhar, e cozinhar com seu amor é a coisa mais incrível que alguém pode fazer.

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Estou lendo Bauman, que fala sobre como o mercado de consumo influencia nossas relações amorosas, e é impossível não fazer uma analogia com a cozinha. Estou no início do livro, mas ainda não aprendi a cozinhar um texto.

Prêmio Cidadão Socialmente Responsável

Outro dia fui representar o Bike Anjo no Prêmio Cidadão Socialmente Responsável, organizado pela turma de produção de eventos da Unisuam. O reitor estava presente e aproveitaria a oportunidade para criar um climão com meu discurso, mas, infelizmente, não ganhamos. Como tá entalado na garganta, segue abaixo o que eu falaria:

“O Bike Anjo realiza diversas atividades, sendo a principal delas ensinar pessoas de qualquer idade, crianças, adultos e idosos, a andar de bicicleta. Outra linha de atuação nossa é junto aos poderes executivos e legislativos, pressionando para criação de políticas públicas que defendam os ciclistas e que estimulem os deslocamentos ativos, além de criar estruturas cicloviárias pela cidade.

Em 2015, uma das promessas do Rio para sediar as Olimpíadas foi instalar 450 quilômetros de ciclovias e uma delas passaria aqui em frente a Unisuam. A universidade foi contra. Até pensei em recusar o convite para estar aqui quando me lembrei disso, mas resolvi aproveitar a oportunidade e falar como grandes empresas se maquiam como sustentáveis, mas que por trás realizam ações que vão contra seu discurso estampados nas belas peças publicitárias.

Naquela época, eu e mais alguns amigos fizemos uma intervenção com projeções na faixada do prédio e usamos a hashtag Unisuam contra a sustentabilidade. Infelizmente perdemos a batalha e a ciclovia não existe mais, só sobraram bicicletas desbotadas pintadas no chão, vocês podem vê-las ao sair daqui.

Hoje a cidade está abandonada e a bicicleta não faz parte mais da pauta governamental, mas acredito que o Rio vai voltar a ser a cidade que merece ser, que tem vocação para ser, voltaremos a discutir mobilidade sustentável e, novamente, uma ciclovia vai passar aqui em frente. Não estou aqui para causar um climão nesse evento tão bonito, mas quero aproveitar a presença do reitor para pedir, quando este dia chegar, que ele nos apoie, aí, sim, um Prêmio Cidadão Socialmente Responsável vai fazer sentido nesta universidade.

O Bike Anjo vai muito além de ensinar pessoas a andar de bicicleta. A gente ajuda a criar uma cidade mais humana, derrubamos muros invisíveis que nos separam e criamos espaços seguros, já que várias pesquisas já comprovaram que quanto mais ciclistas estiverem percorrendo as ruas menores são os índices de acidentes.

A gente usa a bicicleta como ferramenta de defesa da democracia. Eu e várias pessoas escolhemos nos locomover pedalando e cidades verdadeiramente democráticas são aquelas que permitem que todas as escolhas possam ser feitas de forma segura.

A imposição de um único meio de transporte é uma característica totalitária e lutar contra o totalitarismo nunca foi tão importante, já que estamos vendo claros sinais de fascismo no nosso dia a dia. Censura, ataques a populações vulneráveis, prisões arbitrárias, pedidos da volta da ditadura, AI-5 e execução de opositores políticos. O ovo da serpente está sendo chocado e temos que usar todos os espaços para impedir que isso aconteça.

Por fim, queria dizer que não existe consumo sustentável no capitalismo. Boa noite.”

Tá bom, talvez não dissesse a última frase sobre o capitalismo, mas o resto estava pronto para sair.

Docas Dom Pedro II, o Galpão da Cidadania

Comigo-ninguém-pode, espada de são jorge, arruda, alecrim, guiné, manjericão e pimenta. A baiana, que chegou cedo ao Mercadão de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, fez questão de escolher pessoalmente as melhores folhas.

Pouco tempo depois, já em casa, preparou com as ervas a água de cheiro que seria utilizada para a limpeza energética e espiritual de um local sagrado para ela e seus ancestrais. Junto com outras mulheres, todas descendentes dos que desembarcaram naquele chão, trazidos à força da África, começaram o ritual com muita cantoria e dança. O Cais do Valongo, ponto de chegada de aproximadamente um milhão de almas escravizadas, cantava. Do outro lado da rua, um prédio opulento parecia assistir à festa.

Apesar de não guardar mais suas características originais, o Docas Dom Pedro II ainda traz em suas fundações um pouco da história de André Rebouças, primeiro engenheiro negro a atuar no Brasil. Finalizado em 1875, o armazém foi construído com a mais moderna tecnologia inglesa de engenharia da época, em uma tentativa de modernizar a região portuária que precisava de um local mais apropriado para armazenar cargas que antes eram estocadas em precários trapiches, feitos de madeira, além de servir como local para pequenos reparos navais (1).
Crédito: Juan Gutierrez, 189(?)

Apesar de Rebouças ser um grande abolicionista, a razão pela qual não foi utilizada mão-de-obra escravizada na construção do prédio foi que, desde a década de 1850, já era padrão a contratação de trabalhadores livres para concessão de subsídios governamentais (2).

O local funcionou como doca até o início do século XX, quando foram iniciadas as obras que originaram o atual Cais do Porto do Rio, adequando, então, a cidade às novas necessidades do mercado internacional que exigia a utilização de navios de grande calado.

Com todo o entorno do prédio aterrado, o galpão, com 160 metros de extensão e 35 metros de pé-direito, ficou abandonado por longos períodos. Durante o regime militar, foi ocupado e modificado pelo exército como garagem de veículos blindados. E na década de 1990, pelo carnavalesco Joãozinho Trinta, que o utilizava para confecção de alegorias e realização de oficinas de arte.

Completamente abandonado e em péssimo estado de conservação, foi cedido no ano 2000 à Ação da Cidadania, organização da sociedade civil de combate à fome criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que recuperou totalmente o prédio. Hoje ele é utilizado como espaço de promoção da cidadania através de eventos, oficinas culturais, apresentações artísticas e como sede nacional da campanha Natal Sem Fome, que em 2018 distribuiu mais de mil toneladas de alimentos para famílias em situação de insegurança alimentar em todo o Brasil.

Apesar de não guardar mais suas características originais, modificadas no governo militar – como o alinhamento da fachada frontal à recém-criada Av. Barão de Tefé – o prédio traz aos seus visitantes a falsa impressão de que ainda é do mesmo jeito que o deixado por Rebouças. Seus tijolos aparentes, porém, foram uma escolha estética do arquiteto Hélio Pellegrino, já nos anos 2000, para a reforma realizada pela Ação da Cidadania.

Tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2016, o Docas Dom Pedro II, também conhecido como Galpão da Cidadania, tem hoje sua vocação como espaço de preservação da memória afro-brasileira e também de luta por um Brasil sem fome e sem miséria.

Referências:

(1) SOARES, Carlos Eugênio. Valongo, Cais dos Escravos: Memória da Diáspora e Modernização Portuária na Cidade do Rio de Janeiro, 1668 – 1911. Museu Nacional, UFRJ, 2013. (Disponível em https://portomaravilha.com.br/conteudo/estudos/academicos/DOUTORAMENTO%20UFRJ%20ARQUEOLOGIA%20.pdf)

(2) INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ata da 84ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Brasília, 24 nov. 2016. (Disponível em http://portal.iphan.gov.br/uploads/atas/ata_da_84_reuniao_conselho_consultivo.pdf)

Texto publicado no Jornal dos Vizinhos, integrante do projeto Escola do Olhar do Museu de Arte do Rio. 2019.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mas alimentação saudável é muito cara!

Continuando as comemorações aos cinco anos do Guia Alimentar Para a População Brasileira, hoje as dicas serão referentes ao preço:

1) Alguns legumes, verduras e frutas realmente possuem preço mais elevado, mas quando consumidos com outros mais baratos, como arroz, feijão, batata e mandioca, fartamente presentes na culinária brasileira, faz com que o preço médio da refeição seja inferior aos ultraprocessados;

2) Os vegetais da estação são mais baratos e abundantes, então procure saber sempre quais são os alimentos da época;

3) Alimentos de produtores locais também possuem preço inferior, já que não estão incluídas as despesas de transporte. Evite comprar importados, que além de ser bom para o bolso é bom para a economia local e para o meio ambiente;

4) Procurar fornecedores com menos intermediários, como feiras e sacolões, é uma ótima opção. Veja a possibilidade de comprar direto dos produtores ou através de compras coletivas, modalidade que tem se tornado bem comum nos grandes centros urbanos, principalmente com cestas de alimentos orgânicos;

5) Levar a comida para o trabalho também é uma forma de economizar, então não tenha vergonha de levar uma marmita com uma refeição saudável;

Vinho, cachaça e café do Armazém do Campo
6) Demanda: os preços caem conforme a demanda aumenta, já que mais produtores entram no mercado e há incremento da oferta. Então, quanto mais gente compra, menor é o preço. Incentive seus amigos e veja quais são seus gastos que podem ser cortados para reinvestir o valor em alimentos saudáveis;

7) Participação política: mais uma vez, fazer parte de grupos (associações, partidos políticos, conselhos etc) que visem incentivar a alimentação saudável é uma forma de fazer com que os preços caiam, pressionando para que haja incentivo fiscais para os produtores e a instalação de mais feiras livres na cidade.

Se você é uma pessoa privilegiada com tempo para participar destes movimentos, então utilize-o;

8) Conheça: Apesar da proteína animal no Brasil ser relativamente barata, ela ainda tem valor mais alto do que os vegetais. Conhecendo combinações nutricionais balanceadas, é possível diminuir a carne sem afetar a qualidade da refeição. Por exemplos, alimentos verdes escuro, como brócolis e couve, são ricos em proteína e excelentes substitutos.

Antigamente, comer carne era coisa de rico, agora é o contrário. Esses valores mudam com o passar do tempo, e nem sempre tem relação com o preço dos produtos.

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O Armazém do Campo - RJ é meu mais novo lugar favorito. Além de alimentos oriundos de assentamentos da reforma agrária, possui atividades culturais.