segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A filosofia do coentro

Tive uma professora de filosofia na faculdade que tinha a certeza absoluta que o comportamento humano é resultado único e exclusivo do meio, moldado pela cultura. Àqueles que pensavam na influência da genética e da biologia, como eu, ela apenas reservava um sorriso debochado como se estivesse dizendo: você é jovem, não sabe nada da vida ainda. Desde então, toda vez que leio alguma coisa sobre o assunto eu lembro dela.

Uma das coisas boas que 2018 me deixou foram os livros. Apesar dos pesares, a produção literária e científica continua avançado e nos dando um sopro de esperança.


Em O Gene, Uma História Íntima, o médico indiano Siddahartha Mukherjee traça toda a história da descoberta dos genes, começando nas primeiras reflexões sobre hereditariedade feitas pelos filósofos gregos. Passa pelo experimento das ervilhas de Mendel, a teoria da evolução, o projeto genoma até as mais recentes descobertas, entre elas, estudos comportamentais que provam que identidade de gênero, preferencia sexual, temperamento e personalidade são cingidos pelo DNA. A cultura, obviamente, tem influência, mas o ser humano quando nasce não é uma massa disforme que pode ser totalmente moldada pelo meio.

Difícil acreditar que já no Século XX uma docente universitária tenha esse tipo de pensamento, que começou a cair na década de 70. Mas sabe a diferença entre um filósofo e um geneticista? O geneticista faz experimentos. Dezenas de estudos com centenas de gêmeos idênticos e fraternos, criados em famílias separadas, já foram realizados e mostraram que os irmãos univitelinos possuem mais semelhanças de personalidade do que os bivitelinos, deixando claro que existe um fator hereditário na equação, apesar de ainda não terem sido localizados os genes comportamentais. Já o filósofo chega às suas conclusões partindo apenas de reflexões teóricas.


Não tem aqui nenhum juízo de valor, não estou dizendo que uma é melhor que a outra, só estou apontando as diferenças. As ciências duras tiveram origem na filosofia, mas em algum momento da história alguns resolveram testar suas hipóteses através de experimentos e criaram novos ramos do conhecimento.

O mapeamento genético avançado só foi possível graças ao avanço da capacidade de processamento de dados dos computadores, coisa de não mais do que vinte anos, ou um pouco menos. Como estes estudos levam muitos anos para serem realizados e precisam de muitos recursos, ainda não temos provas que apontam genes à personalidade, mas as evidências são claras e em breve novas descobertas confirmarão ainda mais a importância do DNA em nosso comportamento, desde nossas preferências sexuais até o gosto pelo coentro.

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Li Gene com o Youtube aberto para assistir aulas de genética para o Enem e relembrar conceitos básicos e entender melhor o livro. A forma que a vida encontrou para se multiplicar e evoluir é de extremamente bela, quase poética. A divisão celular, os cromossomos, o DNA... pensar em como tudo isso surgiu dá um nó na cabeça.

Apesar de Mukherjee não tratar de como a vida se originou no planeta, imaginar elementos químicos se combinando no fundo do mar, criando aminoácidos que juntos formaram esferas de gordura, as cariotecas primitivas, e dentro delas outros aminoácidos e açúcares criando os primeiros DNAs capazes de se multiplicar até chegar, em milhões de anos, a seres conscientes como nós é incrível. Algo tão improvável de acontecer que não duvido que sejamos os únicos seres inteligentes do universos, e olha que o universo é tão grande que beira o infinito.

Só em nossa galáxia, a Via Láctea, existem quatrocentos bilhões de estrelas, o que equivale a dez estrelas por cada grão de areia que tem na terra. E cada estrela pode ter vários planetas em volta, o que faz com que o número de lugares onde possa ter surgido vida consciente seja tão grande que nossa mente limitada não consegue nem imaginar. E isso apenas em uma galáxia, dentre as bilhões e bilhões que existem.

Os próximos temas que quero estudar são evolução das espécies e astronomia. Alguma recomendação de livros sobre estes assuntos, numa linguagem parecida com a utilizada por Harari (de Sapiens) e Mukherjee?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Deus é um dragão na garagem

Carl Sagan foi um talentoso astrofísico que ficou famoso pelo seu trabalho como divulgador científico, explicando ciência para o público leigo. No livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios ele conta a história do dragão na garagem:

Dois amigos estão conversando e um deles alega ter, em sua garagem, um dragão que cospe fogo. Ambos vão até lá mas quando a porta é aberta não é possível ver nada. Segue diálogo adaptado:

- Cadê o dragão?
- Ele é invisível, por isso não estamos vendo.
- Tudo bem. A gente pode, então, jogar farinha no chão. Assim, quando ele andar, poderemos ver as marcas das pegadas.
- Não vai dar. Ele flutua a alguns centímetros do chão, por isso não vai deixar pegadas.
- Sem problema, eu tenho óculos infravermelho lá em casa. Vou lá buscar para a gente conseguir ver o fogo e o calor do corpo dele.
- Ih, cara, também não vai funcionar. Ele não emite calor.
- Entendi. E se a gente jogar tinta nele? Assim poderemos vê-lo.
- Não vai rolar. O dragão é intangível.

Outros experimentos são propostos mas sempre é dada uma desculpa. Então, qual a diferença entre um dragão invisível, intangível e que não emite calor e um dragão inexistente?


Nada contra acreditar nesse dragão, mas neste caso caímos no campo da fé. As religiões são baseadas nisso, com imensas catedrais e milhões de fiéis que acreditam num ser sem que haja comprovação empírica de sua existência. A bíblia foi escrita por pessoas inspiradas pelo dragão da garagem.

Até pode aparecer alguém com a mão queimada dizendo que foi o animal que fez isso, mas sabemos que queimaduras podem ocorrer de outras formas, do mesmo jeito que alguém pode dizer que foi curado pela homeopatia quando a cura também se manifesta por outras vias.

Pegadas podem aparecer de manhã na farinha, mas será mesmo que ela foi feita pelo dragão?

Deus, astrologia, tarô, futurologia, homeopatia, enfim, todos nós temos dragões em nossas garagens. Qual é o seu?

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Notas de um Bike Anjo

Sou voluntário Bike Anjo há mais de seis anos, ensino adultos a andar de bicicleta. Já ensinei mais de cem pessoas e esta é minha maior habilidade, não existe nada que eu faça melhor que isso. Não estou dizendo que sou um gênio, mas dentro da minha mediocridade este é meu maior talento.

Neste período, fiz algumas observações que compartilho abaixo:

Machismo (1): o número de mulheres que não sabe andar de bicicleta é muito maior do que o número de homens, e a explicação é simples: o machismo que as afasta de tantas outras ocupações no mundo é o mesmo que as impede de subir na bicicleta, considerada 'coisa de menino'. Já ensinei senhoras que levaram surras de seus pais pelo simples fato de subirem numa bike na infância;

Machismo (2): não é raro aparecerem idosas que só tiveram a oportunidade de fazer as coisas que sempre quiseram fazer depois da morte do marido. Ficaram viúvas, com filhos criados, e começaram a viver, aulas de dança de salão, passeios com as amigas e treinos de bicicleta. Acho triste, mas ao mesmo tempo feliz por elas pelo menos terem tido a oportunidade de se livrarem deste grilhão. Uma merda ter sempre um homem controlando a vida de uma mulher, primeiro o pai e depois o marido;

Machismo (3): é raro aparecer um homem sozinho. Geralmente ele vai com a companheira, depois de muita insistência e apoio dela. Não existe nada mais vergonhoso para um homem do que não saber fazer algo considerado normal pelos outros machos;

Dificuldade (1): o principal fator dificultador do aprendizado é o sedentarismo, não é o peso ou idade, como muita gente acha. Gordos e terceira idade ativos aprendem com facilidade;

Não conhecer o próprio corpo, a falta de condicionamento e atrofia muscular inerentes a alguém que não pratica nenhuma atividade física aumenta o tempo necessário de prática. Obviamente esse fator é agravado pela obesidade e idade;

Foto: Michelle Castilho
Dificuldade (2): acredito que nossos medos vão aumentando com o passar do tempo, por isso crianças aprendem com mais facilidade. O medo pode ser paralisante, e quando ensino alguém nessa situação preciso passar mais tempo dando, o que eu chamo, voltas de descompressão, que servem para acalmar o aprendiz, reduzir seus batimentos cardíacos, relaxar os músculos e ganhar um pouco de confiança;

Dificuldade (3): uma pessoa que só fez musculação, por conta da rigidez com que ficam os músculos, não tem a malemolência necessária para controlar a bicicleta. Também é um fator dificultador;

Facilidade (1): ninguém aprende mais rápido do que os surfistas. Eles sobem na bicicleta e já pedalam com algumas poucas orientações;

Facilidade (2): depois do surfe, as práticas que mais ajudam são a natação e a dança, que requerem a utilização de muitos músculos e noção espacial;

Equilíbrio: uma coisa que ouço em quase 100% dos casos: 'eu não tenho equilíbrio'. Me deixa explicar uma coisa sobre isso. Andar ereto sobre duas pernas é uma habilidade evolutiva que levou milhões de anos de seleção natural. É necessário um complexo conjunto de ferramentas físicas e neurais que só o ser humano possui, e parece fácil porque tivemos que treinar bastante na infância. Então, se você consegue andar, possui o equilíbrio necessário para pedalar. O que falta são outras habilidades já citadas aqui;

Uma aula tem duração média de 40 minutos e é a atividade que mais requer de mim, a imersão precisa ser total porque até os pequenos sinais que emito, como uma respiração mais funda, pode colocar o aprendizado em risco. Mas ainda assim é a prática que mais me dá prazer. Em 70% dos casos o aluno consegue traçar uma linha reta pedalando, e o sorriso que ele abre quando percebe que não tem ninguém segurando me transporta para um lugar que só a bicicleta é capaz de me levar.

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Gostaria de ouvir os amigos Bike Anjos sobre suas experiências. Concordam comigo? Gostariam de acrescentar algo?

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Olhar o mundo de forma crítica é ser livre

Cresci numa família de classe média baixa. Meus pais, nordestinos que vieram para o Rio em busca de melhores condições, nunca deixaram faltar comida e atendimento médico, mas alguns pequenos 'luxos' requeriam planejamento financeiro e espera, como a Coleção Guia Prático de Ciências, da antiga revista Globo Ciência (atual Galileu).

Numa época em que não existia internet e com apenas uma televisão em casa, com quatro ou cinco canais e preferência de uso dos adultos, com a hiperatividade inerente às crianças, fazer o tempo passar requeria habilidades muito diferentes das de hoje em dia. Por isso ainda lembro da caixa chegando com todos aqueles livros: capas duras e integralmente coloridos, 15 fascículos divididos em 5 temas: Como a Natureza, Corpo Humano, Universo, Terra e a Ciência Funcionam. Esses livros foram, sem dúvida, uma das minhas referências de vida mais importantes.

Foram dias no quarto folheando aquelas páginas e realizando as experiências que explicavam como tudo funcionava. Copos com bexigas e canudos para simular um pulmão, imãs e agulhas para fazer bússolas, pentes para demostrar a eletricidade estática, tudo ricamente ilustrado e com as devidas explicações. Uma obra primorosa.

Pouco tempo depois ganhei um microscópio. Era uma peça infantil, quase um brinquedo, mas suficiente para, na escuridão do quarto com as janelas fechadas, ficar observando pequenos insetos e folhas.

Minha terceira grande referência foi a Maquinha de Escrever. Utilizando papel carbono como fita e um disco giratório para escolher as letras, nela rascunhei meus primeiros 'papers'.

Maquininha de Escrever
Apesar de todos os indícios daquele período, não me tornei cientista mas aprendi a não cair em engôdos tão comuns hoje em dia, como homeopatia e astrologia. Conhecer a ciência e seus métodos é libertador.

Fatos científicos acontecem independentemente das crenças das pessoas. A gravidade vai funcionar para todo mundo, não importa qual é a sua religião, partido político, etnia ou orientação sexual, os objetos vão sempre cair. A mesma coisa acontece com a homeopatia. Suas crenças não significam coisa alguma, esse tipo de tratamento só funciona como placebo e nada mais pode ser dito a respeito. Ponto.

Muitas vezes me acham arrogante por defender de forma tão enfática determinadas coisas, mas eu acho o contrário. Nada mais arrogante do que acreditar que nossos pensamentos são capazes de mudar leis químicas e físicas que regem o universo. Nada mais pernóstico do que o pensamento 'a homeopatia funciona para quem acredita', como se o simples fato de acreditar fosse suficiente para mudar a constituição de moléculas e o destino da vida de alguém. Acredite: existem coisas que seus pensamentos não são capazes de alterar.

Conheço muita gente inteligente que acredita nessas coisas, amigos que tiveram excelente formação em várias áreas mas cujas escolas negligenciaram a ciência. Essas pessoas não têm culpa, a culpa é do nosso sistema educacional que não oferece atividades em laboratórios e a resolução de problemas e perguntas através do método científico: observação do fenômeno, elaboração de hipóteses, experimentação, análise dos dados e conclusão. E para piorar, o governo Bolsonaro vai afundar ainda mais a educação, já que alguns do seu quadro funcional são abertamente terraplanistas que defendem o ensino do criacionismo nas escolas. Estamos dando alguns passos para trás e tenho pena, e vergonha, no que essas crianças vão se tornar.

O recado deste texto é: ensinem o método científico para seus filhos. Estimular o pensamento crítico vai ser o grande diferencial no futuro. Oscar Wilde dizia que a maioria das pessoas não vive, apenas existe, por isso eu digo: para viver é preciso ser livre, e olhar o mundo de forma crítica é ser livre.

Ah! Ensinar programação também é importante.

Quero aproveitar e agradecer meus pais por terem aberto mão de tantas coisas por mim. Vocês são incríveis.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mural da June


Diz o conto popular que se um sapo for jogado numa panela com água fervendo ele vai pular imediatamente para fora, mas se a água estiver fria e a temperatura aumentar aos poucos, o animal não perceberá a sutil mudança e morrerá cozido. Verdade ou não, é uma boa metáfora para a sociedade.

Estava lendo sobre o nazismo. Hitler não acordou um dia e resolveu matar milhões de judeus nas câmaras de gás de repente. Foi um processo lento e gradual que levou alguns anos. Poucas pessoas perceberam, Einstein foi dar uma palestra nos EUA e não voltou, mas a grande maioria só se deu conta tarde demais. Já não era mais possível fugir e os trens para os campos de concentração partiam lotados para execuções em massa.

June, a protagonista de The Handmaid's Tales, também não percebeu a tempo, apesar dos sinais aparecerem por todos os lados. Na segunda temporada ela ficou escondida no prédio de um antigo jornal e, para tentar entender como o país virou uma ditadura teocrática, montou numa parede um painel com reportagens que mostravam os indícios daquela realidade, separado por temas como 'militarização' e 'redução dos direitos civis'.

Estou vendo os sinais por todos os lados, por isso estou criando um mural como o da June, que será constantemente atualizado. O futuro deixou de ser uma esperança e virou uma ameaça. Tenho amigos que estão apanhando e sendo ameaçados de morte por eleitores do Bolsonaro. A água está esquentando, só espero fugir a tempo.

Mural da June

Ataques a minorias e grupos vulneráveis

Vamos acabar com coitadismo de nordestino, de gay, de negro e de mulher, diz Bolsonaro
Gays, negros e indígenas já sentem nas ruas o medo de um governo Bolsonaro

Militarização da segurança pública

Intervenção federal/militar no Rio

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Do tamanho que eu possa limpar

Um texto que leio uma vez por ano é 'Da relação entre limpar seu próprio banheiro e abrir sem medo um Mac Book no ônibus'. Nele, o autor fala sobre a relação entre os salários dos holandeses. Se aqui o nosso abismo de desigualdade social faz o presidente de uma empresa ganhar cem vezes mais do que o faxineiro, lá essa diferença é menor, muito menor. As rendas são muito semelhantes, não importa se é gerente ou porteiro.

Por conta disso, o cidadão médio precisa limpar seu próprio banheiro, já que contratar uma diarista ou ter uma empregada é muito caro. Médico, engenheiro, advogado, não importa, vai ter que esfregar privada como todo mundo.

Esse cenário idílico de igualdade social traz várias vantagens, e uma delas é o baixíssimo índice de violência, ao ponto de permitir que qualquer um abra seu Mac Book caro dentro de um ônibus a noite sem medo de ser assaltado.

Essa história de ter alguém para limpar sua sujeira é uma herança colonial e escravocrata que quero longe da minha casa, por isso a faxina é uma atividade que nunca vou abrir mão de realizar. Logo, minha casa precisa ser do tamanho que eu possa limpar.

Hoje, enquanto passava pano no chão, fiquei pensando se essa expressão, 'do tamanho que eu possa limpar', poderia ser usada como metáfora para a vida. Se na nossa vida amorosa, pessoal, profissional e espiritual a gente precisa impor o limite da nossa capacidade de lidar com os resultados.

Ao começar um novo namoro, até que ponto podemos ir para que depois não fique aquela sujeira emocional acumulada sem que consigamos limpar?

Sei lá, acho que as psicólogas funcionam como as diaristas das nossas casas, ajudando a jogar fora o lixo do qual nossas ambições não souberam suportar. Por isso, fique atento à sua cobiça. Faça um prato do tamanho da sua fome.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

The Handmaid's Tales e Bolsonaro

The Handmaid's Tales é um seriado que retrata os Estados Unidos sob um regime fundamentalista cristão, regido pelas escrituras sagradas, em uma sociedade extremamente armada. As mulheres não podem trabalhar, controle dos corpos, professores universitários enviados para morte nas colônias, congresso fechado e a constituição rasgada em nome de Deus. E tudo aconteceu de forma lenta e gradual, tendo como desculpa a luta contra o terrorismo.

O que mais assusta é que o Brasil, também de forma lenta e gradual, caminha para essa distopia. Bancada evangélica crescendo, o primeiro lugar à disputa eleitoral com o slogan 'Deus acima de tudo', armamentismo, intolerância religiosa, de gênero e orientação sexual, pichações 'Bíblia sim, Constituição não', tudo em nome do combate à violência e em defesa da família.

A série é incrível e serve como alerta para evitarmos o mesmo futuro. Não importa sua posição política, ter Bolsonaro como presidente é o pior cenário que podemos ter. A ameaça é real. Entendo seu descontentamento com o PT, mas a alternativa é o obscurantismo.

PS: pesquisando, vi que não fui o primeiro a relacionar a série ao Bolsonaro. Leia o artigo de Marcelo Rubens Paiva:

Em tempo: assista The Handmaid's Tales.

#EleNão #EleNunca #EleJamais

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Jogue o papel no vaso

Os escravos tigres eram aqueles que carregavam os dejetos de seus senhores em baldes e jogavam no mar. Este expediente era necessário numa época em que não existia um sistema de saneamento básico. Eram chamados de tigres porque a ureia presente na urina e nas fezes que derramavam do balde nas costas do escravo, debaixo do sol, deixavam marcas permanentes na pele, como listras do felino.

Parece uma história remota da atualidade, mas ainda hoje uma versão desse tipo de trabalho ainda é realizada no Brasil. Em determinadas partes da Europa os banheiros não possuem lixeira. Os papéis utilizados na higienização são jogados no vaso e descartados com a descarga. É mais higiênico em vários sentidos, além de não deixar cheiro no ambiente, protege a saúde das pessoas que fazem a limpeza e, principalmente, dos trabalhadores que fazem separação de materiais para reciclagem. Mas por aqui não é possível fazer isso porque a largura dos encanamentos não permite, correndo risco de entupirem.
Aqueles que planejaram as especificações dos canos poderiam ter permitido este descarte aumentando a largura, mas decidiram, provavelmente por razões econômicas, não fazê-lo. Não tenho a menor dúvida que se fossem eles que tivessem que recolher os dejetos alheios não fariam esse tipo de coisa.

É só olhar a cor das pessoas que limpam os banheiros para perceber que as marcas das escravidão ainda são visíveis. 

O foda é que esse povo que escolhe as especificações dos produtos que a gente usa, que fazem parte da Associação Brasileira de Normas Técnicas, continua fazendo besteira. A tomada de três pinos tá aí provando isso.

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Quem chamou a atenção para isso foi a engenheira Carla Mariana da Costa, que já trabalhou com saúde pública.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O que é ciência?

Quando eu era criança, todas as vezes que a escola mandava um recado para minha mãe ela tinha que assinar na marcação 'ciente' do bilhete. Assim, ela demostrava ter tomado 'ciência' da notificação. De forma abrangente, ciência significa conhecimento, mas quando lemos nos jornais que o corte das bolsas de pós-graduação da Capes em agosto de 2019 afetará a produção científica do país, 'ciência' assume outro significado.

Hoje, no titio's tutorial treteiro, vou explicar o que é ciência. Importante falar que isso aqui é o resumo do resumo do resumo.

As instituições

A ciência é produzida por um conjunto de instituições que utiliza o método científico para conseguir respostas. São elas:

Institutos de pesquisas: entidades públicas ou privadas que realizam as pesquisas. Diante de um problema ou pergunta, criam hipóteses que são testadas em ambientes controlados;

Congressos científicos: eventos nos quais são apresentadas pesquisas em andamento para, a partir da avaliação de outros pesquisadores, receberem feedback que podem contribuir com seu desenvolvimento;

Revistas científicas: quando um instituto conclui uma pesquisa, apresenta seus resultados através de um artigo para toda a comunidade. Esta pesquisa fica disponível para ser replicada por outras entidades, cujos resultados podem ou não ser os mesmos, abrindo caminho para refutação, ratificação ou surgimento de novas hipóteses a serem testadas. Antes da publicação, o artigo passa por uma rigorosa análise de outros pesquisadores, que avaliam se a metodologia foi bem desenvolvida e se os resultados são confiáveis;

Órgãos reguladores: antes de um novo produto desenvolvido nos laboratórios chegar ao mercado, órgãos governamentais (como a Anvisa) precisam se certificar que os eles não oferecem risco à população e que cumprem as funções descritas em seus rótulos. Eles avaliam a metodologia utilizada e podem solicitar novos testes. Passado por esse processo, temos um novo produto disponível aos consumidores, como um remédio, por exemplo. As pesquisas nas áreas das ciências humanas não passam por essa regulação já que suas investigações não resultam num produto físico.

Cabem duas ressalvas: 1) existem sistemas nacionais e internacionais que dão notas a todas estas instituições, de forma a avaliar a qualidade e nível de credibilidade de cada uma delas; 2) todo este sistema não é à prova de falhas, muitos resultados são forjados para favorecer determinadas indústrias, mas quando esses casos se tornam públicos os pesquisadores entram num limbo profissional e os institutos de pesquisa perdem credibilidade.

São outras instituições os financiadores e as universidades.

Fonte da imagem
O método científico

Conjunto de etapas que percorridas produzem o conhecimento científico. De forma resumida, o processo é iniciado a partir de um problema, pergunta ou observação de um fenômeno. Depois são levantadas algumas hipóteses que são testadas. Os resultados são analisados e podem-se chegar a uma conclusão ou ao retorno a uma das etapas anteriores.

Este método é aplicado em hipóteses que podem ser testadas ou falseadas através da observação de evidências empíricas, ou seja, evidências que podem ser percebidas através de um dos nossos sentidos.

Vamos supor que seu vizinho diga que na garagem dele tem um dragão. Você vai lá olhar e não vê nada. Então ele diz que é porque o animal é invisível. Você então tenta, sem sucesso, tocá-lo, mas desta vez a desculpa dada é que ele é intangível. O dragão também não exala nenhum cheiro e não pode ser detectado por nenhum tipo de equipamento. A única prova sua existência é o depoimento de seu vizinho. Esta evidência, o depoimento de uma pessoa, não pode ser testada, logo, teorias que não podem ser provadas através de testes não são consideradas científicas, são mitos. 

Outro exemplo: é comum ouvirmos relatos de pessoas afirmando que a homeopatia funcionou com elas, mas casos isolados não são suficientes para confirmar uma hipótese. Até existem alguns estudos que mostram resultado positivo na homeopatia, mas é preciso destacar duas falhas de metodologia: 1) o número de pessoas acompanhadas (N amostral) é muito pequeno com relação aos estudos conduzidos para se colocar um alopático no mercado (que pode chegar e dezenas de milhares de indivíduos em três grupos: clínico, controle e placebo), o que resulta numa falácia da generalização precipitada; 2) os resultados são superficialmente melhores do que os resultados do placebo. A homeopatia nunca passou por um escrutínio científico, e já foram realizados vários.

A falácia da generalização precipitada é quando o tamanho de uma amostra é insuficiente para sustentar uma generalização e evidência anedótica é uma evidência que só funciona para uma pessoa ou que não pode ser testada. A evidência empírica é aquela que pode ser observada por um dos nossos sentidos.

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Conhecimento tradicional, popular, ou cultura

Os remédios indígenas, feitos pelo pajé através da mistura de várias plantas, apesar de muitos possuírem efeitos reais de cura, não são ciência. Podemos dizer que são conhecimentos tradicionais, conhecimentos populares ou cultura, mas jamais podemos dizer que são ciência porque não passaram pelas instituições nem pelo método científico. Seus resultados foram conseguidos através de centenas de anos de tentativas e erros. Antes do surgimento da ciência, superstições, simpatias e feiticeiros eram utilizados porque eram as únicas opções disponíveis.

As ciências humanas

As ciências humanas também são ciências, exceto a filosofia e as ciências jurídicas, que tratam mais de outras questões, como a ética e a moral. A sociologia, por exemplo, utiliza muita estatística para avaliar grupos populacionais e a antropologia tem o sistema de parentesco. Pesquisas bibliográficas e coleta de testemunhos, técnicas muito utilizadas nas humanas, também se encaixam no método científico.

A psicologia utiliza pesquisas quantitativas e qualitativas, experimentos controlados e observações em ambientes naturais.

As pseudociências

A ciência é extremamente respeitada pela população, por isso algumas pessoas travestem determinados conhecimentos de ciência com o objetivo de ganhar credibilidade, mas quando olhados de perto percebemos que algumas etapas não foram realizadas. Exemplos: homeopatia, astrologia, psicanálise, numerologia entre muitas outras.

Pode uma pessoa comum fazer ciência?

Quando um parente seu fica doente e você receita um remédio, isso é fazer medicina? Quando seu vizinho desenha um quartinho no quintal e pede para um pedreiro construir, ele está fazendo arquitetura ou engenharia? Pode-se produzir ciência na garagem de casa? A resposta é: depende.

Como vimos, o produzir ciência passa por diversas instituições. Para ganhar o carimbo 'comprovado cientificamente' a pesquisa precisa ser replicável, da aprovação da comunidade e ser publicado numa revista.

A indústria

A indústria frequentemente paga por pesquisas que permitam a comercialização de seus produtos, mesmo que os resultados sejam forçados e isso custe a vida dos consumidores. As fabricantes de cigarros são um grande exemplo, que apresentavam 'estudos' que comprovavam benefícios em saúde do fumo. Agora os agrotóxicos estão passando pelo mesmo escrutínio público, assim como as farmacêuticas.

O que cabe ressaltar nestes casos é que essas falsas pesquisas são refutadas com ciência. Estudos idôneos são conduzidos e através da metodologia aqui apresentada escancaram os interesses desses grupos que podem sofrer sanções penais por esta conduta.

Resumo

Hoje aprendemos que nem toda produção de conhecimento é ciência. Os saberes que não passaram pelas instituições científicas são saberes tradicionais, populares ou cultura. 

As pseudociências, como a homeopatia, tentando ganhar credibilidade da sociedade, se travestem de ciência mas suas hipóteses nunca foram comprovadas pelo método científico. Logo, são mitos.

A ciência nunca é feita só por uma pessoa ou instituição. Precisa passar por um conjunto de entidades, ser replicável e testável.

Falsos resultados apresentados pela indústria são refutados com mais ciência, e não com menos.

A ciência não vende verdades absolutas. Diante de novas evidências, coloca as conclusões anteriores em xeque e parte na busca de novos resultados. É um exercício de humildade e a melhor coisa que a humanidade já criou.

Referências (algumas)
Armadilhas do Pensamento - Evidências Anedóticas

Falseabilidade

terça-feira, 24 de julho de 2018

Homeopatia: Guia Definitivo

Veneno de cobra, fígado de pato e besouro moído. O que parecem ingredientes do caldeirão da bruxa na realidade são algumas das matérias-primas utilizadas na fabricação de remédios homeopáticos.

Acredito que muita gente acha que a homeopatia é uma opção válida porque não sabe como ela é feita. Senta que lá vem polêmica. Hoje o titio vai mostrar como essas bolinhas são produzidas. Se mesmo assim você continuar achando que existe alguma possibilidade de cura, eu desisto da humanidade.

O princípio

A principal regra da homeopatia é 'semelhante cura semelhante'. Ou seja, o princípio ativo, que pode ser de origem animal, vegetal ou mineral, precisa causar um efeito semelhante ao da doença que se quer combater. Um exemplo real é a cebola. Quando cortamos cebola nossos olhos ardem e lacrimejam, e podemos também ficar com o nariz escorrendo. São sintomas parecidos com o da gripe, logo, aplicando o princípio do semelhante cura semelhante, esse bulbo é diluído e utilizado no combate à gripe.

A diluição e a agitação (dinamização)

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Esta é uma etapa importante do processo de fabricação. Os remédios homeopáticos são nomeados de acordo com o princípio ativo em latim seguido de um número, que indica a diluição. Allium cepa 6Ch quer dizer que a cebola (Allium cepa) é o princípio ativo (PA) diluído em seis centesimais Hahnemaniana (6Ch).

A centesimal Hahnemaniana consiste na diluição de uma parte da matéria-prima em noventa e nove partes do excipiente, que pode ser lactose, sacarose, álcool 70% entre outras opções. A chamada Tintura Mãe (TM) é a base para confecção dos medicamentos e contém 1% do princípio ativo. A partir dela são realizadas outras diluições e agitações. 

Para se chegar a 1Ch é utilizada uma parte da tintura mãe para noventa e nove partes do excipiente, ou seja, o resultado final desta dinamização fica com apenas 0,01% do princípio ativo em sua composição.

Para chegar ao 2Ch, pega-se uma parte da substância 1Ch e dilui-se novamente em noventa e nove partes do excipiente. Desta forma, no final da diluição, restam 0,0001% do PA.

Para chegar ao 3Ch, pega-se uma parte da substância 2CH e dilui-se em noventa e nova partes. Assim, restam 0,000001% da substância original.

Quando chegamos a 10Ch, a proporção é equivalente a uma gota do princípio ativo derramada em todos os oceanos da terra, que é agitado e ingerido de forma aleatória pelos pacientes. Em 13Ch já não existe nenhum resquício do fármaco. 

Vamos analisar um exemplo real: no site da Ultrafarma, a Allium cepa 6Ch está sendo vendida por R$21,60. Vamos ler a descrição do produto:


Alliun cepa 6Ch Boiron Glóbulos
Excipientes: sacarose e lactose

Boiron é o laboratório e glóbulos é o formato (aquelas bolinhas). Ou seja: são bolinhas de açúcar (no caso são utilizadas a sacarose e lactose) com 0,000000000001% de cebola (6Ch).

Neste site gringo é possível comprar a Alliun cepa em até 15 e 30 Ch, e, como vimos acima, essa diluição já não armazena mais nenhuma molécula da cebola. É, literalmente, apenas açúcar.

Na boa, tente colocar a razão para funcionar: você realmente acha que açúcar com cebola é suficiente para tratar a gripe? Veja bem: É SÓ A PORRA DE UMA CEBOLA! E em muitos casos não fica absolutamente nada da cebola, apenas o açúcar.

Na wikipedia você pode ver outras substâncias utilizadas na homeopatia. Partes de pato (penas, fígado e coração), veneno de cobra, orquídeas, conchas de ostras, mel, carvão, enxofre entre outras, que são diluídas até proporções que não deixam nenhuma molécula do princípio ativo.

Outros exemplos:

A Belladonna atropa é uma planta extremamente venenosa. Uma única folha ingerida por um adulto é capaz de matar. Causa febre e alucinações, logo é usada para combater doenças com estes sintomas.

Leite de cadela (lac caninum) também é utilizado para aumentar ou secar a quantidade de leite e dores nas mamas. Meu amigo, pense bem: você realmente acha que pingar leite de cadela na boca de alguém vai curar alguma doença? Esse é, sem dúvida, um dos exemplos mais absurdos da homeopatia. Se você ficou curioso, usa-se leite de labradora.

Um zueiro na farmácia

Se uma pessoa má intencionada entrar numa farmácia de manipulação a noite e trocar os comprimidos de frascos, ninguém nunca mais será capaz de fazer a reposição correta. Nem mesmo os mais avançados microscópios e a tecnologia mais moderna para identificação da composição química de substâncias é capaz de reconhecer os fármacos utilizados na produção da homeopatia, porque, como já vimos a medicação é tão diluída que não sobra nenhuma molécula do princípio ativo.

Suicídio homeopático

Diversos países, entre eles Inglaterra, Espanha, Bélgica e Brasil, já realizaram o evento suicídio homeopático, no qual manifestantes ingerem vidros inteiros do composto a base de belladonna, o mais venenoso da lista de ingredientes utilizados. Obviamente ninguém nunca morreu.

Memória da água

Setenta por cento do nosso corpo é água e repomos toda ela em poucos dias. Ou seja, a água que está hoje dentro de você já esteve nos oceanos, já foi chuva, esgoto, já foi bebida e urinada por dinossauros, irrigou plantações e já percorreu tantos lugares quanto nossa imaginação é capaz de criar.

Em homeopatia, memória da água refere-se à suposta capacidade da água reter propriedades de substâncias que nela estiveram diluídas, mas que não mais se encontram ali. É a desculpa que aqueles que acreditam em seus efeitos dão para justificar seu suposto funcionamento. Mas, se levarmos esta teoria em consideração (coisa que nunca foi provada), ela deveria guardar também as propriedades da urina, esgoto entre outras substâncias com as quais teve contato em seu histórico.

Fatos não são suficientes

Agora você já sabe tudo que precisava saber sobre homopatia. Se ainda assim você continua acreditando nesta bobagem, eu só posso lamentar. Infelizmente, certas crenças são tão arraigadas que nenhum fato ou prova é capaz de fazer com que as pessoas mudem de ideia. Tem gente que até hoje acredita que o filho do Lula é dono da Friboi, mas você não precisa ser uma dessas pessoas.


E para finalizar... uma piada