domingo, 1 de julho de 2018

Chove todo dia 2 de novembro

Criei o hábito de anualmente publicar no Facebook no dia 3 de novembro se choveu ou não na véspera, aka Dia de Finados. Nas últimas cinco ocorrências só choveu uma vez, vinte por cento dos casos, mas ainda assim é extremamente comum achar pessoas que têm certeza que sempre chove. Você se pergunta por que isso acontece? Por que as pessoas mantêm uma fé inabalável na precipitação do dia 2 de novembro? Felizmente a ciência tem a explicação. Senta que o titio vai falar sobre viés de confirmação e dissonância cognitiva:

Temos a tendência de somente perceber os fatos e informações que confirmem nossas crenças e ignorar tudo que nos contradiz. No caso em questão, as pessoas realmente esquecem dos dias em que não choveu, mas vão lembrar daqueles que choveram mesmo que ocorridos há muitos anos. A isso a psicologia dá o nome de viés de confirmação

Suponhamos que no dia 3 de novembro alguém vire para um desses crentes e mostre que fez um lindo dia de sol na véspera. Ao perceber isso, a pessoa vai sentir um desconforto psicológico, já que está diante de duas informações conflitantes. Naturalmente vamos tentar acabar com este desconforto, também conhecido como dissonância cognitiva. O indivíduo tem três opções:

a) ignorar o dia que não choveu e realmente esquecer, depois de algum tempo, essa informação e continuar acreditando que sempre chove;

b) interpretar o fato de forma tendenciosa, como dizendo que onde a tia dela mora em Manaus choveu;

c) recriar todo seu sistema de crenças e aceitar que realmente não chove. Mas isso dá muito trabalho. Requer um esforço mental enorme que muitas vezes tem efeito dominó e requer a reavaliação de outros valores. Por isso as pessoas evitam esta opção e preferem continuar na segurança de suas convicções.

Entendeu? A ciência não é incrível? 

Will Tirando
Isso acontece com todo mundo em todos os campos de conhecimento: na religião, política, esportes, relacionamentos amorosos, quando estamos tentando perder peso mas nos deparamos com um pedaço delicioso de pizza e procuramos um motivo para comer e não sentir culpa, enfim, ninguém está livre disso e na maioria das vezes ficaremos do lado mais confortável destes dilemas diários.

Em resumo:

Alguém que acredita que que chove todo dia dois de novembro é confrontado com o fato de não chuva nesta data. Ele sente um desconforto psicológico (dissonância cognitiva), já que está diante de duas ideias conflitantes. As opções que este indivíduo tem: esquecer desse dia que não choveu ou fazer uma interpretação tendenciosa para manter suas crenças (viés de confirmação) ou mudar todos seus valores, o que consome muito tempo e energia.

Há décadas cientistas anotam todas as chuvas que acontecem no mundo. Essa informação está disponível na internet. Você escolhe a região e a data e aparece uma planilha com a quantidade de milímetros precipitados. Ia fazer uma relação com os últimos dez anos para mostrar que não chove todo dia dois de novembro, mas desisti. Mas adianto o resultado: não chove. Se você acredita nisso, suas opções estão dadas.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Não quero acreditar, quero saber

É muito fácil verificar se a astrologia é real ou não. É só fazer pesquisas utilizando diversos grupos de pessoas, de países, religiões e culturas diferentes, de signos e ascendentes diversos, astrólogos, céticos e crédulos, aplicar testes de verificação de personalidade (a psicologia tem diversos modelos) e comparar com os traços descritos no zodíaco.

A ciência já fez isso e provou não não existe nenhuma relação entre a data e hora do nascimento de uma pessoa e sua personalidade. Como não estou fazendo proselitismo, não vou colocar os links porque quem acredita vai continuar acreditando, independente de qualquer prova.

Doctor House tem uma frase incrível que resume bem essa necessidade em acreditar. Ele se refere à religião, mas faço uma licença poética para aplicar a todos os tipos de superstições: "Se argumentos racionais funcionassem com pessoas religiosas, não haveria pessoas religiosas."

As mulheres são mais propensas a acreditar na astrologia porque historicamente elas sempre foram apartadas da ciência, é só ver a quantidade de mulheres cientistas no mundo. Essa falta de contato com as ferramentas que explicam o funcionamento da natureza afetam a capacidade de relacionar causa e efeito, abrindo caminho para a crença num mundo assombrado por demônios.

Se você acredita em astrologia, não se sinta mal, você é o resultado de um sistema educacional ruim. A boa notícia é que ainda dá tempo para rever esse conceito.

Guia Prático de Ciências da revista Globo Ciência
Venho de uma família muito simples que sempre fez tudo para suprir minhas parcas vontades literárias. Um ponto marcante na minha vida foi a compra da coleção Guia Prático de Ciências, que trazia dezenas de experimentos para serem realizados em casa com materiais domésticos. Depois de cada experimento, aprendíamos um pouco sobre o funcionamento da natureza. A grande lição das horas que passava no meu quarto com esses livros foi aprender a necessidade de provas documentais para acreditar em alguma coisa.

O método científico não é perfeito, mas é o melhor que temos. Foi ele que levou o homem à lua, colocou satélites em órbita, criou celulares, internet, vacinas entre outras maravilhas, por isso não podemos negar sua eficácia em explicar o universo.

Também adorava assistir o Mundo de Beakman, programa infantil de televisão sobre ciência. Abaixo um trecho bem simples que explica como os cientistas trabalham: fazem uma pergunta, formulam uma hipótese, testam a hipótese através de um experimento, chegam a uma conclusão e, quando necessário, formulam outra hipótese e o ciclo recomeça.

Isso já foi feito vários vezes e a astrologia não passou em nenhum teste*. Felizmente agora os cientistas gastam seu precioso tempo em atividades realmente importantes para a humanidade.


* Testes sérios.



terça-feira, 22 de maio de 2018

Multa a pedestres

A partir de 2019, pedestres que não atravessarem na faixa poderão ser multados, e vou mostrar porque isso é errado e uma forma de penalizar os mais fracos.


Esse cruzamento fica perto da minha casa. Se eu quiser atravessar a rua Camerino, do ponto A ao ponto B, seguindo o planejamento de prefeitura, eu teria que passar por três sinais (C, D e E) e andar  um total de 300 metros para chegar até a pastelaria da esquina. Isso tudo simplesmente para chegar ao outro lado da rua. Você acha justo eu ser multado por ir do A ao B nestas condições?

Outra situação: esta matéria do Bom Dia Brasil coloca a culpa no pedestre pelos riscos que ele corre ao atravessar a rodovia num ponto distante 300 metros da passarela. Mas a distância é o dobro dessa, já que são necessários caminhar mais 300 metros para chegar ao destino. Considerando ida e volta, são um quilômetro e duzentos metros a mais.

Poderia ficar aqui o dia inteiro citando outros exemplos e mostrando o quanto a política de mobilidade do Brasil privilegia há mais de cinquenta anos os deslocamentos por carro.

O gráfico abaixo mostra a evolução da engenharia de tráfego:

Fonte
No Século XIX, quem quisesse fazer um trajeto a pé ou a cavalo percorreria a mesma distância. No início do século seguinte, os bondes, uma novidade na época, percorria um pouco mais em comparação aos outros modais, assim como os carros a partir de 1920. De 1950 em diante, a menor distância percorrida entre dois pontos sempre vai ser de quem estiver dentro de um carro. Explico:

O cidadão que resolver percorrer a pé toda a extensão da Avenida Presidente Vargas vai andar mais do que seus quatro quilômetros. Na esquina com a Avenida Passos não existe sinal para pedestre, obrigando o caminhante a fazer um desvio de 50 metros Passos adentro e depois voltar outros 50 para continuar sua jornada. Esse tipo de percurso acontece ao longo de toda a Vargas, mas se a pessoa resolver fazer o mesmo trajeto de carro vai encontrar um linha reta sem nenhum tipo obstáculo.

Outro dia fui numa empresa que fica no Trevo das Missões, entroncamento entre a Avenida Brasil e a Washington Luiz. Na volta, perguntei a um ambulante como acessar o ponto de ônibus, já que não via sinal nem passarela. Recebi um conselho: pede para papai do céu e vai. O ponto, não oficial, é um acordo entre motoristas e passageiros para que os trabalhadores não fiquem sem transporte, já que a prefeitura ignora totalmente a presença de gente naquela região.

Nossa vida andando na cidade é assim, pedindo para papai do céu e indo.

Para tentar forçar o pedestre a seguir esse planejamento tacanho, grades são colocadas nas calçadas, mas quem já estudou minimamente urbanismo sabe que muitas pessoas continuarão atravessando fora da faixa e abrindo buracos nas cercas, aumentando ainda mais seus riscos.

A preferência sempre vai ser do carro, fazendo com que o cidadão que precisa enfrentar ônibus lotado todos os dias almeje comprar um ao invés de vislumbrar uma cidade que ofereça igualmente a todos os modais a mesma possibilidade. O resultado dessa política todos nós conhecemos, que são os engarrafamentos, acidentes, poluição, estresse, mortes e doenças.
Acima, espaço que a locomoção individual motorizada ocupa no planejamento das cidades. Logo abaixo, a forma como deveria ser, com todos os modais recebendo o mesmo tratamento.
Cresci vendo filmes policiais ambientados em Nova Iorque dos anos 80, com aquelas cenas de perseguição e tiroteios no meio das ruas engarrafadas, cinzas e poluídas, realidade bem parecida com a do Rio de Janeiro de hoje (inclusive com os tiroteios). Graças a uma política urbana revolucionária, agora a Big Apple é um exemplo para o mundo, mostrando como diminuir os engarrafamentos reduzindo os espaços para os carros, cortando vagas de estacionamento nas ruas, alargando calçadas, criando novas praças, espalhando ciclovias e investindo no transporte público. Abaixo, uma foto do antes e depois da Madison Square, a esquina mais famosa mundo, da Quinta Avenida com a Broadway:


Outros exemplos abaixo:
Nova Iorque: ruas deram lugares a boulevares
Los Angeles seguiu o exemplo

Por que não dá para fazer isso no Rio?

Nos Estados Unidos e na Europa esse sucesso só pode ser atingido por causa do forte investimento em transporte público, e esse é o principal motivo que dificulta a implementação desse modelo no Brasil. Por aqui, empresas de ônibus são os principais financiadores das campanhas eleitorais, e quem paga a conta escolhe a música. Quase todos os vereadores e prefeitos recebem dinheiro daqueles que mais ganham com o sucateamento do transporte, o que permite reajustes nas tarifas acima da inflação, veículos velhos em circulação e horários irregulares. Por isso, metrô e barcas ficam em segundo plano. O mesmo acontece em nível federal, com montadoras ganhando incentivos fiscais para vender cada vez mais carros.

O mais curioso é que o único candidato a prefeito do Rio que não aceitou doações dos empresários de ônibus e resolveu enfrentar esse modelo perverso que massacra o carioca, querendo adotar uma política pública parecida com a de Nova Iorque, foi um socialista. Podem me chamar de esquerdopata, mas vai ser Marcelo Freixo quem um dia vai fazer isso por aqui.

Em São Paulo, o petista Fernando Haddad não conseguiu se reeleger. Enquanto prefeito, também resolveu investir no transporte público e ciclovias, reduziu a velocidade nas marginais, diminuiu os espaços para carros e abriu a Avenida Paulista para pedestres aos domingos. Qualquer semelhança com Nova Iorque não é mera coincidência.

Não tá acreditando? Veja a matéria abaixo no Jornal Nacional:



Zero mortes

Como pode ser visto acima, Nova Iorque adotou uma meta ousada, a de zerar o número de mortes no trânsito. Para isso, deu prioridade aos pedestres, aumentou as multas, reduziu velocidades e os espaços destinados aos carros. Desta forma, reduziu a quantidade de óbitos para o mesmo patamar de 1910, quando as ruas eram ocupadas por carroças.

Talvez zerar o número de mortes não seja uma meta atingível, mas é o que norteia toda a política urbana da cidade. Chorei vendo o vídeo abaixo, quando um cidadão é perguntado qual seria o número tolerável de óbitos:


Mas no Brasil o deslocamento de carros tem mais importância que a vida das pessoas, e assim continuamos matando. Tentar obrigar alguém a esperar três sinais e andar 300 metros para atravessar uma rua é aumentar ainda mais os riscos de morte, já que a realidade mostra que ninguém vai fazer isso. Ninguém vai andar 300 metros para chegar até a passarela, totalizando 1.200 metros ida e volta, ou 20 minutos a mais para uma tarefa que deveria levar poucos segundos.

Cidades modernas já entenderam isso e deram prioridade aos deslocamentos a pé, salvando milhares de vidas por ano. Apesar da nossa legislação preconizar que o pedestre tem prioridade, nossa realidade mostra outra coisa. 

É triste viver num país onde minha vida vale tão pouco.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Big Brother da vida real

Moro perto do prédio da Polícia Federal no Rio, ao lado da Praça Mauá. Consequentemente bebo nos mesmo bares que os policiais, e semana passada um deles sentou na minha mesa e conversamos por um bom tempo. Ele trabalha ouvindo escutas autorizadas pela justiça e fazendo transcrições das conversas, que servem para alimentar as investigações que estão em curso. Lembrei de um filme dos Estados Unidos no qual o protagonista é um agente da CIA que trabalha como analista de informações, também ouvindo escutas e interceptando e-mails, atividade realizada por quase a totalidade dos agentes, realidade bem diferente daquela retratada no cinema com espiões agindo secretamente em território estrangeiro e trocando tiro com terroristas.

A realidade brasileira é parecida, boa parte da força policial federal trabalha com informações. As ações de rua, de busca e apreensão, geralmente são realizadas pelos novatos ou pela força especial que sai em operações específicas e de alto risco. A revista piaí de maio narra uma dessas operações, digna de virar filme.

A principal diferente entre e terra do Curupira e a terra do Tio Sam é a tecnologia. Por lá, algorítimos 'ouvem' as conversas e separam palavras chaves. Por aqui, ainda precisamos de uma pessoa com fone no ouvido e digitando tudo que os suspeitam falam.

Uma coisa que ainda não conseguiram grampear, pelo menos por aqui, são as conversas do WhatsApp, o que dificulta muito as investigações. Tudo que a PF consegue fazer é plugar o aparelho apreendido num equipamento, chamado de chupa-cabra, e baixar as mensagens. E este equipamento custa muitos milhares de reais.

Ainda que tecnicamente seja possível instalar um app espião, é necessário estar de posse do aparelho desbloqueado para isso. Ou através de aplicativos maliciosos, de origem duvidosa, instalados pelo proprietário sem saber. Por isso é fundamental ficar atendo a tudo que colocamos no celular, de preferência apenas produtos de empresas conhecidas, como Google, Microsoft ou Apple. Aquele joguinho passa-tempo pode estar te espionando, com acesso ao seu microfone, câmera e conversas.

O WhatsApp, ao que parece, realmente é um ferramenta a prova de invasão. Muitos juízes que não conhecem a tecnologia já solicitaram ao Facebook, empresa proprietária do aplicativo, mensagens de pessoas que estavam sendo investigadas. Diante da impossibilidade de fornecer esses dados, que são criptografados e apenas o emissor e o receptor têm acesso ao conteúdo, mandaram tirar o programa do ar no Brasil. Isso já aconteceu umas duas ou três vezes, mas por apenas algumas horas, já que as medidas foram revogadas por outros juízes.

Ter um pouco de privacidade é reconfortante, apesar de saber que o acesso a estas conversas poderia ajudar a desvendar muitos crimes. Lembro de acompanhar pela imprensa o desaparecimento de um adolescente e ficar imaginando se seu paradeiro não teria sido descoberto com mais facilidade se os investigadores tivessem tido acesso às mensagens do WhatsApp, mas ainda acho a privacidade mais importante. Não apenas por questões pessoais, mas porque acredito que isso possa coibir o caminho para um futuro distópico.
Fonte da imagem
Nos Estados Unidos existe uma briga entre a justiça, a polícia e a Apple para que a empresa forneça ferramentas que permitam que investigadores acessem iPhones apreendidos. A Apple tem lutado até onde pode para não permitir isso, visando proteger seus usuários. Em um caso recente, a polícia invadiu um velório para desbloquear, através da digital, o telefone do morto.

Somos vigiados

Tenho certeza que meu celular tá me ouvindo 24 horas por dia. A incidência de anúncios relacionados às minhas conversas é tão grande que já passou de qualquer possibilidade estatística de ser coincidência. Não sou terrorista nem trabalho com informações confidenciais, mas, caso fosse, meus hábitos seriam outros. Ainda assim, passei a tomar alguns cuidados que compartilho com vocês:


Celular: só instalar apps confiáveis e bloquear acesso ao microfone e câmera. Só ligar o GPS quando for necessário.

Navegador: atualmente uso o Brave, que bloqueia quase todos os anúncios (no Youtube não aparece nenhum, os vídeos rodam sem nenhum tipo de interrupção), localizadores e cookies (arquivos instalados no computador que registram os hábitos do usuário). Se você quer continuar com o Chrome, instale um adblock confiável.


Se é exagero eu não sei, mas já chegamos num futuro distópico na China, que controla por vídeo quase todos seus cidadãos, um Big Brother real. Proteger até o fim nossas informações nos ajuda a evitar que esse tipo de coisa aconteça por aqui.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Calabouço

Autorizei o débito no cartão de crédito e em poucos segundos todos os romances de Machado de Assis estavam disponíveis para leitura no meu Kindle. Custaram alguns poucos reais e comecei com Esaú e Jacó, que inicia com a subida de Natividade e sua irmã, Perpétua, ao extinto Morro do Castelo para fazer uma consulta com uma bruxa.

O Morro do Castelo foi derrubado em 1922 e do local só sobraram o nome, que indica a região onde ele ficava no centro da cidade, e um pequeno trecho da Ladeira da Misericórdia, que só não foi abaixo também porque serve como parte da estrutura que mantém em pé a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso. Para mim é um local de reflexão, já sentei naquele calçamento de pé-de-moleque para imaginar o Rio em seus primeiros anos de fundação. Aquelas pedras fazem parte da primeira rua da cidade, e o arrasamento do morro foi uma violência histórica e cultural que teve como objetivo expulsar os pobres que moravam a poucos metros da recém criada Avenida Central, atual Rio Branco, com seus novos prédios de inspiração francesa.

Se fosse me casar numa igreja, seria esta que está aos pés da ladeira. Não apenas pela forte ligação com o Rio, mas por ser ali o local onde foram realizadas as primeiras apresentações teatrais, com índios catequizados dirigidos por padres jesuítas em encenações que contavam a história do cristianismo.
Ladeira da Misericórdia
Foi essa paixão pela gênesis da cidade que me levou a começar por Esaú e Jacó. Os olhos dos meus amigos brilham ao falar de Machado e Lima Barreto, o que sempre me deixou envergonhado por não ter lido nenhum deles. Sou um leitor tardio, comecei no ensino médio por influência de amigos. Foi Carlos Leandro quem me ofereceu a primeira publicação que li com gosto, O Menino Sem Imaginação, uma crítica bem humorada à sociedade e à televisão.

Meus pais sempre responderam positivamente os meus parcos interesses pela literatura e compravam os livros que me interessavam, além de fazer assinaturas de revistas. Ainda guardo muitos desses materiais no meu antigo quarto, dezenas de edições da Globo Ciência, atual Galileu, e uma coleção em capa dura de ciência para crianças, com várias experiências que podiam ser realizadas com itens caseiros. Só agora, ao escrever estas linhas, que me dou conta do quão importante isso foi para minha formação. Foi neste momento que o método científico fincou raízes no meu cérebro.

Embebido na leitura de Esaú e Jacó, fui até a casa onde o autor nasceu e passou seus primeiros anos, a uns 300 metros de onde eu moro. A residência está abandonada e não há nada que indique que ali morou o maior escritor brasileiro. Só sabemos disso graças ao trabalho do historiador Milton Teixeira, que recentemente fez esta descoberta. Outros dois locais onde Machado morou possuem placas indicativas: o prédio da Firjan na esquina da Rua Santa Luzia com a Graça Aranha e um prédio residencial no Cosme Velho, que rendeu-lhe o apelido de Bruxo do Cosme Velho. Apesar das casas não existirem mais, as placas não deixam esta história ser esquecida.

O que mais me surpreende é que a Ladeira do Livramento está na Região Portuária do Rio, um espaço também conhecido como Pequena África, tamanha a influência da cultura africana. Como forma de celebração, foi criado pela prefeitura um circuito com locais importantes para a cultura negra, como a Pedra do Sal (onde surgiu o samba), o Cais do Valongo (cais que mais recebeu africanos escravizados no mundo, foram cerca de um milhão) e o Cemitério dos Pretos Novos (onde os cativos que morriam por causa da péssimas condições da travessia do Atlântico eram enterrados). A casa onde Machado de Assis nasceu, que era negro, ficou fora do circuito.

A Pequena África recentemente ganhou o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, título em risco por conta de uma gestão incompetente da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro que ainda não realizou nenhum dos compromissos firmados com a Unesco, como a criação de um centro de visitação. Surpreendentemente, a secretária é negra e não faz absolutamente nada preservar essa história.

Infelizmente não me encantei com os romances do Bruxo. Achei difíceis, com palavras e referências que não conheço e uma estrutura de texto que não estou habituado a ler. Nem terminei Esaú e Jacó, o que me faz me sentir meio burro.

Curiosamente, foi uma tradutora estadunidense, responsável pela quarta tradução em inglês de Brás Cubas, que despertou em mim novamente a vontade de tentar. Em excelente artigo publicado na revista piauí, ela conta o desafio que foi traduzir a palavra calabouço, presente em dos trechos do livro.

Ponta do Calabouço
Apesar de grafado em letra minúscula, esta referência eu sabia. O nome se refere a um local onde os escravos eram castigados, já que seus proprietários eram proibidos de aplicar castigos físicos. Claro que esta regra não era respeitada, principalmente no interior, mas na capital do país era necessário pagar ao estado para que os negros fossem açoitados.

O Calabouço ficava perto do atual Museu Histórico Nacional e hoje seu exato local está na cabeceira do aeroporto Santos Dumont. Eu sobrepus uma mapa antigo com um atual, tirado do Google Maps.

Flora Thomson-DeVeaux, a tradutora, conta a saga que foi fazer esta descoberta, já que todos seus amigos cariocas desconheciam essa história. Assim como o Calabouço, os livros de Assis são repletos de referências que, apesar de estarem no cotidiano dos habitantes da cidade na época em que foram escritos, requerem grandes pesquisas para serem entendidas em sua plenitude. Fiquei impressionado com a pesquisa de Flora para achar a palavra perfeita para a tradução e com a solução encontrada, que vai virar uma nota de rodapé. Foi a partir daí que me dei conta das edições comentadas, que trazem anotações que ajudam o leitor contemporâneo a entender a obra. Acabei de comprar por três reais o Memórias Póstumas de Brás Cubas, comentado, ilustrado e com glossário. Vamos ver se desta vez eu consigo.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A polêmica do Peninha

O martelo do tribunal da internet bateu mais uma vez. Como já li algumas das publicações do Eduardo Bueno, assisti todos os vídeos do Buenas Ideias e já o acompanho em entrevistas e reportagens há algum tempo, posso falar com um pouco mais de profundidade sobre ele do que os comentários que tenho lido no Facebook, chamando-o de babaca e diminuindo a importância de seus livros. Tudo isso por conta de um vídeo sobre futebol no qual ele fala para a comentarista voltar para a cozinha.

É difícil encaixar Eduardo Bueno, o Peninha, um dos quadrantes do plano cartesiano político, por isso ele é atacado tanto pela direita quanto pela esquerda. Meio como o Ricardo Boechat. Isso não me incomoda, já que também sou assim, como vai ficar claro neste texto.

Bueno sempre foi polêmico, mas teve, e tem, importância fundamental no incentivo ao estudo de história. Foi o primeiro escritor a colocar a história do Brasil nas listas dos mais vendidos com a trilogia Terra Brasilis. Jornalista de formação, escreveu com uma linguagem acessível e atraente as difíceis palavras dos acadêmicos. Isso abriu caminho para outros best sellers, como Laurentino Gomes. Obviamente os historiadores ficaram chateados com o sucesso dos jornalistas e uma rixa foi criada.

Polêmica com Eduardo Bueno
O engraçado disso é que foi o Bueno o responsável pelo interesse de muita gente em conhecer nossa história, cuja deficiência virou bordão da esquerda para explicar o crescimento de discursos de ódio.

Muita gente se incomoda porque ele toca em alguns tabus, mas que são fundamentais para entender o país de maneira limpa. Um desses tabus é que os grupos revolucionários durante a ditadura não lutavam pela democracia, mas lutavam pela implementação de outra ditadura, a do proletário. Uma rápida pesquisa no Google prova isso, tando que houve diversas dissidências por alinhamento ideológico, alguns queriam seguir o modelo soviético e outros o modelo chinês.

Os africanos escravizados trazidos para o Brasil eram vendidos por outros negros, assim como Zumbi, ícone da liberdade, tinha escravos em seu quilombo. Peninha toca nesses assuntos não para justificar o racismo ou qualquer outro tipo de violência, mas porque esses fatos são reais e uma discussão honesta sobre nosso passado não pode omitir nenhuma informação.

Futebol e zueira

Não acompanho futebol, mas todas as discussões que presenciei de amigos conversando sobre o assunto foram acaloradas e a zueira sempre reinou nesses ambientes, não como forma de opressão, mas como demostração de intimidade e afeto. Quantas vezes já chamei amigos de filhos da puta como sinônimo de querido? Muitas.

Quando estamos cercados de pessoas próximas, nossa língua fica mais frouxa. Os filtros morais desaparecem e por vezes fazemos comentários jocosos que não possuem nenhum objetivo de ofender.

Não acredito que Bueno seja machista ou racista, e tampouco achei o comentário ofensivo. Adoro o canal dele de história, o Buenas Ideias, no qual ele usa a mesma língua afiada.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Bactérias e saúde

Durante boa parte do Século XX, a medicina recomendava uma caça total às bactérias. Até hoje essa ideia reverbera, visto a quantidade de produtos antibactericidas no mercado, desde sabonetes íntimos, produtos de limpeza e uso excessivo de antibióticos. Não faz tempo que o Fantástico tinha um quadro chamado Doutor Bactéria, com dicas de como eliminar esses seres do nosso dia a dia.

Com o passar do tempo, percebemos que apenas 1% das bactérias são patogênicas, ou seja, podem nos causar doenças, e uma grande parte delas é fundamental para manter nossa saúde. Aquela história de deixar a criança pegando anticorpos brincando na areia da pracinha e convivendo com cachorros é verdadeira. Pesquisas apontam que crianças nascidas em parto natural entram em contato com bactérias vaginais da mãe que ajudam a fortalecer o sistema imunológico.

Essa nova percepção tem jogado no mercado toneladas de produtos probióticos, alimentos que possuem microrganismos vivos em sua composição, e muita gente tem perdido um pouco a noção ao defender suas propriedades curativas. Alguns afirmam, ainda sem comprovação científica, que é possível até curar câncer.

Infelizmente a ciência começou há pouco tempo a realizar pesquisas nestas áreas, mas já existem alguns indícios: esse excesso de limpeza de ambientes e da comida (alimentos processados são esterilizados) ajudaram a enfraquecer nossos corpos, resultado totalmente oposto àquele desejado quando esta onda anti germes começou. Este enfraquecimento pode ter ligação com o considerável  aumento do número de crianças que hoje em dia são alérgicas, índices maiores do que os registrados em gerações anteriores, o que tem preocupado médicos e cientistas.


As bactérias presentes na vagina também possuem função de proteção contra a entrada de agentes nocivos, então sabonetes íntimos antibactericidas podem ser prejudiciais. O mercado faz de tudo para fazer as mulheres se sentirem sujas, dizendo que seus cheiros naturais são ruins, tudo isso para vender produtos de limpeza.

Diante de todas essas evidências, tenho adicionado alguns produtos fermentados naturais na minha dieta e cultivo em casa kefir, kombucha e levain, colônias de bactérias e leveduras usadas para transformar alimentos.

O kefir transforma leite em iogurte de um dia para o outro, e uso misturando com frutas e mel, fazendo molhos para salada e coalhada seca. Também pode ser usado no preparo de substitutos de queijo fresco, requeijão entre outros produtos.

Meu kombucha
Já o kombucha é usado para fermentar chás que possuem cafeína, como o verde e o mate. Confesso que é bem ruim, a colônia transforma o açúcar em ácido lácteo, deixando um sabor avinagrado, mas é possível fazer um refrigerante natural e gaseificado misturando com sucos, ervas ou raízes, por exemplo.

O levain é a fermentação natural de pães. Não possui propriedades probióticas, já que o forno mata toda a cultura, mas o resultado é delicioso. O pão é um alimento milenar e não existia fermento químico nem supermercado quando foi criado. A fermentação ocorria através dos microrganismos presentes no ar que começavam a se alimentar da farinha molhada deixada em certas condições ambientais.

Chucrute e cerveja caseira também são fermentações naturais, mas ainda não me arrisquei nestas áreas.

Virou moda

O uso desses microrganismos para fazer comida tem virado moda e Sandor Katz é considerado o guru da fermentação. Ele recentemente esteve aqui no Brasil falando com cultivadores.

Essa moda está fazendo surgir a cada dia um novo canal no Youtube, um novo livro, eventos e cursos, além de grupos que fazem doações dessas colônias para quem quiser começar. Eu mesmo já doei kefir e kombucha para amigos e desconhecidos. Geralmente as pessoas desses grupos também são ligadas a ideias mais colaborativas de mundo, de enfrentamento ao consumismo e com hábitos de vida que visam diminuir a geração de lixo e poluição.

É um universo bem interessante. Recomendo fortemente o livro Cozinhar - Uma História Natural da Transformação, de Michael Pollan. Também tem a série Cooked, da Netflix, baseada no livro.

Mas não deixe de tomar banho

Obviamente não podemos deixar de manter hábitos de higiene como lavar as mãos antes de comer, mas é preciso achar um meio termo nesta convivência com os microrganismos, fundamentais para nossa saúde.

Atualização (23mai18): Contato com germes pode prevenir leucemia em crianças, diz estudo. 

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Desafios de Mandela e Boulos


Eu já tinha nascido quando a África do Sul ainda estava sob o Apartheid, regime racista que só terminou quando eu tinha treze anos de idade. Todo o poder político e econômico estava nas mãos dos brancos e aos negros só restavam a pobreza, trabalhar como mão-de-obra barata, restrições de circulação no próprio país e segregação em áreas públicas, como praças, restaurantes e escolas. Tudo isso feito de forma violenta, com prisões e chacinas, como a de Soweto, favela onde 23 estudantes foram assassinados pela política no dia 16 de junho de 1976.

O Apartheid oficialmente terminou com a chegada do Mandela à presidência, mas a situação do negro pouco mudou e, em alguns situações, até piorou, como a expectativa de vida desta população que diminuiu. O poder político trocou de mãos, mas o poder econômico continuou nas mãos dos brancos.

A resistência a este regime foi feita pelo Congresso Nacional Africano, liderado pelo futuro presidente, que rapidamente entrou na ilegalidade. O CNA criou de forma colaborativa e clandestina, com seus militantes discutindo em diversas aldeias do país, sob risco de prisão e morte, a Carta da Liberdade, que elencava as diretrizes de uma África do Sul sem racismo e desigualdades. O documento pregava, entre outras medidas, a necessidade da reforma agrária e da estatização das empresas que exploravam as riquezas minerais do país. Com Mandela livre e concorrendo à presidência, a elite branca, dona das fazendas e das mineradoras de diamantes e metais preciosos, se armou.

Esta pequena introdução é para fazer uma comparação com o Brasil, guardadas as devidas proporções: também temos um genocídio da população negra em andamento e a elite financeira, dona dos bancos e dos meios de produção, não vai abrir mão de seus privilégios sem lutar. Pensei nisso durante a entrevista do pré-candidato Guilherme Boulos no Roda Viva, que cita luta de classes e a necessidade de se enfrentar a minoria rica brasileira, aquele 1% que concentra 27% da renda.

Um dos mortos em Soweto sendo carregado
Na África do Sul, fazendeiros literalmente se armaram e estavam prontos para atirar em qualquer um que tentasse fazer a reforma agrária. O grande desafio de Nelson Mandela foi: como colocar em prática a Carta da Liberdade sem começar uma guerra civil? Ou melhor: escolher entre um derramamento de sangue numa tentativa de colocar em pauta as mudanças solicitadas pela população negra ou deixar tudo como estava? Ele escolheu deixar tudo como estava.

Quando estava formando seu ministério, o novo presidente deixou os mesmos brancos que já estavam lá cuidando da economia. Nada foi mexido nesta área e o país continua sendo, até hoje, um dos mais desiguais do mundo. As favelas negras são mais insalubres do que as brasileiras. O povo continua pobre e sofrendo dos mesmos problemas. O poder político trocou, mas a chave do cofre continuou no bolso das mesmas pessoas.

Quando Boulos fala que é preciso enfrentar os banqueiros, que tiveram lucro recorde enquanto mais de um milhão de pessoas voltaram a cozinhar com lenha porque não conseguem mais comprar gás, ele está tomando uma posição de Mandela não teve coragem de tomar. Por lá, a minoria dona dos meios de produção se armaram, por aqui, estão mobilizando as Forças Armadas e a imprensa. O líder do MTST está extramente preparado para guiar o Brasil rumo a um mais com menos desigualdade social, mas será que ele é capaz de governar e evitar um golpe militar?

As ditaduras que floresceram na América Latina durante a segunda metade do Século XX tiveram objetivos econômicos, perpetrar mudanças que não seriam possíveis em países democráticos. Parar políticas desenvolvimentistas e privatizar empresas públicas em benefícios de grupos multinacionais. Essas pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa para ganhar mais dinheiro e proteger seus privilégios, até mesmo começar um regime de exceção ou uma guerra civil. E é este cenário que estamos voltando a vislumbrar no Brasil.

Assista a entrevista completa de Boulos abaixo:


PS: quando falo da elite brasileira, não estou falando de você que está lendo isso. Não falo de quem precisa trabalhar para se sustentar, independente do salário que tem.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

A escola é chata

Não tenho televisão em casa há cinco anos, mas assisto Youtube diariamente. Cozinhando, lavando a louça ou comendo, coloco o celular na pia ou na mesa e deixo os vídeos passando. Minha atual predileção são canais que fazem divulgação científica, com vídeos que na maioria das vezes não passam de um bate papo entre jovens cientistas e pesquisadores que traduzem para uma linguagem acessível o que acontece na academia.

A forma de abordagem dos temas é sempre incrível, e simples, e me fazem gostar de ciência e lamentar pelo tempo que joguei fora na escola. Não existe nada mais medieval e ineficiente do que uma sala de aula tradicional, dinheiro e tempo jogados fora, dos alunos, professores e pais que pagam a mensalidade. Não lembro de absolutamente nada do meu ensino médio, disciplinas como química e física simplesmente desapareceram da minha lembrança e só agora, já adulto, começo a me encantar com esses assuntos. Culpo sem nenhum constrangimento o sistema educacional e, com um menor grau de responsabilidade, meus professores, com algumas exceções.


Me dá gastura lembrar que entrava numa sala e copiava o que o professor ia escrevendo no quadro. Depois que todos terminavam, tudo era apagado para mais uma leva de cópia. Absolutamente nada me restou, apenas decepção pelo que eu poderia ter aprendido e não aprendi. Uma professora de matemática usava anotações amareladas do tempo, exatamente as mesmas utilizadas quando ela dava aula para a mãe de uma colega de classe.

Não sei como é uma sala de aula hoje em dia, mas recursos tecnológicos e laboratórios são fundamentais para que todo o potencial dos alunos seja alavancado. O ser humano é um animal incrível e estamos tolhendo o talento de milhões de pessoas, cujo resultado ultrapassa o limite do indivíduo e reflete em todo o país, criando desigualdades e subdesenvolvimento. Na vida existe mais do que português e matemática, aqueles que apresentam aptidões para os esportes, artes, música, entre as dezenas de outras áreas, precisam ser estimulados.

Constituição, educação financeira, economia doméstica, cuidar de uma casa, cozinhar, plantar, leis de trânsito, são conhecimentos extremamente necessários e que a maioria das escolas ignora. Ao invés disso, fazemos os alunos decorarem fórmulas prontas que quando necessárias na vida real não serão aplicadas por que faltou a experiência prática.

Novos conteúdos

Muitos professores estão utilizando vídeos produzidos para o Youtube em sala de aula. O canal Manual do Mundo fez um no qual mostra a montagem de um hand spinner, aquele brinquedo de mão giratório que foi febre entre jovens, magnético, que explicou o funcionamento de um motor elétrico. Incrível, e aos poucos outros canais igualmente atrativos estão explicando biologia, evolução, matemática, geografia entre outras disciplinas. Assistir esse conteúdo e entender como funciona o método científico e a ciência é uma verdadeira vacina contra o surgimento de pessoas que acreditam que a terra é plana, criacionismo, que o homem não foi à lua, homeopatia e astrologia. 

Uma das coisas nas quais acredito que possa melhorar a educação é institucionalizar a ligação entre estas duas pontas, vídeos atrativos e escola. Alguns professores dão exatamente a mesma aula duas ou três vezes por dia, o que é um desperdício de recursos absurdo. Aulas em vídeo, bem produzidas, com um professor servindo de orientador para atividades práticas, é uma abordagem factível para a realidade brasileira.

Vídeo games e educação

Sempre tive preconceito com o educação à distância (EAD), achava que não teria disciplina para estudar fora de uma sala de aula até o dia em que fui experimentar os 15 dias gratuitos de uma plataforma de ensino de inglês. Hoje eu não cogito sair de casa para estudar inglês por nada. Enfrentar a rua, engarramento, deslocamento e todos os transtornos que isso representa já não me fazem nenhum sentido. A EAD conseguiu avançar principalmente por conta de um novo campo da educação: gamification, ou gamificação.

Jovens adoram jogar video games. Muitos deles passam vinte horas semanais na frente de uma tela apertando botões para matar zumbis ou alienígenas. Qualquer pessoa que passar vinte horas por semana estudando qualquer coisa vai se tornar proficiente em pouco tempo: tocar um instrumento, falar um idioma ou se aperfeiçoar em um esporte. Isso levanta duas questões:

1) Estes jovens são especialistas em video games. Como usar todo esse conhecimento para transformar positivamente a sociedade?

2) Como criar plataformas de educação que sejam tão atrativas quanto um jogo de computador?

Pesquisadores de EAD conseguiram grandes avanços na segunda questão. Através de pontuação, fases, interação entre outros elementos dos jogos, vários cursos à distância estão transformando o aprendizado, caso deste que estou fazendo. Diante disso, grandes players do ramo estão diversificando seus métodos em sala. Uma famosa franquia agora ensina seus alunos a elaborar projetos e realizar apresentações orais (pitching), além de empreendedorismo e gestão. O inglês parece até que fica em segundo plano.

O vídeo abaixo explica melhor o conceito de gamification e suas aplicações.


Educação como potência

Dá uma tristeza perceber que quase nada aprendi durante todos aqueles anos na escola, que deveria ser um lugar de potencia. Ao invés disso, milhões de jovens continuam desperdiçando seu tempo em um sistema massacrante.

Aqueles que podem pagar por uma educação diferente, com mensalidades de até dez mil reais reais, conseguem manter suas dinastias. Existem outras alternativas, como as escolas Waldorf, com mensalidades mais em conta e algumas unidades no Rio, mas nada se compara ao que a Finlândia está fazendo, com escolas sem paredes, mobiliário formado por sofás, pufes e bolas de pilates (eu estudava numa carteira de madeira extremamente desconfortável, e me disseram que o desconforto era para evitar que o aluno dormisse), os estudantes se juntam por projetos, não por turmas, e a tecnologia é parte fundamental do aprendizado. Simplesmente incrível. Educação como potência, não como forma de dominação e perpetuação de uma pequena casta privilegiada.

Lei da Atração

Essa semana pipocou na minha TL comentários falando que a Lei da Atração foi comprovada cientificamente. Cada um é livre para acreditar no que quiser, mas NÃO, a ciência não provou nada.

Ciência se faz com publicações em revistas especializadas. Se não houver um artigo publicado e aprovado por um comitê de cientistas, com metodologia que permita a replicação do experimento por outros pesquisadores e com resultados semelhantes, então não se pode afirmar que foi comprovado cientificamente.

Outra coisa: energia é uma grandeza física que pode ser medida. Quando coloco um voltímetro na tomada, sei exatamente quantos volts tem ali. Existem equipamentos que medem quantidade de luz, radiação, pressão entre outras energias. Ainda não existe nenhuma máquina que meça a quantidade de energia positiva que alguém está emanando. Ou de energia negativa. Nem o quanto essa emanação influencia a realidade.

Já vimos em filmes aqueles aparelhos que emitem um som que fica mais intenso quando próximo a uma área radioativa. No dia em que fizerem um desse para medir a energia emitida pelos pensamentos de uma pessoa, aí sim, poderemos falar que ficar sentado pensando em coisas boas vai influenciar a vida de alguém.

No vídeo, um físico falando do assunto. Veja bem: um físico. Não um parapsicólogo, não um astrólogo, não um guru espiritual.