domingo, 12 de janeiro de 2020

A História de Jairo

Fui estagiário de uma das maiores redes de supermercados do mundo. Processo seletivo dificílimo, milhares de candidatos. Sonho de todo estudante que se mostrou um pesadelo. Foi uma experiência rica, em termos de aprendizado profissional e humano, mas que me fez chorar algumas vezes ao chegar em casa. Foram tantas histórias que um amigo roteirista já quer transformar num longa-metragem.

Foi conversando com esse amigo que lembrei da história do Jairo, o cartazista. Sua posição era de extrema importância para todos os gerentes que tinham que abrir a loja com os preços de seus setores atualizados, por isso manter um bom relacionamento com ele era fundamental.

A principal ocupação do Jairo era ser pastor de uma congregação evangélica localizada num bairro pobre da Baixada Fluminense, trabalhar em supermercado era só o jeito que ele achou para pagar as contas.

Por algum motivo, Jairo não simpatizou comigo num primeiro momento e ele externava isso deixando meus cartazes para o final, mesmo que eu tenha sido um dos primeiros a chegar. Um dia descobri que ele tinha dois livros publicados sobre liderança e eu, estudante de administração, me interessava pelo assunto. Comprei um mas não consegui terminar a leitura. Seus argumentos falavam sobre liderança por uma perspectiva bíblica, de obediência aos desejos de deus e eu, ateu, não passei das primeiras páginas.

Jairo sempre esperou minha opinião sobre sua obra, mas nunca dei esse feedback. Em compensação conversamos muito sobre literatura. Expliquei como fazer o registro do livro na Biblioteca Nacional, coisa que ele não tinha feito, ISBN, Lei Rouanet e concursos literários. Viramos amigos e conquistei o primeiro lugar na fila dos cartazes.

Certo dia ele me narrou a história de um conto que estava prestes a escrever, sua obra-prima, acreditava. Contava o caso de um trabalhador de uma fazenda que tinha um patrão que oferecia casas aos seus funcionários, salário acima da média, que tratava todos muito bem. Em determinado momento ele percebeu o quanto aquela história estava inverídica, estava utópica demais já que nenhum patrão é tão bom assim. Ficou alguns dias pensando numa solução esse insight veio de repente: o protagonista estava sonhando. Depois de apresentar este universo quase perfeito, o herói acordava e percebia que tudo não tinha passado de um sonho. Um desfecho genial.

Quando eu era criança, provavelmente quarta séria, uma editora foi até a escola com um projeto de livro. Cada turma deveria escrever uma história que seria publicada, transformando todos os alunos em autores. Um dos contos tinha um desfecho parecido com o que Jairo imaginou para seu texto, o protagonista acordava de um sonho. É um final comum na literatura, um verdadeiro clichê que incomoda leitores mais experientes. A diferença entre as duas histórias está na idade de seus idealizadores, crianças do ensino fundamental e um senhor com aproximadamente sessenta anos.

Quando contei esse caso para meu amigo numa mesa de bar, achávamo-nos muito inteligentes por discutir o mito da caverna, a inexistência da verdade e da nossa total incapacidade de dar respostas curtas para muitos questionamentos, mas no final percebemos que a gente só estava reproduzindo pensamentos que filósofos gregos tiveram há três mil anos.

A solução para o conto do Jairo não era nova, assim como fazer analogias modernos ao mito da caverna também não é. O resumo disso tudo é: se há alguma verdade nesse mundo, é que a gente não sabe de porra nenhuma.

Ops, acho que alguém já disse isso.

O Amor é Cozinha

Tenho muita dificuldade para realizar tarefas repetitivas e que demandam tempo e paciência, como cultivar uma horta, limpar minha bicicleta ou artesanato. No mundo hiperconectado de hoje, até ler um livro ou assistir um filme são atividades quase impossíveis de serem realizadas sem dar aquela checada no Facebook ou WhatsApp a cada cinco minutos.

Acho que a única coisa que consegue minha total atenção é a cozinha. Planejar minhas refeições, escolher os alimentos na feira, o preparo e a limpeza da louça são atividades nas quais emerjo. Passo boa parte do tempo fazendo isso, já que faço todas minhas refeições em casa.

Impossível cozinhar sem ter paciência ou querendo atropelar processos para chegar logo ao resultado. Muitas vezes passam-se horas no preparo para que o consumo seja realizado em poucos minutos.

Cozinhar é cuidar, é ficar atento ao fogão para não queimar, é perceber pequenos detalhes como o ponto da fermentação da massa do pão, é entender que o cozimento no forno é lento e que não adianta aumentar a temperatura para diminuir a espera.

Meu pão de fermentação natural
Numa sociedade de consumo de massa como a nossa, tudo nos leva para a compra de produtos prontos. Tá tudo ali, na prateleira, é só pegar e comer. O capitalismo veio para nos libertar das amarras do prazo, para dar-nos tempo livre para atividades realmente importantes e cozinhar não é uma dessas atividades importantes.

O Tinder é o supermercado dos relacionamentos, transportamos nosso modelo de consumo para a forma com a qual lidamos com as pessoas. Queremos o resultado de uma comida caseira mas sem a necessidade de passar por todo o processo que isso envolve.

Almejamos relações duradouras mas não sabemos mais como construí-las. É preciso parar, voltar algumas casas e aprender (ou reaprender) como construir ligações sólidas com o outro, assim como temos feito quando repensamos nossa alimentação, quando voltamos a colocar a mão na comida e apreciar cada etapa do processo, com a calma e a paciência necessária para o preparo, no fogo baixo, de um guisado.

Tenho repensado meus relacionamentos e cheguei a conclusão que preciso fazer com eles o mesmo que faço na cozinha. O capitalismo molda todos os nossos comportamentos e fugir de suas garras, mesmo que seja uma fuga ilusória, é um dos meus objetivos.

Construir o amor é como cozinhar, e cozinhar com seu amor é a coisa mais incrível que alguém pode fazer.

*****

Estou lendo Bauman, que fala sobre como o mercado de consumo influencia nossas relações amorosas, e é impossível não fazer uma analogia com a cozinha. Estou no início do livro, mas ainda não aprendi a cozinhar um texto.

Prêmio Cidadão Socialmente Responsável

Outro dia fui representar o Bike Anjo no Prêmio Cidadão Socialmente Responsável, organizado pela turma de produção de eventos da Unisuam. O reitor estava presente e aproveitaria a oportunidade para criar um climão com meu discurso, mas, infelizmente, não ganhamos. Como tá entalado na garganta, segue abaixo o que eu falaria:

“O Bike Anjo realiza diversas atividades, sendo a principal delas ensinar pessoas de qualquer idade, crianças, adultos e idosos, a andar de bicicleta. Outra linha de atuação nossa é junto aos poderes executivos e legislativos, pressionando para criação de políticas públicas que defendam os ciclistas e que estimulem os deslocamentos ativos, além de criar estruturas cicloviárias pela cidade.

Em 2015, uma das promessas do Rio para sediar as Olimpíadas foi instalar 450 quilômetros de ciclovias e uma delas passaria aqui em frente a Unisuam. A universidade foi contra. Até pensei em recusar o convite para estar aqui quando me lembrei disso, mas resolvi aproveitar a oportunidade e falar como grandes empresas se maquiam como sustentáveis, mas que por trás realizam ações que vão contra seu discurso estampados nas belas peças publicitárias.

Naquela época, eu e mais alguns amigos fizemos uma intervenção com projeções na faixada do prédio e usamos a hashtag Unisuam contra a sustentabilidade. Infelizmente perdemos a batalha e a ciclovia não existe mais, só sobraram bicicletas desbotadas pintadas no chão, vocês podem vê-las ao sair daqui.

Hoje a cidade está abandonada e a bicicleta não faz parte mais da pauta governamental, mas acredito que o Rio vai voltar a ser a cidade que merece ser, que tem vocação para ser, voltaremos a discutir mobilidade sustentável e, novamente, uma ciclovia vai passar aqui em frente. Não estou aqui para causar um climão nesse evento tão bonito, mas quero aproveitar a presença do reitor para pedir, quando este dia chegar, que ele nos apoie, aí, sim, um Prêmio Cidadão Socialmente Responsável vai fazer sentido nesta universidade.

O Bike Anjo vai muito além de ensinar pessoas a andar de bicicleta. A gente ajuda a criar uma cidade mais humana, derrubamos muros invisíveis que nos separam e criamos espaços seguros, já que várias pesquisas já comprovaram que quanto mais ciclistas estiverem percorrendo as ruas menores são os índices de acidentes.

A gente usa a bicicleta como ferramenta de defesa da democracia. Eu e várias pessoas escolhemos nos locomover pedalando e cidades verdadeiramente democráticas são aquelas que permitem que todas as escolhas possam ser feitas de forma segura.

A imposição de um único meio de transporte é uma característica totalitária e lutar contra o totalitarismo nunca foi tão importante, já que estamos vendo claros sinais de fascismo no nosso dia a dia. Censura, ataques a populações vulneráveis, prisões arbitrárias, pedidos da volta da ditadura, AI-5 e execução de opositores políticos. O ovo da serpente está sendo chocado e temos que usar todos os espaços para impedir que isso aconteça.

Por fim, queria dizer que não existe consumo sustentável no capitalismo. Boa noite.”

Tá bom, talvez não dissesse a última frase sobre o capitalismo, mas o resto estava pronto para sair.

Docas Dom Pedro II, o Galpão da Cidadania

Comigo-ninguém-pode, espada de são jorge, arruda, alecrim, guiné, manjericão e pimenta. A baiana, que chegou cedo ao Mercadão de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, fez questão de escolher pessoalmente as melhores folhas.

Pouco tempo depois, já em casa, preparou com as ervas a água de cheiro que seria utilizada para a limpeza energética e espiritual de um local sagrado para ela e seus ancestrais. Junto com outras mulheres, todas descendentes dos que desembarcaram naquele chão, trazidos à força da África, começaram o ritual com muita cantoria e dança. O Cais do Valongo, ponto de chegada de aproximadamente um milhão de almas escravizadas, cantava. Do outro lado da rua, um prédio opulento parecia assistir à festa.

Apesar de não guardar mais suas características originais, o Docas Dom Pedro II ainda traz em suas fundações um pouco da história de André Rebouças, primeiro engenheiro negro a atuar no Brasil. Finalizado em 1875, o armazém foi construído com a mais moderna tecnologia inglesa de engenharia da época, em uma tentativa de modernizar a região portuária que precisava de um local mais apropriado para armazenar cargas que antes eram estocadas em precários trapiches, feitos de madeira, além de servir como local para pequenos reparos navais (1).
Crédito: Juan Gutierrez, 189(?)

Apesar de Rebouças ser um grande abolicionista, a razão pela qual não foi utilizada mão-de-obra escravizada na construção do prédio foi que, desde a década de 1850, já era padrão a contratação de trabalhadores livres para concessão de subsídios governamentais (2).

O local funcionou como doca até o início do século XX, quando foram iniciadas as obras que originaram o atual Cais do Porto do Rio, adequando, então, a cidade às novas necessidades do mercado internacional que exigia a utilização de navios de grande calado.

Com todo o entorno do prédio aterrado, o galpão, com 160 metros de extensão e 35 metros de pé-direito, ficou abandonado por longos períodos. Durante o regime militar, foi ocupado e modificado pelo exército como garagem de veículos blindados. E na década de 1990, pelo carnavalesco Joãozinho Trinta, que o utilizava para confecção de alegorias e realização de oficinas de arte.

Completamente abandonado e em péssimo estado de conservação, foi cedido no ano 2000 à Ação da Cidadania, organização da sociedade civil de combate à fome criada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que recuperou totalmente o prédio. Hoje ele é utilizado como espaço de promoção da cidadania através de eventos, oficinas culturais, apresentações artísticas e como sede nacional da campanha Natal Sem Fome, que em 2018 distribuiu mais de mil toneladas de alimentos para famílias em situação de insegurança alimentar em todo o Brasil.

Apesar de não guardar mais suas características originais, modificadas no governo militar – como o alinhamento da fachada frontal à recém-criada Av. Barão de Tefé – o prédio traz aos seus visitantes a falsa impressão de que ainda é do mesmo jeito que o deixado por Rebouças. Seus tijolos aparentes, porém, foram uma escolha estética do arquiteto Hélio Pellegrino, já nos anos 2000, para a reforma realizada pela Ação da Cidadania.

Tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2016, o Docas Dom Pedro II, também conhecido como Galpão da Cidadania, tem hoje sua vocação como espaço de preservação da memória afro-brasileira e também de luta por um Brasil sem fome e sem miséria.

Referências:

(1) SOARES, Carlos Eugênio. Valongo, Cais dos Escravos: Memória da Diáspora e Modernização Portuária na Cidade do Rio de Janeiro, 1668 – 1911. Museu Nacional, UFRJ, 2013. (Disponível em https://portomaravilha.com.br/conteudo/estudos/academicos/DOUTORAMENTO%20UFRJ%20ARQUEOLOGIA%20.pdf)

(2) INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Ata da 84ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Brasília, 24 nov. 2016. (Disponível em http://portal.iphan.gov.br/uploads/atas/ata_da_84_reuniao_conselho_consultivo.pdf)

Texto publicado no Jornal dos Vizinhos, integrante do projeto Escola do Olhar do Museu de Arte do Rio. 2019.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mas alimentação saudável é muito cara!

Continuando as comemorações aos cinco anos do Guia Alimentar Para a População Brasileira, hoje as dicas serão referentes ao preço:

1) Alguns legumes, verduras e frutas realmente possuem preço mais elevado, mas quando consumidos com outros mais baratos, como arroz, feijão, batata e mandioca, fartamente presentes na culinária brasileira, faz com que o preço médio da refeição seja inferior aos ultraprocessados;

2) Os vegetais da estação são mais baratos e abundantes, então procure saber sempre quais são os alimentos da época;

3) Alimentos de produtores locais também possuem preço inferior, já que não estão incluídas as despesas de transporte. Evite comprar importados, que além de ser bom para o bolso é bom para a economia local e para o meio ambiente;

4) Procurar fornecedores com menos intermediários, como feiras e sacolões, é uma ótima opção. Veja a possibilidade de comprar direto dos produtores ou através de compras coletivas, modalidade que tem se tornado bem comum nos grandes centros urbanos, principalmente com cestas de alimentos orgânicos;

5) Levar a comida para o trabalho também é uma forma de economizar, então não tenha vergonha de levar uma marmita com uma refeição saudável;

Vinho, cachaça e café do Armazém do Campo
6) Demanda: os preços caem conforme a demanda aumenta, já que mais produtores entram no mercado e há incremento da oferta. Então, quanto mais gente compra, menor é o preço. Incentive seus amigos e veja quais são seus gastos que podem ser cortados para reinvestir o valor em alimentos saudáveis;

7) Participação política: mais uma vez, fazer parte de grupos (associações, partidos políticos, conselhos etc) que visem incentivar a alimentação saudável é uma forma de fazer com que os preços caiam, pressionando para que haja incentivo fiscais para os produtores e a instalação de mais feiras livres na cidade.

Se você é uma pessoa privilegiada com tempo para participar destes movimentos, então utilize-o;

8) Conheça: Apesar da proteína animal no Brasil ser relativamente barata, ela ainda tem valor mais alto do que os vegetais. Conhecendo combinações nutricionais balanceadas, é possível diminuir a carne sem afetar a qualidade da refeição. Por exemplos, alimentos verdes escuro, como brócolis e couve, são ricos em proteína e excelentes substitutos.

Antigamente, comer carne era coisa de rico, agora é o contrário. Esses valores mudam com o passar do tempo, e nem sempre tem relação com o preço dos produtos.

*******

O Armazém do Campo - RJ é meu mais novo lugar favorito. Além de alimentos oriundos de assentamentos da reforma agrária, possui atividades culturais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Como conseguir tempo para cozinhar?

Um dos problemas enfrentados por aqueles que querem adquirir hábitos alimentares mais saudáveis é falta de tempo, mas existem algumas coisas que podemos fazer para resolver isso.

1) Diminua o tempo dedicado a atividades menos importantes: ninguém questiona a importância de uma boa alimentação, por isso, reveja seus hábitos para identificar aqueles que podem ser cortados ou, pelo menos, reduzidos. Televisão e internet, por exemplo;

2) Planeje seu cardápio: planejar as compras e o cardápio da semana ajuda a economizar tempo e a preparar refeições com mais celeridade. Também é possível congelar alimentos prontos para serem consumidos nos próximos dias;

3) Treine: conforme vamos cozinhando e desenvolvendo essa habilidade, vamos aprendendo a preparar refeições em menos tempo. Percebemos que para fazer um macarrão com molho de tomate leva quase o mesmo tempo do que preparar um prato ‘instantâneo’;

4) Divida as tarefas e envolva a família: toda a casa precisa estar envolvida, desde o planejamento, compras, preparação e limpeza da louça. Essas tarefas não podem ser responsabilidade de apenas uma pessoa.

Aproveite para transformar as refeições num momento divertido e de comunhão. As crianças podem participar também, sempre com atividades compatíveis com suas idades;

5) Participação política: o trânsito das grandes cidades está cada dia mais complicado e a população de menor renda é a mais prejudicada, levando duas ou mais horas no trajeto ao trabalho. Quem não precisa passar por isso é um privilegiado e uma das formas de interferir neste cenário e a participação em movimentos que visem melhorar os deslocamentos urbanos, pressionando o governo a investir em transporte público de qualidade.

Use seu privilégio para ajudar grupos vulneráveis. A solução não é individual e para atacar todos os problemas é preciso envolver e estar junto de outras pessoas, desde a família até grupos políticos ou instituições ligadas à alimentação ou mobilidade.

Se você tem tempo para participar desses grupos, pressionar políticos e realizar manifestações, utilize-o.

Dicas baseadas no Guia Alimentar Para a População Brasileira.

*****

Como já contei, um amigo que quer mudar seus hábitos alimentares pediu minha ajuda e temos realizados encontros semanais para cozinhar. No quarto encontro fizemos sushi. Seguem fotos.



terça-feira, 29 de outubro de 2019

O que a indústria nunca vai substituir

Na época da minha avó, para cozinhar um prato simples como um macarrão com molho de tomate e frango era necessário pegar a ave no quintal, matar, preparar a massa do macarrão, esticar e cortar, picar os tomates e cozinhar lentamente até virar molho.

De pouco tempo para cá, a indústria eliminou várias etapas. Preparar a mesma refeição requer apenas descongelar e assar o frango, esquentar o molho da caixinha e colocar o macarrão na água fervendo.

Agora, para muita gente, abrir uma embalagem deste mesmo prato e colocar no forno já é cozinhar. Certamente meus avós ficariam espantados se soubessem que em pouco tempo a galinha já viria limpa e cortada, o molho pronto dentro de um saquinho e o macarrão no ponto para ser fervido, assim como ficamos espantados quando alguém nos diz que esquentar uma refeição industrializada é cozinhar.
Cogumelos utilizados na receita
Mas qual é o limite? Quais são as ações básicas necessárias para podermos falar que cozinhamos nossa comida? Não existe resposta, e mesmo que houvesse ela mudaria com o tempo. Só uma coisa é certa: se alguém virar para mim e falar que cozinhou só colocando um congelado no forno vai levar um pescoção.

Independentemente disso, minha impressão é que a população tem passado cada vez menos tempo cozinhando, e esta também é a impressão de Michael Pollan em Cooked. Apesar do sucesso de dezenas de programas de televisão, como o Master Chef, e do surgimento de estrelas gastronômicas, a gente não coloca a mão na massa e vai deixado esta responsabilidade para a indústria, quem tem se esforçado muito para isso.

O resultado é o aumento do consumo dos ultraprocessados, ricos em sal, açúcar, gorduras e outros aditivos químicos que são comprovadamente prejudiciais à saúde. Mas mesmo que não fossem danosos (acredito que um dia não serão), existem outros motivos para a gente não ingerir esse tipo de composto que eles tentam chamar de comida.

A gente tem visto o que acontece quando empresas ficam ricas demais. Seus diretores e acionistas aferem milhões por ano enquanto, com a ajuda da tecnologia que vem substituindo o trabalho humano, seus funcionários recebem salários cada vez menores. Com o lobby que é feito junto a políticos, direitos trabalhistas e previdenciários são cortados e são criadas cada vez mais facilidades para exploração predatória da natureza. Comprar dessas empresas é deixá-las cada vez mais fortes e aumentar o abismo da desigualdade de social que está afundando o mundo.
Nosso espaguete ao pesto
Ao cozinhar mais e, consequentemente, ter que comprar ingredientes frescos, estamos fortalecendo pequenas famílias como as nossas. Estamos ajudando um pai a pagar um curso de inglês para seus filhos, comprar material escolar, roupas novas e quitar todos os boletos do mês. Vamos fazer nosso dinheiro circular entre a gente pois esta é apenas uma das formas de nos proteger do futuro da precarização do trabalho.

Esta decisão precisa ser colocada em prática em todo nosso consumo. Sou um apaixonado pelo meu Kindle, em segundos tenho na mão qualquer livro que quiser, mas não vou dar meu dinheiro para Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo e que explora seus funcionários. Vou comprar com o Ronaldo, livreiro dos bons e pai da Mila Flor. Ou na Livraria Folha Seca, com o Digão, um dos maiores bebedores de cerveja da Rua do Ouvidor.

Como já comentei aqui, estou me encontrando semanalmente com um amigo para cozinhar. Desta vez foi espaguete ao pesto e talharim com molho de cogumelos portobello. A massa foi feita do zero e só utilizamos ingredientes frescos ou minimamente processados. Derrubamos duas garrafas de vinho no processo e a vivência proporcionada pela experiência indústria nenhuma vai conseguir substituir.

sábado, 26 de outubro de 2019

Bolsonaro e o miojo

Um amigo está querendo mudar seus hábitos alimentares e me pediu ajuda. Desde então, temos realizado encontros semanais na minha casa para cozinhar.

Não sou especialista, mas preparo praticamente todas minhas refeições. Minha dieta é totalmente baseada nas recomendações do Guia Alimentar Para a População Brasileira, uma das publicações mais avançadas do mundo no quesito orientações alimentares à uma população.

Demorou alguns anos para ficar pronto porque contou com ampla participação popular, de entidades ligadas à nutrição, consultas públicas em todos os estados da federação, consulta on-line e amplo debate. O resultado é incrível, e uma das dicas é ensinar os outros a cozinhar, coisa que tenho feito.

Além das questões nutricionais, o Guia também tem preocupação em incentivar o consumo de alimentos socioambientalmente responsáveis e que contribuam com a distribuição de renda e defesa do patrimônio cultural do país. Basicamente, são quatro dicas:

- Fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação, preferencialmente agroecológicos ou oriundos da agricultura familiar;

- Utilizar em pequenas quantidades os ingredientes culinários para temperar a comida, como o sal, açúcar, óleos e gorduras;

- Limitar o uso dos processados, utilizá-los apenas como complemento das receitas; e

- Evitar, sempre que possível, os ultraprocessados.

O Guia foi criado para pautar não apenas o consumo individual e familiar, mas também como orientação para profissionais de saúde, instituições e para criação de políticas públicas. Vai além das escolhas individuais, algumas mudanças no ambiente são necessárias e incentiva a participação popular para pressionar o governo na criação de políticas que promovam a alimentação saudável.


A obesidade é um problema sério no Brasil, com mais da metade da população com sobrepeso. São crescentes números de doenças crônicas como diabetes, doenças cardíacas, tanto em adultos quanto em crianças. Desta forma, é papel do governo incentivar práticas que melhorem a alimentação do brasileiro.

Quando o presidente se recusa a participar de um banquete oferecido pelo imperador do Japão, para não ter que experimentar a culinária local, e posta uma foto fazendo um miojo, ele não está violentando apenas a cultura do país onde está hospedado, mas também passando uma mensagem extremamente negativa ao seu povo que atualmente enfrenta sérios problemas de saúde.

Vocês não fazem ideia da minha indignação. A gente aqui, no cotidiano, no miudinho, tentando transformar esse país num lugar um pouquinho melhor, ver uma cena dessa é extremamente desanimador. Mas esses canalhas não vão me deixar doente, não vão me enfraquecer. Domingo tem feira, e macarrão caseiro com molho pesto e molho de cogumelos.

Avante.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Alimentação e justiça social

Ontem saiu a PNAD e o resultado foi um Xibom Bombom: o de cima subiu e o de baixo desceu ainda mais. Por isso trago novamente o tema: como nossa alimentação pode ajudar a gerar justiça social?

Atualmente, nossa produção e distribuição de alimentos tem contribuído com essa imoral concentração de renda e o mesmo pode ser visto em outras cadeias, como na indústria da moda, por exemplo.

Quando a gente escolhe comer um ultraprocessado da Nestlé, a gente escolhe deixar ainda mais rica uma empresa multibilionária e deixar mais pobre o pequeno produtor rural. Para quem não sabe, a Nestlé está promovendo um genocídio em comunidades ribeirinhas da Amazônia com uma cadeia de abastecimento de entrega domiciliar, deixando a população obesa, doente, poluindo a floresta com suas embalagens e destruindo tradições alimentares. Eles também acreditam que a água não deva ser um direito universal gratuito, mas sim um produto como outro qualquer, apesar de estarem acabando com fontes naturais e rios com extração predatória, impactando diretamente as comunidades em todo o mundo.

O tamanho e o uso das propriedades rurais que produzem alimentos, autonomia dos agricultores na escolha das sementes, fertilizantes e controle de pragas, condições de trabalho e geração de renda e partilha do lucro gerado pelo sistema são questões que precisam ser discutidas quando o assunto é distribuição de renda e erradicação da fome e da miséria.

Realmente acredito que a tecnologia um dia vai permitir a criação de ultraprocessados saudáveis. A Coca-Cola terá o mesmo sabor que tem agora e será uma bebida nutritiva. Mas não se trata apenas de nutrição. Não é apenas sobre o que comer ou vestir, é sobre o mundo que queremos construir.

A dica é simples: saiba de onde vem os produtos que você consome e dê preferência para pequenos produtores. Comer e se vestir é um ato político.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Soberania Alimentar

Meu atual passatempo é assistir Quilos Mortais (My 600-lb Life), reality que acompanha durante um ano um paciente com no mínimo 270 quilos candidato à cirurgia bariátrica numa clínica em Houston. São histórias muito tristes e a taxa de sucesso na manutenção do peso a longo prazo é de apenas 5%.

O que me incomoda é que toda a responsabilidade pela obesidade é colocada apenas nos pacientes, excluindo fatores sociais que estimulam o alto consumo de alimentos ultraprocessados, mas isso é bem típico dos Estados Unidos, país que busca soluções individuais para problemas coletivos.

Outro dia um cidadão que iria começar o primeiro dia no emprego novo teve o carro quebrado. Ele acordou de madrugada para andar os 20 quilômetros até a empresa, quando foi parado na highway por um policial que deu-lhe carona. O caso viralizou e o empregado ganhou um carro do patrão por causa da sua dedicação, mas ninguém discutiu o por quê de não haver linhas de ônibus urbanos para atender a população.

O mesmo acontece em Quilos Mortais. A culpa é do indivíduo e cabe a ele sozinho buscar a solução. Não são discutidos os subsídios governamentais que mantêm baixo o preço dos ultraprocessados, a falta de uma regulamentação que proteja as crianças do excesso de publicidade, a falta de estímulos para criação de uma cadeia produtiva de alimentos saudáveis, educação alimentar etc. Por isso a taxa de sucesso é tão baixa, porque é insano querer que um indivíduo sozinho vença uma indústria bilionária.

Nunca fui obeso, mas já estive acima do peso. Iniciei minha reeducação alimentar há oito anos e o primeiro passo foi comer apenas um, dos tradicionais dois, acarajé da Ciça, barraca na Praça XV onde batia ponto toda sexta-feira. Desde então tenho dado pequenos passos e o mais recente foi cortar a carne das minhas escolhas individuais. Bicho, agora, só em situações de coletividade, como num churrasco entre amigos ou naquele filé aperitivo para dividir com a galera no bar.
A preparação
Todo final de semana vou à feira, faço visitas constantes ao supermercado e cozinho quase todas minhas refeições, e isso consome muito do meu tempo, mas faço isso com prazer. Mas a alimentação vai além de questões nutricionais, é preciso falar também de soberania alimentar.

Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, decidir o que e como cultivar, o que destinar ao mercado interno e externo e a gestão dos recursos naturais. Ou seja, quando a maior parte da nossa comida vem apenas das 10 multinacionais que controlam o mercado mundial de alimentos, estamos abrindo mão da nossa soberania alimentar. O resultado disso é que estamos nos envenenando, poluindo o planeta por causa da quantidade absurda de resíduos das embalagens, concentrando renda nas mãos destas empresas, perdendo nossas tradições culturais alimentares entre outros problemas.

Existem várias visões de mundo. Na minha, a cadeia produtiva é controlada pela população e não pelos departamentos de marketing e P&D das multinacionais, respeitando culturas e o meio ambiente, com participação da sociedade em conselhos que orientam as políticas públicas do setor, incentivando a agroecologia e protegendo comunidades tradicionais.

Foi exatamente esse modelo, orientado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, criado pelo Betinho e extinto pelo Bolsonaro, que contribuiu para tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2014. O Consea era formado por diversas entidades da sociedade civil e foi dele que saíram ideias de projetos que acabaram com a fome de milhões de pessoas, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que consistia na compra de alimentos de pequenos produtores para abastecer aparelhos municipais, como escolas e hospitais, e o restaurante popular, para atender a população urbana em extrema vulnerabilidade.

Diante de extinção do Consea, está sendo organizada para maio a Conferência Nacional, Popular, Autônoma por Direitos, Democracia e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Deve acontecer no Maranhão ou Bahia e tenho participado de algumas reuniões de organização representando a Ação da Cidadania, que recentemente lançou a campanha Natal Sem Fome para alertar sobre a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU.

A gente trabalho no grande, forçando a criação de políticas públicas, mas a gente também trabalha no miudinho. Outro dia um amigo me pediu para ajudá-lo a mudar seus hábitos alimentares. Começamos aulas de gastronomia na minha casa e também vamos fazer visitas à feiras e ao Armazém do Campo - RJ, loja que vende produtos oriundos de assentamentos e da agricultura familiar. Vamos ler e discutir o Guia Alimentar Para a População Brasileira e, obviamente, comer boa comida.

Nosso primeiro encontro foi domingo e fizemos nhoque de batata roxa com molho de tomate e aspargos grelhados. A entrada foi salada. Tudo feito com ingredientes frescos. Ficou lindo. E delicioso.
O resultado
Deixo como referência o documentário Histórias da Fome no Brasil, que contou com apoio da Ação da Cidadania. Taí, completo para ser assistido.