segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O que é ciência?

Quando eu era criança, todas as vezes que a escola mandava um recado para minha mãe ela tinha que assinar na marcação 'ciente' do bilhete. Assim, ela demostrava ter tomado 'ciência' da notificação. De forma abrangente, ciência significa conhecimento, mas quando lemos nos jornais que o corte das bolsas de pós-graduação da Capes em agosto de 2019 afetará a produção científica do país, 'ciência' assume outro significado.

Hoje, no titio's tutorial treteiro, vou explicar o que é ciência. Importante falar que isso aqui é o resumo do resumo do resumo.

As instituições

A ciência é produzida por um conjunto de instituições que utiliza o método científico para conseguir respostas. São elas:

Institutos de pesquisas: entidades públicas ou privadas que realizam as pesquisas. Diante de um problema ou pergunta, criam hipóteses que são testadas em ambientes controlados;

Congressos científicos: eventos nos quais são apresentadas pesquisas em andamento para, a partir da avaliação de outros pesquisadores, receberem feedback que podem contribuir com seu desenvolvimento;

Revistas científicas: quando um instituto conclui uma pesquisa, apresenta seus resultados através de um artigo para toda a comunidade. Esta pesquisa fica disponível para ser replicada por outras entidades, cujos resultados podem ou não ser os mesmos, abrindo caminho para refutação, ratificação ou surgimento de novas hipóteses a serem testadas. Antes da publicação, o artigo passa por uma rigorosa análise de outros pesquisadores, que avaliam se a metodologia foi bem desenvolvida e se os resultados são confiáveis;

Órgãos reguladores: antes de um novo produto desenvolvido nos laboratórios chegar ao mercado, órgãos governamentais (como a Anvisa) precisam se certificar que os eles não oferecem risco à população e que cumprem as funções descritas em seus rótulos. Eles avaliam a metodologia utilizada e podem solicitar novos testes. Passado por esse processo, temos um novo produto disponível aos consumidores, como um remédio, por exemplo. As pesquisas nas áreas das ciências humanas não passam por essa regulação já que suas investigações não resultam num produto físico.

Cabem duas ressalvas: 1) existem sistemas nacionais e internacionais que dão notas a todas estas instituições, de forma a avaliar a qualidade e nível de credibilidade de cada uma delas; 2) todo este sistema não é à prova de falhas, muitos resultados são forjados para favorecer determinadas indústrias, mas quando esses casos se tornam públicos os pesquisadores entram num limbo profissional e os institutos de pesquisa perdem credibilidade.

São outras instituições os financiadores e as universidades.

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O método científico

Conjunto de etapas que percorridas produzem o conhecimento científico. De forma resumida, o processo é iniciado a partir de um problema, pergunta ou observação de um fenômeno. Depois são levantadas algumas hipóteses que são testadas. Os resultados são analisados e podem-se chegar a uma conclusão ou ao retorno a uma das etapas anteriores.

Este método é aplicado em hipóteses que podem ser testadas ou falseadas através da observação de evidências empíricas, ou seja, evidências que podem ser percebidas através de um dos nossos sentidos.

Vamos supor que seu vizinho diga que na garagem dele tem um dragão. Você vai lá olhar e não vê nada. Então ele diz que é porque o animal é invisível. Você então tenta, sem sucesso, tocá-lo, mas desta vez a desculpa dada é que ele é intangível. O dragão também não exala nenhum cheiro e não pode ser detectado por nenhum tipo de equipamento. A única prova sua existência é o depoimento de seu vizinho. Esta evidência, o depoimento de uma pessoa, não pode ser testada, logo, teorias que não podem ser provadas através de testes não são consideradas científicas, são mitos. 

Outro exemplo: é comum ouvirmos relatos de pessoas afirmando que a homeopatia funcionou com elas, mas casos isolados não são suficientes para confirmar uma hipótese. Até existem alguns estudos que mostram resultado positivo na homeopatia, mas é preciso destacar duas falhas de metodologia: 1) o número de pessoas acompanhadas (N amostral) é muito pequeno com relação aos estudos conduzidos para se colocar um alopático no mercado (que pode chegar e dezenas de milhares de indivíduos em três grupos: clínico, controle e placebo), o que resulta numa falácia da generalização precipitada; 2) os resultados são superficialmente melhores do que os resultados do placebo. A homeopatia nunca passou por um escrutínio científico, e já foram realizados vários.

A falácia da generalização precipitada é quando o tamanho de uma amostra é insuficiente para sustentar uma generalização e evidência anedótica é uma evidência que só funciona para uma pessoa ou que não pode ser testada. A evidência empírica é aquela que pode ser observada por um dos nossos sentidos.

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Conhecimento tradicional, popular, ou cultura

Os remédios indígenas, feitos pelo pajé através da mistura de várias plantas, apesar de muitos possuírem efeitos reais de cura, não são ciência. Podemos dizer que são conhecimentos tradicionais, conhecimentos populares ou cultura, mas jamais podemos dizer que são ciência porque não passaram pelas instituições nem pelo método científico. Seus resultados foram conseguidos através de centenas de anos de tentativas e erros. Antes do surgimento da ciência, superstições, simpatias e feiticeiros eram utilizados porque eram as únicas opções disponíveis.

As ciências humanas

As ciências humanas também são ciências, exceto a filosofia e as ciências jurídicas, que tratam mais de outras questões, como a ética e a moral. A sociologia, por exemplo, utiliza muita estatística para avaliar grupos populacionais e a antropologia tem o sistema de parentesco. Pesquisas bibliográficas e coleta de testemunhos, técnicas muito utilizadas nas humanas, também se encaixam no método científico.

A psicologia utiliza pesquisas quantitativas e qualitativas, experimentos controlados e observações em ambientes naturais.

As pseudociências

A ciência é extremamente respeitada pela população, por isso algumas pessoas travestem determinados conhecimentos de ciência com o objetivo de ganhar credibilidade, mas quando olhados de perto percebemos que algumas etapas não foram realizadas. Exemplos: homeopatia, astrologia, psicanálise, numerologia entre muitas outras.

Pode uma pessoa comum fazer ciência?

Quando um parente seu fica doente e você receita um remédio, isso é fazer medicina? Quando seu vizinho desenha um quartinho no quintal e pede para um pedreiro construir, ele está fazendo arquitetura ou engenharia? Pode-se produzir ciência na garagem de casa? A resposta é: depende.

Como vimos, o produzir ciência passa por diversas instituições. Para ganhar o carimbo 'comprovado cientificamente' a pesquisa precisa ser replicável, da aprovação da comunidade e ser publicado numa revista.

A indústria

A indústria frequentemente paga por pesquisas que permitam a comercialização de seus produtos, mesmo que os resultados sejam forçados e isso custe a vida dos consumidores. As fabricantes de cigarros são um grande exemplo, que apresentavam 'estudos' que comprovavam benefícios em saúde do fumo. Agora os agrotóxicos estão passando pelo mesmo escrutínio público, assim como as farmacêuticas.

O que cabe ressaltar nestes casos é que essas falsas pesquisas são refutadas com ciência. Estudos idôneos são conduzidos e através da metodologia aqui apresentada escancaram os interesses desses grupos que podem sofrer sanções penais por esta conduta.

Resumo

Hoje aprendemos que nem toda produção de conhecimento é ciência. Os saberes que não passaram pelas instituições científicas são saberes tradicionais, populares ou cultura. 

As pseudociências, como a homeopatia, tentando ganhar credibilidade da sociedade, se travestem de ciência mas suas hipóteses nunca foram comprovadas pelo método científico. Logo, são mitos.

A ciência nunca é feita só por uma pessoa ou instituição. Precisa passar por um conjunto de entidades, ser replicável e testável.

Falsos resultados apresentados pela indústria são refutados com mais ciência, e não com menos.

A ciência não vende verdades absolutas. Diante de novas evidências, coloca as conclusões anteriores em xeque e parte na busca de novos resultados. É um exercício de humildade e a melhor coisa que a humanidade já criou.

Referências (algumas)
Armadilhas do Pensamento - Evidências Anedóticas

Falseabilidade

terça-feira, 24 de julho de 2018

Homeopatia: Guia Definitivo

Veneno de cobra, fígado de pato e besouro moído. O que parecem ingredientes do caldeirão da bruxa na realidade são algumas das matérias-primas utilizadas na fabricação de remédios homeopáticos.

Acredito que muita gente acha que a homeopatia é uma opção válida porque não sabe como ela é feita. Senta que lá vem polêmica. Hoje o titio vai mostrar como essas bolinhas são produzidas. Se mesmo assim você continuar achando que existe alguma possibilidade de cura, eu desisto da humanidade.

O princípio

A principal regra da homeopatia é 'semelhante cura semelhante'. Ou seja, o princípio ativo, que pode ser de origem animal, vegetal ou mineral, precisa causar um efeito semelhante ao da doença que se quer combater. Um exemplo real é a cebola. Quando cortamos cebola nossos olhos ardem e lacrimejam, e podemos também ficar com o nariz escorrendo. São sintomas parecidos com o da gripe, logo, aplicando o princípio do semelhante cura semelhante, esse bulbo é diluído e utilizado no combate à gripe.

A diluição e a agitação (dinamização)

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Esta é uma etapa importante do processo de fabricação. Os remédios homeopáticos são nomeados de acordo com o princípio ativo em latim seguido de um número, que indica a diluição. Allium cepa 6Ch quer dizer que a cebola (Allium cepa) é o princípio ativo (PA) diluído em seis centesimais Hahnemaniana (6Ch).

A centesimal Hahnemaniana consiste na diluição de uma parte da matéria-prima em noventa e nove partes do excipiente, que pode ser lactose, sacarose, álcool 70% entre outras opções. A chamada Tintura Mãe (TM) é a base para confecção dos medicamentos e contém 1% do princípio ativo. A partir dela são realizadas outras diluições e agitações. 

Para se chegar a 1Ch é utilizada uma parte da tintura mãe para noventa e nove partes do excipiente, ou seja, o resultado final desta dinamização fica com apenas 0,01% do princípio ativo em sua composição.

Para chegar ao 2Ch, pega-se uma parte da substância 1Ch e dilui-se novamente em noventa e nove partes do excipiente. Desta forma, no final da diluição, restam 0,0001% do PA.

Para chegar ao 3Ch, pega-se uma parte da substância 2CH e dilui-se em noventa e nova partes. Assim, restam 0,000001% da substância original.

Quando chegamos a 10Ch, a proporção é equivalente a uma gota do princípio ativo derramada em todos os oceanos da terra, que é agitado e ingerido de forma aleatória pelos pacientes. Em 13Ch já não existe nenhum resquício do fármaco. 

Vamos analisar um exemplo real: no site da Ultrafarma, a Allium cepa 6Ch está sendo vendida por R$21,60. Vamos ler a descrição do produto:


Alliun cepa 6Ch Boiron Glóbulos
Excipientes: sacarose e lactose

Boiron é o laboratório e glóbulos é o formato (aquelas bolinhas). Ou seja: são bolinhas de açúcar (no caso são utilizadas a sacarose e lactose) com 0,000000000001% de cebola (6Ch).

Neste site gringo é possível comprar a Alliun cepa em até 15 e 30 Ch, e, como vimos acima, essa diluição já não armazena mais nenhuma molécula da cebola. É, literalmente, apenas açúcar.

Na boa, tente colocar a razão para funcionar: você realmente acha que açúcar com cebola é suficiente para tratar a gripe? Veja bem: É SÓ A PORRA DE UMA CEBOLA! E em muitos casos não fica absolutamente nada da cebola, apenas o açúcar.

Na wikipedia você pode ver outras substâncias utilizadas na homeopatia. Partes de pato (penas, fígado e coração), veneno de cobra, orquídeas, conchas de ostras, mel, carvão, enxofre entre outras, que são diluídas até proporções que não deixam nenhuma molécula do princípio ativo.

Outros exemplos:

A Belladonna atropa é uma planta extremamente venenosa. Uma única folha ingerida por um adulto é capaz de matar. Causa febre e alucinações, logo é usada para combater doenças com estes sintomas.

Leite de cadela (lac caninum) também é utilizado para aumentar ou secar a quantidade de leite e dores nas mamas. Meu amigo, pense bem: você realmente acha que pingar leite de cadela na boca de alguém vai curar alguma doença? Esse é, sem dúvida, um dos exemplos mais absurdos da homeopatia. Se você ficou curioso, usa-se leite de labradora.

Um zueiro na farmácia

Se uma pessoa má intencionada entrar numa farmácia de manipulação a noite e trocar os comprimidos de frascos, ninguém nunca mais será capaz de fazer a reposição correta. Nem mesmo os mais avançados microscópios e a tecnologia mais moderna para identificação da composição química de substâncias é capaz de reconhecer os fármacos utilizados na produção da homeopatia, porque, como já vimos a medicação é tão diluída que não sobra nenhuma molécula do princípio ativo.

Suicídio homeopático

Diversos países, entre eles Inglaterra, Espanha, Bélgica e Brasil, já realizaram o evento suicídio homeopático, no qual manifestantes ingerem vidros inteiros do composto a base de belladonna, o mais venenoso da lista de ingredientes utilizados. Obviamente ninguém nunca morreu.

Memória da água

Setenta por cento do nosso corpo é água e repomos toda ela em poucos dias. Ou seja, a água que está hoje dentro de você já esteve nos oceanos, já foi chuva, esgoto, já foi bebida e urinada por dinossauros, irrigou plantações e já percorreu tantos lugares quanto nossa imaginação é capaz de criar.

Em homeopatia, memória da água refere-se à suposta capacidade da água reter propriedades de substâncias que nela estiveram diluídas, mas que não mais se encontram ali. É a desculpa que aqueles que acreditam em seus efeitos dão para justificar seu suposto funcionamento. Mas, se levarmos esta teoria em consideração (coisa que nunca foi provada), ela deveria guardar também as propriedades da urina, esgoto entre outras substâncias com as quais teve contato em seu histórico.

Fatos não são suficientes

Agora você já sabe tudo que precisava saber sobre homopatia. Se ainda assim você continua acreditando nesta bobagem, eu só posso lamentar. Infelizmente, certas crenças são tão arraigadas que nenhum fato ou prova é capaz de fazer com que as pessoas mudem de ideia. Tem gente que até hoje acredita que o filho do Lula é dono da Friboi, mas você não precisa ser uma dessas pessoas.


E para finalizar... uma piada


quinta-feira, 19 de julho de 2018

Existem níveis seguros para uso de agrotóxico?

Tenho um amigo que cansou da vida na cidade grande e virou agricultor. Foi um processo de anos, enquanto trabalhava nos escritórios de grandes empresas ia estudando bioconstrução, produção de alimentos orgânicos, controle natural de pragas, foi pesquisando terrenos para comprar e adquirindo as demais habilidades necessárias. Neste ínterim, conheceu um produtor que utilizava agrotóxicos nos vegetais que seriam vendidos na feira, mas aqueles que seriam consumidos pela sua família eram cultivados separadamente.

Quando uma pessoa desenvolve um câncer, são dezenas de fatores que podem ter influenciado o surgimento da doença. Sedentarismo, fatores genéticos, fumo, poluição do ar e da água, alimentação (excesso de sal, açúcar, gordura e aditivos químicos), tóxicos adicionados em milhares de produtos, desde cosméticos, recipientes plásticos para conservação de alimentos, roupas e utensílios domésticos, contato prolongado com certos equipamentos eletrônicos, remédios, radiação e até vírus são apenas alguns dos exemplos. Apontar a influência de cada um desses fatores é um prognóstico sujeito a grande margem de erro.

As pesquisas nesta área precisam utilizar animais em laboratório, que possuem um ciclo curto de vida e todas estas variáveis podem ser isoladas. Impossível começar esses testes com seres humanos, que podem viver 80 anos e cujos hábitos diários não são monitorados com eficácia, dependendo, basicamente, de anotações enviadas aos pesquisadores.

O que quero dizer é o seguinte: quando alguém desenvolve um câncer, só é possível apontar as causas da doença em situações extremas, como quando vários trabalhadores rurais são expostos a agrotóxicos sem proteção adequada. Ou trabalhadores das minas de carvão ou amianto. Tirando esses casos, fartamente documentados, um médico só pode indicar os diversos fatores de risco num paciente que não passou por estes extremos, como eu e você, por exemplo.

Diante deste cenário, a ciência ainda não achou uma única pessoa que tenha morrido por conta do consumo de alimentos cultivados com agrotóxicos. Existem muitos indícios dos riscos inerentes quando os protocolos de segurança não são adotados, mas um nome, um rosto com CPF cuja causa da morte tenha sido a ingestão regular de alface tratado com defensivos agrícolas ainda não surgiu. E mesmo se existisse, são centenas de venenos utilizados e apontar a influência de cada um deles é uma atividade tecnicamente impossível de ser realizada.

Essa lacuna é responsável pela quantidade absurda de agrotóxico que nós, brasileiros, consumimos todos os dias. É esse argumento utilizado pelo agronegócio para nos entubar alimentos contaminados. E que já era ruim, pode piorar. A PL do Veneno tá vindo aí.

A revolução verde

Durante quase toda a existência da humanidade, a escassez de comida foi a regra. Foram apenas nas últimas décadas, durante a revolução verde, que conseguimos fazer com que a oferta de alimentos fosse maior do que a demanda. Foi a produção em massa com auxílio dos agrotóxicos que permitiram este que foi um dos maiores avanços na história da nossa espécie. Mas com isso surgiram outros problemas, como o enfraquecimento de tradições alimentares dos povos do mundo inteiro, diminuição das variedades de alimentos, surgimento de multinacionais com mais dinheiro que muitos países, patenteamento de sementes que deveriam ser bens universais do homem, poluição, sofrimento animal e uso indiscriminado de veneno.

Países preocupados com seus cidadãos, na dúvida sobre os efeitos do consumo de alimentos com agrotóxico, restringem a utilização desses produtos, mas por aqui nossos legisladores afrouxam cada vez mais as regras e até dificultam a comercialização de alimentos orgânicos. Querem nos matar em nome do lucro, e conseguem isso colocando deputados e senadores no bolso. É a bancada do boi, da bala e da bíblia.

Outra questão que não existe consenso é sobre se é possível alimentar a população mundial sem uso de transgênicos e venenos. Uns acham que sim, outros que não. Mas no atual momento, o mais sensato a se fazer é seguir a tendência mundial de restrição.

Só lembrando que a indústria do agrotóxico é oriunda da indústria armamentista. A Bayer fazia os gases utilizados para matar judeus durante o holocausto.

Abaixo vídeo explicativo sobre a PL do Veneno. Assine a petição.

domingo, 1 de julho de 2018

Chove todo dia 2 de novembro

Criei o hábito de anualmente publicar no Facebook no dia 3 de novembro se choveu ou não na véspera, aka Dia de Finados. Nas últimas cinco ocorrências só choveu uma vez, vinte por cento dos casos, mas ainda assim é extremamente comum achar pessoas que têm certeza que sempre chove. Você se pergunta por que isso acontece? Por que as pessoas mantêm uma fé inabalável na precipitação do dia 2 de novembro? Felizmente a ciência tem a explicação. Senta que o titio vai falar sobre viés de confirmação e dissonância cognitiva:

Temos a tendência de somente perceber os fatos e informações que confirmem nossas crenças e ignorar tudo que nos contradiz. No caso em questão, as pessoas realmente esquecem dos dias em que não choveu, mas vão lembrar daqueles que choveram mesmo que ocorridos há muitos anos. A isso a psicologia dá o nome de viés de confirmação

Suponhamos que no dia 3 de novembro alguém vire para um desses crentes e mostre que fez um lindo dia de sol na véspera. Ao perceber isso, a pessoa vai sentir um desconforto psicológico, já que está diante de duas informações conflitantes. Naturalmente vamos tentar acabar com este desconforto, também conhecido como dissonância cognitiva. O indivíduo tem três opções:

a) ignorar o dia que não choveu e realmente esquecer, depois de algum tempo, essa informação e continuar acreditando que sempre chove;

b) interpretar o fato de forma tendenciosa, como dizendo que onde a tia dela mora em Manaus choveu;

c) recriar todo seu sistema de crenças e aceitar que realmente não chove. Mas isso dá muito trabalho. Requer um esforço mental enorme que muitas vezes tem efeito dominó e requer a reavaliação de outros valores. Por isso as pessoas evitam esta opção e preferem continuar na segurança de suas convicções.

Entendeu? A ciência não é incrível? 

Will Tirando
Isso acontece com todo mundo em todos os campos de conhecimento: na religião, política, esportes, relacionamentos amorosos, quando estamos tentando perder peso mas nos deparamos com um pedaço delicioso de pizza e procuramos um motivo para comer e não sentir culpa, enfim, ninguém está livre disso e na maioria das vezes ficaremos do lado mais confortável destes dilemas diários.

Em resumo:

Alguém que acredita que que chove todo dia dois de novembro é confrontado com o fato de não chuva nesta data. Ele sente um desconforto psicológico (dissonância cognitiva), já que está diante de duas ideias conflitantes. As opções que este indivíduo tem: esquecer desse dia que não choveu ou fazer uma interpretação tendenciosa para manter suas crenças (viés de confirmação) ou mudar todos seus valores, o que consome muito tempo e energia.

Há décadas cientistas anotam todas as chuvas que acontecem no mundo. Essa informação está disponível na internet. Você escolhe a região e a data e aparece uma planilha com a quantidade de milímetros precipitados. Ia fazer uma relação com os últimos dez anos para mostrar que não chove todo dia dois de novembro, mas desisti. Mas adianto o resultado: não chove. Se você acredita nisso, suas opções estão dadas.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Não quero acreditar, quero saber

É muito fácil verificar se a astrologia é real ou não. É só fazer pesquisas utilizando diversos grupos de pessoas, de países, religiões e culturas diferentes, de signos e ascendentes diversos, astrólogos, céticos e crédulos, aplicar testes de verificação de personalidade (a psicologia tem diversos modelos) e comparar com os traços descritos no zodíaco.

A ciência já fez isso e provou não não existe nenhuma relação entre a data e hora do nascimento de uma pessoa e sua personalidade. Como não estou fazendo proselitismo, não vou colocar os links porque quem acredita vai continuar acreditando, independente de qualquer prova.

Doctor House tem uma frase incrível que resume bem essa necessidade em acreditar. Ele se refere à religião, mas faço uma licença poética para aplicar a todos os tipos de superstições: "Se argumentos racionais funcionassem com pessoas religiosas, não haveria pessoas religiosas."

As mulheres são mais propensas a acreditar na astrologia porque historicamente elas sempre foram apartadas da ciência, é só ver a quantidade de mulheres cientistas no mundo. Essa falta de contato com as ferramentas que explicam o funcionamento da natureza afetam a capacidade de relacionar causa e efeito, abrindo caminho para a crença num mundo assombrado por demônios.

Se você acredita em astrologia, não se sinta mal, você é o resultado de um sistema educacional ruim. A boa notícia é que ainda dá tempo para rever esse conceito.

Guia Prático de Ciências da revista Globo Ciência
Venho de uma família muito simples que sempre fez tudo para suprir minhas parcas vontades literárias. Um ponto marcante na minha vida foi a compra da coleção Guia Prático de Ciências, que trazia dezenas de experimentos para serem realizados em casa com materiais domésticos. Depois de cada experimento, aprendíamos um pouco sobre o funcionamento da natureza. A grande lição das horas que passava no meu quarto com esses livros foi aprender a necessidade de provas documentais para acreditar em alguma coisa.

O método científico não é perfeito, mas é o melhor que temos. Foi ele que levou o homem à lua, colocou satélites em órbita, criou celulares, internet, vacinas entre outras maravilhas, por isso não podemos negar sua eficácia em explicar o universo.

Também adorava assistir o Mundo de Beakman, programa infantil de televisão sobre ciência. Abaixo um trecho bem simples que explica como os cientistas trabalham: fazem uma pergunta, formulam uma hipótese, testam a hipótese através de um experimento, chegam a uma conclusão e, quando necessário, formulam outra hipótese e o ciclo recomeça.

Isso já foi feito vários vezes e a astrologia não passou em nenhum teste*. Felizmente agora os cientistas gastam seu precioso tempo em atividades realmente importantes para a humanidade.


* Testes sérios.



terça-feira, 22 de maio de 2018

Multa a pedestres

A partir de 2019, pedestres que não atravessarem na faixa poderão ser multados, e vou mostrar porque isso é errado e uma forma de penalizar os mais fracos.


Esse cruzamento fica perto da minha casa. Se eu quiser atravessar a rua Camerino, do ponto A ao ponto B, seguindo o planejamento de prefeitura, eu teria que passar por três sinais (C, D e E) e andar  um total de 300 metros para chegar até a pastelaria da esquina. Isso tudo simplesmente para chegar ao outro lado da rua. Você acha justo eu ser multado por ir do A ao B nestas condições?

Outra situação: esta matéria do Bom Dia Brasil coloca a culpa no pedestre pelos riscos que ele corre ao atravessar a rodovia num ponto distante 300 metros da passarela. Mas a distância é o dobro dessa, já que são necessários caminhar mais 300 metros para chegar ao destino. Considerando ida e volta, são um quilômetro e duzentos metros a mais.

Poderia ficar aqui o dia inteiro citando outros exemplos e mostrando o quanto a política de mobilidade do Brasil privilegia há mais de cinquenta anos os deslocamentos por carro.

O gráfico abaixo mostra a evolução da engenharia de tráfego:

Fonte
No Século XIX, quem quisesse fazer um trajeto a pé ou a cavalo percorreria a mesma distância. No início do século seguinte, os bondes, uma novidade na época, percorria um pouco mais em comparação aos outros modais, assim como os carros a partir de 1920. De 1950 em diante, a menor distância percorrida entre dois pontos sempre vai ser de quem estiver dentro de um carro. Explico:

O cidadão que resolver percorrer a pé toda a extensão da Avenida Presidente Vargas vai andar mais do que seus quatro quilômetros. Na esquina com a Avenida Passos não existe sinal para pedestre, obrigando o caminhante a fazer um desvio de 50 metros Passos adentro e depois voltar outros 50 para continuar sua jornada. Esse tipo de percurso acontece ao longo de toda a Vargas, mas se a pessoa resolver fazer o mesmo trajeto de carro vai encontrar um linha reta sem nenhum tipo obstáculo.

Outro dia fui numa empresa que fica no Trevo das Missões, entroncamento entre a Avenida Brasil e a Washington Luiz. Na volta, perguntei a um ambulante como acessar o ponto de ônibus, já que não via sinal nem passarela. Recebi um conselho: pede para papai do céu e vai. O ponto, não oficial, é um acordo entre motoristas e passageiros para que os trabalhadores não fiquem sem transporte, já que a prefeitura ignora totalmente a presença de gente naquela região.

Nossa vida andando na cidade é assim, pedindo para papai do céu e indo.

Para tentar forçar o pedestre a seguir esse planejamento tacanho, grades são colocadas nas calçadas, mas quem já estudou minimamente urbanismo sabe que muitas pessoas continuarão atravessando fora da faixa e abrindo buracos nas cercas, aumentando ainda mais seus riscos.

A preferência sempre vai ser do carro, fazendo com que o cidadão que precisa enfrentar ônibus lotado todos os dias almeje comprar um ao invés de vislumbrar uma cidade que ofereça igualmente a todos os modais a mesma possibilidade. O resultado dessa política todos nós conhecemos, que são os engarrafamentos, acidentes, poluição, estresse, mortes e doenças.
Acima, espaço que a locomoção individual motorizada ocupa no planejamento das cidades. Logo abaixo, a forma como deveria ser, com todos os modais recebendo o mesmo tratamento.
Cresci vendo filmes policiais ambientados em Nova Iorque dos anos 80, com aquelas cenas de perseguição e tiroteios no meio das ruas engarrafadas, cinzas e poluídas, realidade bem parecida com a do Rio de Janeiro de hoje (inclusive com os tiroteios). Graças a uma política urbana revolucionária, agora a Big Apple é um exemplo para o mundo, mostrando como diminuir os engarrafamentos reduzindo os espaços para os carros, cortando vagas de estacionamento nas ruas, alargando calçadas, criando novas praças, espalhando ciclovias e investindo no transporte público. Abaixo, uma foto do antes e depois da Madison Square, a esquina mais famosa mundo, da Quinta Avenida com a Broadway:


Outros exemplos abaixo:
Nova Iorque: ruas deram lugares a boulevares
Los Angeles seguiu o exemplo

Por que não dá para fazer isso no Rio?

Nos Estados Unidos e na Europa esse sucesso só pode ser atingido por causa do forte investimento em transporte público, e esse é o principal motivo que dificulta a implementação desse modelo no Brasil. Por aqui, empresas de ônibus são os principais financiadores das campanhas eleitorais, e quem paga a conta escolhe a música. Quase todos os vereadores e prefeitos recebem dinheiro daqueles que mais ganham com o sucateamento do transporte, o que permite reajustes nas tarifas acima da inflação, veículos velhos em circulação e horários irregulares. Por isso, metrô e barcas ficam em segundo plano. O mesmo acontece em nível federal, com montadoras ganhando incentivos fiscais para vender cada vez mais carros.

O mais curioso é que o único candidato a prefeito do Rio que não aceitou doações dos empresários de ônibus e resolveu enfrentar esse modelo perverso que massacra o carioca, querendo adotar uma política pública parecida com a de Nova Iorque, foi um socialista. Podem me chamar de esquerdopata, mas vai ser Marcelo Freixo quem um dia vai fazer isso por aqui.

Em São Paulo, o petista Fernando Haddad não conseguiu se reeleger. Enquanto prefeito, também resolveu investir no transporte público e ciclovias, reduziu a velocidade nas marginais, diminuiu os espaços para carros e abriu a Avenida Paulista para pedestres aos domingos. Qualquer semelhança com Nova Iorque não é mera coincidência.

Não tá acreditando? Veja a matéria abaixo no Jornal Nacional:



Zero mortes

Como pode ser visto acima, Nova Iorque adotou uma meta ousada, a de zerar o número de mortes no trânsito. Para isso, deu prioridade aos pedestres, aumentou as multas, reduziu velocidades e os espaços destinados aos carros. Desta forma, reduziu a quantidade de óbitos para o mesmo patamar de 1910, quando as ruas eram ocupadas por carroças.

Talvez zerar o número de mortes não seja uma meta atingível, mas é o que norteia toda a política urbana da cidade. Chorei vendo o vídeo abaixo, quando um cidadão é perguntado qual seria o número tolerável de óbitos:


Mas no Brasil o deslocamento de carros tem mais importância que a vida das pessoas, e assim continuamos matando. Tentar obrigar alguém a esperar três sinais e andar 300 metros para atravessar uma rua é aumentar ainda mais os riscos de morte, já que a realidade mostra que ninguém vai fazer isso. Ninguém vai andar 300 metros para chegar até a passarela, totalizando 1.200 metros ida e volta, ou 20 minutos a mais para uma tarefa que deveria levar poucos segundos.

Cidades modernas já entenderam isso e deram prioridade aos deslocamentos a pé, salvando milhares de vidas por ano. Apesar da nossa legislação preconizar que o pedestre tem prioridade, nossa realidade mostra outra coisa. 

É triste viver num país onde minha vida vale tão pouco.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Big Brother da vida real

Moro perto do prédio da Polícia Federal no Rio, ao lado da Praça Mauá. Consequentemente bebo nos mesmo bares que os policiais, e semana passada um deles sentou na minha mesa e conversamos por um bom tempo. Ele trabalha ouvindo escutas autorizadas pela justiça e fazendo transcrições das conversas, que servem para alimentar as investigações que estão em curso. Lembrei de um filme dos Estados Unidos no qual o protagonista é um agente da CIA que trabalha como analista de informações, também ouvindo escutas e interceptando e-mails, atividade realizada por quase a totalidade dos agentes, realidade bem diferente daquela retratada no cinema com espiões agindo secretamente em território estrangeiro e trocando tiro com terroristas.

A realidade brasileira é parecida, boa parte da força policial federal trabalha com informações. As ações de rua, de busca e apreensão, geralmente são realizadas pelos novatos ou pela força especial que sai em operações específicas e de alto risco. A revista piaí de maio narra uma dessas operações, digna de virar filme.

A principal diferente entre e terra do Curupira e a terra do Tio Sam é a tecnologia. Por lá, algorítimos 'ouvem' as conversas e separam palavras chaves. Por aqui, ainda precisamos de uma pessoa com fone no ouvido e digitando tudo que os suspeitam falam.

Uma coisa que ainda não conseguiram grampear, pelo menos por aqui, são as conversas do WhatsApp, o que dificulta muito as investigações. Tudo que a PF consegue fazer é plugar o aparelho apreendido num equipamento, chamado de chupa-cabra, e baixar as mensagens. E este equipamento custa muitos milhares de reais.

Ainda que tecnicamente seja possível instalar um app espião, é necessário estar de posse do aparelho desbloqueado para isso. Ou através de aplicativos maliciosos, de origem duvidosa, instalados pelo proprietário sem saber. Por isso é fundamental ficar atendo a tudo que colocamos no celular, de preferência apenas produtos de empresas conhecidas, como Google, Microsoft ou Apple. Aquele joguinho passa-tempo pode estar te espionando, com acesso ao seu microfone, câmera e conversas.

O WhatsApp, ao que parece, realmente é um ferramenta a prova de invasão. Muitos juízes que não conhecem a tecnologia já solicitaram ao Facebook, empresa proprietária do aplicativo, mensagens de pessoas que estavam sendo investigadas. Diante da impossibilidade de fornecer esses dados, que são criptografados e apenas o emissor e o receptor têm acesso ao conteúdo, mandaram tirar o programa do ar no Brasil. Isso já aconteceu umas duas ou três vezes, mas por apenas algumas horas, já que as medidas foram revogadas por outros juízes.

Ter um pouco de privacidade é reconfortante, apesar de saber que o acesso a estas conversas poderia ajudar a desvendar muitos crimes. Lembro de acompanhar pela imprensa o desaparecimento de um adolescente e ficar imaginando se seu paradeiro não teria sido descoberto com mais facilidade se os investigadores tivessem tido acesso às mensagens do WhatsApp, mas ainda acho a privacidade mais importante. Não apenas por questões pessoais, mas porque acredito que isso possa coibir o caminho para um futuro distópico.
Fonte da imagem
Nos Estados Unidos existe uma briga entre a justiça, a polícia e a Apple para que a empresa forneça ferramentas que permitam que investigadores acessem iPhones apreendidos. A Apple tem lutado até onde pode para não permitir isso, visando proteger seus usuários. Em um caso recente, a polícia invadiu um velório para desbloquear, através da digital, o telefone do morto.

Somos vigiados

Tenho certeza que meu celular tá me ouvindo 24 horas por dia. A incidência de anúncios relacionados às minhas conversas é tão grande que já passou de qualquer possibilidade estatística de ser coincidência. Não sou terrorista nem trabalho com informações confidenciais, mas, caso fosse, meus hábitos seriam outros. Ainda assim, passei a tomar alguns cuidados que compartilho com vocês:


Celular: só instalar apps confiáveis e bloquear acesso ao microfone e câmera. Só ligar o GPS quando for necessário.

Navegador: atualmente uso o Brave, que bloqueia quase todos os anúncios (no Youtube não aparece nenhum, os vídeos rodam sem nenhum tipo de interrupção), localizadores e cookies (arquivos instalados no computador que registram os hábitos do usuário). Se você quer continuar com o Chrome, instale um adblock confiável.


Se é exagero eu não sei, mas já chegamos num futuro distópico na China, que controla por vídeo quase todos seus cidadãos, um Big Brother real. Proteger até o fim nossas informações nos ajuda a evitar que esse tipo de coisa aconteça por aqui.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Calabouço

Autorizei o débito no cartão de crédito e em poucos segundos todos os romances de Machado de Assis estavam disponíveis para leitura no meu Kindle. Custaram alguns poucos reais e comecei com Esaú e Jacó, que inicia com a subida de Natividade e sua irmã, Perpétua, ao extinto Morro do Castelo para fazer uma consulta com uma bruxa.

O Morro do Castelo foi derrubado em 1922 e do local só sobraram o nome, que indica a região onde ele ficava no centro da cidade, e um pequeno trecho da Ladeira da Misericórdia, que só não foi abaixo também porque serve como parte da estrutura que mantém em pé a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso. Para mim é um local de reflexão, já sentei naquele calçamento de pé-de-moleque para imaginar o Rio em seus primeiros anos de fundação. Aquelas pedras fazem parte da primeira rua da cidade, e o arrasamento do morro foi uma violência histórica e cultural que teve como objetivo expulsar os pobres que moravam a poucos metros da recém criada Avenida Central, atual Rio Branco, com seus novos prédios de inspiração francesa.

Se fosse me casar numa igreja, seria esta que está aos pés da ladeira. Não apenas pela forte ligação com o Rio, mas por ser ali o local onde foram realizadas as primeiras apresentações teatrais, com índios catequizados dirigidos por padres jesuítas em encenações que contavam a história do cristianismo.
Ladeira da Misericórdia
Foi essa paixão pela gênesis da cidade que me levou a começar por Esaú e Jacó. Os olhos dos meus amigos brilham ao falar de Machado e Lima Barreto, o que sempre me deixou envergonhado por não ter lido nenhum deles. Sou um leitor tardio, comecei no ensino médio por influência de amigos. Foi Carlos Leandro quem me ofereceu a primeira publicação que li com gosto, O Menino Sem Imaginação, uma crítica bem humorada à sociedade e à televisão.

Meus pais sempre responderam positivamente os meus parcos interesses pela literatura e compravam os livros que me interessavam, além de fazer assinaturas de revistas. Ainda guardo muitos desses materiais no meu antigo quarto, dezenas de edições da Globo Ciência, atual Galileu, e uma coleção em capa dura de ciência para crianças, com várias experiências que podiam ser realizadas com itens caseiros. Só agora, ao escrever estas linhas, que me dou conta do quão importante isso foi para minha formação. Foi neste momento que o método científico fincou raízes no meu cérebro.

Embebido na leitura de Esaú e Jacó, fui até a casa onde o autor nasceu e passou seus primeiros anos, a uns 300 metros de onde eu moro. A residência está abandonada e não há nada que indique que ali morou o maior escritor brasileiro. Só sabemos disso graças ao trabalho do historiador Milton Teixeira, que recentemente fez esta descoberta. Outros dois locais onde Machado morou possuem placas indicativas: o prédio da Firjan na esquina da Rua Santa Luzia com a Graça Aranha e um prédio residencial no Cosme Velho, que rendeu-lhe o apelido de Bruxo do Cosme Velho. Apesar das casas não existirem mais, as placas não deixam esta história ser esquecida.

O que mais me surpreende é que a Ladeira do Livramento está na Região Portuária do Rio, um espaço também conhecido como Pequena África, tamanha a influência da cultura africana. Como forma de celebração, foi criado pela prefeitura um circuito com locais importantes para a cultura negra, como a Pedra do Sal (onde surgiu o samba), o Cais do Valongo (cais que mais recebeu africanos escravizados no mundo, foram cerca de um milhão) e o Cemitério dos Pretos Novos (onde os cativos que morriam por causa da péssimas condições da travessia do Atlântico eram enterrados). A casa onde Machado de Assis nasceu, que era negro, ficou fora do circuito.

A Pequena África recentemente ganhou o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, título em risco por conta de uma gestão incompetente da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro que ainda não realizou nenhum dos compromissos firmados com a Unesco, como a criação de um centro de visitação. Surpreendentemente, a secretária é negra e não faz absolutamente nada preservar essa história.

Infelizmente não me encantei com os romances do Bruxo. Achei difíceis, com palavras e referências que não conheço e uma estrutura de texto que não estou habituado a ler. Nem terminei Esaú e Jacó, o que me faz me sentir meio burro.

Curiosamente, foi uma tradutora estadunidense, responsável pela quarta tradução em inglês de Brás Cubas, que despertou em mim novamente a vontade de tentar. Em excelente artigo publicado na revista piauí, ela conta o desafio que foi traduzir a palavra calabouço, presente em dos trechos do livro.

Ponta do Calabouço
Apesar de grafado em letra minúscula, esta referência eu sabia. O nome se refere a um local onde os escravos eram castigados, já que seus proprietários eram proibidos de aplicar castigos físicos. Claro que esta regra não era respeitada, principalmente no interior, mas na capital do país era necessário pagar ao estado para que os negros fossem açoitados.

O Calabouço ficava perto do atual Museu Histórico Nacional e hoje seu exato local está na cabeceira do aeroporto Santos Dumont. Eu sobrepus uma mapa antigo com um atual, tirado do Google Maps.

Flora Thomson-DeVeaux, a tradutora, conta a saga que foi fazer esta descoberta, já que todos seus amigos cariocas desconheciam essa história. Assim como o Calabouço, os livros de Assis são repletos de referências que, apesar de estarem no cotidiano dos habitantes da cidade na época em que foram escritos, requerem grandes pesquisas para serem entendidas em sua plenitude. Fiquei impressionado com a pesquisa de Flora para achar a palavra perfeita para a tradução e com a solução encontrada, que vai virar uma nota de rodapé. Foi a partir daí que me dei conta das edições comentadas, que trazem anotações que ajudam o leitor contemporâneo a entender a obra. Acabei de comprar por três reais o Memórias Póstumas de Brás Cubas, comentado, ilustrado e com glossário. Vamos ver se desta vez eu consigo.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A polêmica do Peninha

O martelo do tribunal da internet bateu mais uma vez. Como já li algumas das publicações do Eduardo Bueno, assisti todos os vídeos do Buenas Ideias e já o acompanho em entrevistas e reportagens há algum tempo, posso falar com um pouco mais de profundidade sobre ele do que os comentários que tenho lido no Facebook, chamando-o de babaca e diminuindo a importância de seus livros. Tudo isso por conta de um vídeo sobre futebol no qual ele fala para a comentarista voltar para a cozinha.

É difícil encaixar Eduardo Bueno, o Peninha, um dos quadrantes do plano cartesiano político, por isso ele é atacado tanto pela direita quanto pela esquerda. Meio como o Ricardo Boechat. Isso não me incomoda, já que também sou assim, como vai ficar claro neste texto.

Bueno sempre foi polêmico, mas teve, e tem, importância fundamental no incentivo ao estudo de história. Foi o primeiro escritor a colocar a história do Brasil nas listas dos mais vendidos com a trilogia Terra Brasilis. Jornalista de formação, escreveu com uma linguagem acessível e atraente as difíceis palavras dos acadêmicos. Isso abriu caminho para outros best sellers, como Laurentino Gomes. Obviamente os historiadores ficaram chateados com o sucesso dos jornalistas e uma rixa foi criada.

Polêmica com Eduardo Bueno
O engraçado disso é que foi o Bueno o responsável pelo interesse de muita gente em conhecer nossa história, cuja deficiência virou bordão da esquerda para explicar o crescimento de discursos de ódio.

Muita gente se incomoda porque ele toca em alguns tabus, mas que são fundamentais para entender o país de maneira limpa. Um desses tabus é que os grupos revolucionários durante a ditadura não lutavam pela democracia, mas lutavam pela implementação de outra ditadura, a do proletário. Uma rápida pesquisa no Google prova isso, tando que houve diversas dissidências por alinhamento ideológico, alguns queriam seguir o modelo soviético e outros o modelo chinês.

Os africanos escravizados trazidos para o Brasil eram vendidos por outros negros, assim como Zumbi, ícone da liberdade, tinha escravos em seu quilombo. Peninha toca nesses assuntos não para justificar o racismo ou qualquer outro tipo de violência, mas porque esses fatos são reais e uma discussão honesta sobre nosso passado não pode omitir nenhuma informação.

Futebol e zueira

Não acompanho futebol, mas todas as discussões que presenciei de amigos conversando sobre o assunto foram acaloradas e a zueira sempre reinou nesses ambientes, não como forma de opressão, mas como demostração de intimidade e afeto. Quantas vezes já chamei amigos de filhos da puta como sinônimo de querido? Muitas.

Quando estamos cercados de pessoas próximas, nossa língua fica mais frouxa. Os filtros morais desaparecem e por vezes fazemos comentários jocosos que não possuem nenhum objetivo de ofender.

Não acredito que Bueno seja machista ou racista, e tampouco achei o comentário ofensivo. Adoro o canal dele de história, o Buenas Ideias, no qual ele usa a mesma língua afiada.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Bactérias e saúde

Durante boa parte do Século XX, a medicina recomendava uma caça total às bactérias. Até hoje essa ideia reverbera, visto a quantidade de produtos antibactericidas no mercado, desde sabonetes íntimos, produtos de limpeza e uso excessivo de antibióticos. Não faz tempo que o Fantástico tinha um quadro chamado Doutor Bactéria, com dicas de como eliminar esses seres do nosso dia a dia.

Com o passar do tempo, percebemos que apenas 1% das bactérias são patogênicas, ou seja, podem nos causar doenças, e uma grande parte delas é fundamental para manter nossa saúde. Aquela história de deixar a criança pegando anticorpos brincando na areia da pracinha e convivendo com cachorros é verdadeira. Pesquisas apontam que crianças nascidas em parto natural entram em contato com bactérias vaginais da mãe que ajudam a fortalecer o sistema imunológico.

Essa nova percepção tem jogado no mercado toneladas de produtos probióticos, alimentos que possuem microrganismos vivos em sua composição, e muita gente tem perdido um pouco a noção ao defender suas propriedades curativas. Alguns afirmam, ainda sem comprovação científica, que é possível até curar câncer.

Infelizmente a ciência começou há pouco tempo a realizar pesquisas nestas áreas, mas já existem alguns indícios: esse excesso de limpeza de ambientes e da comida (alimentos processados são esterilizados) ajudaram a enfraquecer nossos corpos, resultado totalmente oposto àquele desejado quando esta onda anti germes começou. Este enfraquecimento pode ter ligação com o considerável  aumento do número de crianças que hoje em dia são alérgicas, índices maiores do que os registrados em gerações anteriores, o que tem preocupado médicos e cientistas.


As bactérias presentes na vagina também possuem função de proteção contra a entrada de agentes nocivos, então sabonetes íntimos antibactericidas podem ser prejudiciais. O mercado faz de tudo para fazer as mulheres se sentirem sujas, dizendo que seus cheiros naturais são ruins, tudo isso para vender produtos de limpeza.

Diante de todas essas evidências, tenho adicionado alguns produtos fermentados naturais na minha dieta e cultivo em casa kefir, kombucha e levain, colônias de bactérias e leveduras usadas para transformar alimentos.

O kefir transforma leite em iogurte de um dia para o outro, e uso misturando com frutas e mel, fazendo molhos para salada e coalhada seca. Também pode ser usado no preparo de substitutos de queijo fresco, requeijão entre outros produtos.

Meu kombucha
Já o kombucha é usado para fermentar chás que possuem cafeína, como o verde e o mate. Confesso que é bem ruim, a colônia transforma o açúcar em ácido lácteo, deixando um sabor avinagrado, mas é possível fazer um refrigerante natural e gaseificado misturando com sucos, ervas ou raízes, por exemplo.

O levain é a fermentação natural de pães. Não possui propriedades probióticas, já que o forno mata toda a cultura, mas o resultado é delicioso. O pão é um alimento milenar e não existia fermento químico nem supermercado quando foi criado. A fermentação ocorria através dos microrganismos presentes no ar que começavam a se alimentar da farinha molhada deixada em certas condições ambientais.

Chucrute e cerveja caseira também são fermentações naturais, mas ainda não me arrisquei nestas áreas.

Virou moda

O uso desses microrganismos para fazer comida tem virado moda e Sandor Katz é considerado o guru da fermentação. Ele recentemente esteve aqui no Brasil falando com cultivadores.

Essa moda está fazendo surgir a cada dia um novo canal no Youtube, um novo livro, eventos e cursos, além de grupos que fazem doações dessas colônias para quem quiser começar. Eu mesmo já doei kefir e kombucha para amigos e desconhecidos. Geralmente as pessoas desses grupos também são ligadas a ideias mais colaborativas de mundo, de enfrentamento ao consumismo e com hábitos de vida que visam diminuir a geração de lixo e poluição.

É um universo bem interessante. Recomendo fortemente o livro Cozinhar - Uma História Natural da Transformação, de Michael Pollan. Também tem a série Cooked, da Netflix, baseada no livro.

Mas não deixe de tomar banho

Obviamente não podemos deixar de manter hábitos de higiene como lavar as mãos antes de comer, mas é preciso achar um meio termo nesta convivência com os microrganismos, fundamentais para nossa saúde.

Atualização (23mai18): Contato com germes pode prevenir leucemia em crianças, diz estudo.