terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Trenzinho é transgressão

Ao chegar em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o visitante é recebido com placas que indicam ser ali a capital do agronegócio, mas acho que a cidade deveria ser conhecida como capital do trenzinho.

Com um dos maiores PIBs do Brasil, localizada num vale e cercada por cana, o município possui poucas opções de lazer gratuitas para crianças, por isso as dezenas de carretas equipadas com potentes aparelhos sonoros e luminosos, que saem todo final de semana, arregimentam uma multidão de jovens pobres nas áreas periféricas, enquanto a classe média está dentro dos shoppings.

O Rio de Janeiro tem uma relação única com os espaços públicos, praças e ruas são lugares vivos e ponto de encontro entre as pessoas. Outras cidades não possuem esse tipo de relação. Muitos ribeirão-pretanos consideram as ruas lugares perigosos e, apesar da cidade apresentar índices de violência mais baixos do que nas capitais (ninguém ouve tiro ou precisa fugir de arrastão), a impressão que tenho é que o medo é maior.

Os vínculos familiares são mais fortes e a rua não assume o papel de extensão do lar como no Rio. As únicas aglomerações se encontram nas mesas dos bares nas calçadas. Essa aparente aridez só é quebrada quando passa um trenzinho, que transforma a rua num carnaval.

Cheguei à praça, que estava com mato alto, iluminação precária e equipamentos danificados, por volta das 20h de sexta para embarcar no Big Folia, uma das maiores carretas de Ribeirão, que conta com uma estrutura de dois andares e é propriedade da mesma empresa da famosa Carreta Furacão. A garoa não impediu que aos poucos os passageiros fossem chegando. Logo fiz amizade com João*, um jovem de 16 anos mas que aparentava muito menos. Grande entusiasta deste tipo de diversão, gastou os únicos quatro reais na passagem de ônibus para acompanhar andando as duas viagens do Big Folia, e depois amargaria mais de uma hora de caminhada de volta para casa. Foi ele quem me ensinou muita coisa sobre os trenzinhos e em retribuição paguei uma viagem na carreta e a passagem do ônibus de volta.

É um fenômeno cultural incrível que precisa ser etnografado. É transgressão do início ao fim, e apesar da intenção do Ministério Público em proibi-la, a Câmara de Vereadores, junto com a população e os empresários, regulamentou a atividade através da Lei dos Trezinhos. Não sei como funciona a fiscalização, mas me pareceu que alguns dos dispositivos não estavam sendo cumpridos, como a proibição de músicas eróticas.


Fiquei aflito algumas vezes olhando o movimento do segundo andar. Crianças arriscando a vida entre carros em avenidas onde muitos motoristas não diminuíam a velocidade. Os personagens incorporavam uma mistura de bate-bola dos subúrbios cariocas, dançarinos e praticante de le parkour, num descaralhamento total pelas ruas. Resolvi separar os participantes por categorias, para melhor tentar entender o funcionamento desta festa:

Personagens: meninos com idades em torno dos 20 anos contratados para animar as viagens dos trenzinhos. Fofão, homem aranha, palhaço, Cascão, Cebolinha entre outros. São alvo de gozações e inveja dos outros adolescentes por serem cobiçado entre as meninas, muitas denominadas como Maria Trenzinhos. Ganham dez reais por festa.

Fãs mirins: crianças que frequentam os trenzinhos fantasiadas como seus personagens favoritos. Existe uma loja especializada neste tipo de traje na cidade.

Ciclistas: acompanham os veículos fazendo manobras pelas ruas.

Periguetes: meninas maquiadas e vestidas para festa que dançam e rebolam nos trenzinhos, que se transformam no equivalente das matinês quando eu tinha a mesma idade.

Personagens avulsos: jovens que usam fantasias improvisadas dos personagens e que animam a viagem dançando e fazendo coreografias, mesmo não sendo contratados da equipe.

Andarilhos: são aqueles que não possuem dinheiro para o ingresso (cinco reais) e que vão acompanhando o trenzinho a pé. Alguns se aproximam de adultos que estão na fila e puxam papo na esperança de conseguir que lhe paguem a passagem. Dois usaram deste expediente comigo. A maior parte dos andarilhos são crianças, e fiquei impressionado como que eles cruzam o bairro sem supervisão dos pais.

Seguranças: funcionários que trabalham evitando comportamento de risco dos clientes (ficar descalço no chão metálico do trenzinho é um comportamento de risco), não deixar que os mais afoitos no segundo andar cuspam nos personagens e tirar galhos e fios do caminho.

Esses são os que mais aparecem. Ainda tem os mecânicos, motoristas, DJs, costureiras entre outras funções de uma cadeira produtiva que gera renda para muita gente.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

No amor e no pescotapa

Licor de menta, porta de entrada para o inferno
Ser adolescente nos anos 90 na Ilha do Governador era frequentar as matinês da Patin House, uma festa para menores de idade regada a bebidas baratas feitas com etanol e água de bateria. Tenho amigos que até hoje não voltaram da viagem que a mistura desses ingredientes causavam.

Está para rolar uma festa para lembrar essa época, com os mesmos DJs, as mesmas músicas e o mesmo licor de menta, que até hoje me dá enjoo e quase me levou ao coma alcoólico algumas vezes. Não, obrigado, tem coisa que é melhor deixar no passado.

Naqueles tempos a azaração consistia num corredor polonês de garotos que ficavam puxando os cabelos das meninas. Nunca consegui ninguém assim e desconfio que aqueles que pegavam num peitinho nos camarotes não utilizavam deste expediente. Mas foi desta forma que comecei a aprender a tratar uma mulher, agindo como um perfeito idiota tentando dar uns beijos numa qualquer ou identificando aquelas que eram para casar, que certamente não frequentavam a Patin House, já que o mundo se dividia em apenas duas categorias de meninas.

A minha mãe casou com o primeiro namorado e até hoje mantem um casamento feliz às beiras das bodas de ouro. Nunca trabalhou fora, a responsabilidade de prover a casa sempre foi do meu pai. Meu irmão seguiu este modelo, mas eu me peguei indo para outro caminho e vislumbrando outras formas igualmente válidas de relacionamentos, heterossexuais, homossexuais, PA, abertos, poliamor etc. Vi que o mundo não se divida entre mulheres para comer e mulheres para casar, ou seja, toda minha formação para uma dança do acasalamento bem sucedida tinha que ser deixada de lado e começar a aprender tudo do zero.

Me cerquei de mulheres decididas a implodir a porra toda. No trabalho, nas amizades, nos relacionamentos. Toda minha formação sobre como tratar uma mulher teve que ser jogada no lixo e até hoje tenho dúvidas sobre como proceder. Mas vou seguindo e aprendendo, às vezes na base do amor, às vezes na base do pescotapa.

sábado, 5 de agosto de 2017

Microrrevolução diária

Foliã
Meus pais são paraibanos e vieram para o Rio em busca de uma vida melhor. Minhas vós eram professora e costureira, e seus companheiros exerciam profissões igualmente simples, mas suficientes para colocar comida no prato e um teto sobre uma cama quente. Não são flagelados da seca que chegaram num pau de arara, mas meu pai vislumbrou um pouco mais de conforto migrando para o Sul Maravilha no final da década de 70 em companhia de uma multidão de outros homens e mulheres que fizeram a mesma aposta.

Muito trabalho e ovo frito no almoço depois, meu pai, guerreiro e exemplo de vida, entrou para Petrobras, o que proporcionou escolas particulares aos seus filhos e a possibilidade da prole poder se dedicar integralmente aos estudos. Minha vida não é diferente ao de uma parcela significativa da população, são milhares de famílias com um histórico parecido: migração do nordeste e uma casinha no subúrbio com alguns eletrodomésticos comprados a prestação.

Um degrau acima na escada social, minha geração foi extremamente mimada e desobrigada a realizar tarefas domésticas, já que, com uma educação melhor e a tendência de continuação da ascensão social, não precisaríamos aprender o trabalho braçal porque, afinal de contas, seríamos gerentes de multinacionais pouco depois dos 20 anos e ganharíamos mais do que nossos pais, com empregados responsáveis por essas tarefas.

Só que, como todos nós sabemos, o país não caminhou para o destino imaginado pelos nossos genitores. A geração Xuxa, que cresceu acreditando que o 'cara lá de cima' nos daria tudo que queríamos, chegou aos 30 subempregada e ainda morando com os pais. Com uma emancipação tardia, chegamos a idade adulta totalmente despreparados para cuidar de uma casa. Muitos ainda não descobriram como a roupa suja jogada no chão continua suja e jogada no chão no dia seguinte.

Hora do recorte de gênero: às meninas sempre foram ensinadas as tarefas domésticas. Não estou fazendo nenhum julgamento de valor nem dizendo que fomos criados de um jeito errado. Nossos pais se esforçaram para fazer o melhor, nos dando uma educação que segundo suas visões de mundo era a mais adequada, só que o ambiente mudou. Tenho certeza que farei o mesmo com meus filhos, ensinando valores e habilidades que serão obsoletas quando eles crescerem.

Essa reflexão me veio depois de observar um grupo de jovens com quem estou trabalhando. Eles são incapazes de jogar os copos descartáveis no lixo e arrumar as cadeiras depois de uma reunião. Vou ter que, no próximo encontro, pedir para fazerem isso. Mas não os culpo, também nunca tive que lavar um prato na idade deles. É um processo de aprendizado.

Ir ao mercado, cozinhar, lavar a louça e fazer faxina são minhas pequenas contribuições à equidade de gênero, atividades mais eficientes do que textão no Facebook. E lavar o próprio banheiro também tem muito sobre desigualdade social e violência, como foi brilhantemente relatado por Daniel Duclos num texto que para mim é referência. Por esses dois motivos, não delego esses trabalho a terceiros.

Coloquei a foto da Foliã para ilustrar a postagem porque essa desgraçadinha me faz lavar o quintal todos os dias: recolher o cocô, jogar água com sabão, esfregar com a vassoura, desinfetante e rodo. Não posso sair de casa sem fazer isso. Eu sei que é pouco, mas é minha microrrevolução diária.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Teatro do Saara

O mundo como o conhecemos está desmoronando e não sabemos o que vai surgir desses escombros. A violência e desemprego só não estão maiores do que a autoestima da Mallu Magalhães cantando samba. Sou da década de 80, não pagava aluguel nas crises anteriores, por isso só posso falar desta como a pior que já vivi.

Quando a gente acreditava que a luta por liberdades civis estavam avançando, uma massa conservadora e reacionária resolveu reagir e sair do armário, e Bolsonaro 2018 deixou de ser uma realidade improvável para se tornar um pauta exequível.

Diante de tanta notícia ruim, um dos refúgios que encontro é a arte. E, apesar de tudo, do prefeito evangélico que quer acabar com o carnaval e os eventos de rua, no micro, Donald Trump, no macro, e das gírias paulistas chegando ao Rio, excelentes produções que tocam lá fundo estão sendo realizadas. Parece que a arte absorve a crise como matéria criativa, o que me faz não ter dúvidas que estamos vivendo um momento de renascimento.

Crime na Uruguaina, Teatro do Saara

Não sou purista, mas uma das manifestações teatrais mais autênticas que assisti recentemente foi no Teatro do Saara. Sacrifício e entrega em nome da arte em um antigo sobrado vitimado por um incêncio que só deixou as paredes externas em pé. Foi ali dentro, debaixo de uma lona improvisada que fazia as vezes de teto e paletes empilhados como arquibancada, que assisti Crime na Uruguaiana, peça com 15 minutos de duração, na hora do almoço, voltada para trabalhadores e transeuntes do segundo maior centro de mercado popular do Brasil.

Foi um tapa na cara do meu preconceito. Confesso que imaginei assistir uma peça de humor raso e entendimento fácil voltado para o público que não tinha o hábito de frequentar teatros. De fato, o público pensando para o Teatro do Saara é aquele que por motivos sociais não tem acesso às salas de apresentações, mas o que foi apresentado ali não foi uma simplificação para alcançar uma plateia 'iletrada'. Foi teatro de verdade, arte com todas as suas letras e características.

A cena se passava na chuva, e a chuva de verdade que caía do lado de fora e dentro do sobrado, por causa das goteiras, aumentaram ainda mais a imersão na história. O som das gotas que saía das caixas se misturava com o som das gotas reais batendo na lona. O ventilador, que tinha mais o objetivo se tentar secar a arquibancada do que refrescar o público, me deixou com frio e arrepiado, como quem acompanha a cena molhado ao lado das personagens.

Uma peça bonita, poética e também trágica. Dois atores absortos que não conseguiram segurar as lágrimas diante da plateia cheia e do último dia de apresentação. Ao fechar das cortinas, ouvimos os gritos eufóricos de comemoração do casal que tinha acabado de se apresentar, e essa euforia se transmitiu a nós, que de alguma forma compartilhávamos aqueles sentimentos.

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Teatro não sobrevive apenas com bilheteria, por isso a importância de ferramentas de patrocínio, tanto privado quanto público. O Teatro do Saara só foi possível graças ao Fomento de 2015, programa da prefeitura que transfere recursos diretamente para produtores culturais. Em 2016, no apagar das luzes da gestão Paes, foi lançado outro, cujo pagamento foi cancelado por conta da derrota nas urnas e cujo compromisso não foi assumido Crivella.

Procure saber: #PagaOfomentoPrefeito

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PS.: dois fimes que recentemente também me marcaram: Eu, Daniel Blake e Lion.

sábado, 13 de maio de 2017

Comida e viagem no tempo

Um dos relatos gastronômicos mais incríveis que já li foi o do Anthony Bourdain no livro Cozinha Confidencial. Seu contato, quando criança, com uma ostra foi uma experiência quase sexual, na qual ele compara o corpo mole daquele molusco e sua sua deglutição com a também incrível experiência do sexo oral.

Não tenho a mesma habilidade com as palavras (e com as panelas) que o Bourdain, mas tenho uma memória afetiva igualmente forte com uma sopa de siri mole feita pela minha vó paterna na Paraíba, a vó Nita, que despertou em mim a consciência da mágica que acontece na cozinha, o poder da mistura dos ingredientes e sua transformação em acolhimento espiritual. Para mim, a gastronomia é mais uma experiência religiosa do que sexual, mas igualmente intensa. Comendo, eu encontro deus.

Ostras da feira da Ribeira, Rio de Janeiro
Ecdise é o nome técnico para a troca do exoesqueleto dos artrópodes. Quando cresce, os siris e caranguejos precisam deixar a carapaça e esperar que outra, maior, endureça novamente. Neste ínterim ele se transforma numa iguaria que pode virar moqueca, ser frita, empanada, entre outras preparações.

Comentei outro dia com meus pais sobre essa memória afetiva e a vontade que surgiu em provar novamente o prato. Como ainda sou mimado, meu pai conseguiu comprar o siri mole e minha mãe cozinhou no leite de coco, com pirão acompanhando. Colocar aqueles siris na boca me transportou anos no passado, para a cozinha da vó Nita, quando acordava e encontrava a mesa do café pronta, com cuscuz, bolos e tapiocas. O cheiro dos cajus, vindo do quintal, e do fumo de rolo, do vô Eduardo.

Queria entrar naquela casa novamente e encontrá-la do jeito que lembro. As ruas de barro que eu percorria com dificuldade na Barra Forte do meu avô, a garagem transformada em vendinha onde ele servia doses de pinga, o quintal dos fundos e seus cajueiros, a cozinha com mesa sempre farta.

A comida também é uma máquina de viagem no tempo.


Relato de Anthony Bourdain em Cozinha Confidencial:
De modo que quando nosso vizinho, Monsieur Saint-Jour, o pescador de ostras, convidou nossa família para sair em suas penas (barcos para pescar ostras), fiquei entusiasmado. 
Às seis da manhã, entramos na pequena embarcação de madeira com nossos cestos de piquenique e nossos sapatos confortáveis. Monsieur Saint-Jour era um desgraçado de um velho encarquilhado, vestido como meu tio, com um macacão centenário de brim, alpargatas e boina. Tinha um rosto queimado de sol, de pele grossa, castigada pelo vento, de bochechas murchas e aqueles mesmos minúsculos vasos sanguíneos estourados no nariz e na face que pareciam marcar todos os moradores locais, de tanto tomar vinho Bordeaux. Ele não informara muito bem a seus convidados como seriam os trabalhos do dia. Saímos do ancoradouro e fomos até uma bóia que marcava seu parc de ostras subaquático, uma porção cercada da baía, e lá ficamos nós…sentados…sem fazer nada…debaixo do sol furioso de agosto, esperando a maré baixar. A ideia era fazer o barco flutuar por cima da cerca de estacas, depois ficar lá, até que o barco afundasse devagarinho junto com o nível da água, até repousar no chão do bassin. Só então, Monsieur Saint-Jour e presumivelmente seus convidados passariam a despregar as ostras, recolhendo uma boa quantidade para vender no porto, e removendo quaisquer parasitas que pudessem ameaçar sua colheita. 
Havia, lembro-me bem, ainda um meio metro de água para que o casco do barco assentasse em terreno seco e nós pudéssemos caminhar pelo parc. Já tínhamos dado cabo do brie, das baguetes e da água Evian, mas eu continuava com fome e, como sempre, alardeei o fato para quem quisesse escutar. 
Monsieur Saint-Jour, ao ouvir isso – como se desafiando seus passageiros americanos -, perguntou então com seu forte sotaque girondino se alguém gostaria de experimentar uma ostra. 
Meus pais hesitaram. Duvido que tivessem se dado conta de que talvez tivéssemos de comer uma daquelas coisas cruas e pegajosas sobre as quais estávamos boiando. Meu irmão se encolheu todo de horror. 
Mas eu, no momento mais soberbo de minha curta vida, levantei-me todo prosa, sorrindo desafiador, e me ofereci para ser o primeiro. 
E, naquele momento inesquecivelmente doce de minha história pessoal, e que permanece mais vivo do que tantas outras primeiras vezes que vieram depois – primeira trepada, primeiro baseado, primeiro dia de colegial, primeiro livro publicado, ou outro primeiro qualquer -, obtive a glória. Monsieur Saint-Jour me chamou até a amurada, debruçou-se até que a cabeça quase sumiu dentro da água e depois se endireitou com uma única ostra coberta de lodo, uma coisa imensa, de formato irregular, dentro da mão maltratada. Com uma faquinha curta de ostra, toda enferrujada, abriu aquilo e me entregou, diante dos olhares de todos, de meu irmão caçula encolhido, enojado com aquele objeto reluzente, de aparência vagamente sexual, ainda gotejante e praticamente vivo. 
Peguei-o na mão, virei a concha na boca, conforme as instruções do agora sorridente Saint-Jour, e com uma mordida e uma chupada, engoli. Tinha gosto de água do mar…salmoura e carne…e também…de futuro. 
Tudo passou a ser diferente. Tudo. 
Eu não só sobrevivera, como curtira.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Bicicletas, gênero, etnia e classe social

Ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar. O marido aconchegou-a entre os braços e afagou sua cabeça com um cafuné. Sorriu. Como sou chorão, imediatamente me afastei para chamar a próxima da fila. Paula* veio até mim e em silêncio me abraçou. Ela tinha acabado de aprender a pedalar, sonho infantil que por pouco não foi abandonado.

Passo por situações parecidas uma vez por mês na Escola Bike Anjo, projeto que ensina adultos e crianças a pedalar. Atendo apenas os adultos e sempre começo a aula ouvindo, deixando que me contem os motivos que os levaram a adiar este aprendizado. Na maior parte das vezes foi apenas falta de oportunidade, mas em alguns casos estão envolvidos traumas sérios e lidar com isso exige que eu coloque no máximo toda minha capacidade de empatia e paciência. Ser Bike Anjo exige que eu coloque para fora o melhor ser humano que existe em mim.

Costumo fazer o treinamento de novos voluntários no CUBA (Curso de Formação Bike Anjo) e uma das coisas que sempre falo é que devemos estar muito bem no dia da atividade, se alguma coisa nos aflige ou se estivermos em paciência, é melhor não ir ou chegar apenas para conversar, esparecer, beber uma cerveja, mas sem ensinar ninguém. Coisas simples são capazes de comprometer todo o aprendizado, como uma respiração que indique que estamos de saco cheio ou um franzir de sobrancelha. Esses sinais são captados pelo aluno que pode achar que está sendo um incômodo e desistir da aula.

Fico pensando nos psicólogos e terapeutas que lidam com traumas alheios diariamente. Uma atividade de três horas por mês já exige tanto de mim, tentar imaginar como profissionais que atendem diariamente vítimas de violência sexual e doméstica, crianças abusadas, espancadas e demais situações do gênero é um esforço que está além da minha capacidade de dedução. Minha admiração à essas pessoas.


Uma vez atendi uma mulher que perdeu uma irmã atropelada enquanto pedalava quando criança. Nunca passei por situação parecida e jamais conseguirei imaginar a dor pela qual aquela pessoa passou e as barreiras que teve que romper para chegar até mim naquele dia e subir numa bicicleta. Mas ela foi e aprendeu. Uma heroína que enfrentou um dos seus maiores medos e venceu. Eu aprendo e me fortaleço com essas pessoas.

Recorrente são as mulheres que somente puderam realizar seus sonhos depois da morte do marido. Comum viúvas me contarem que só depois de atingirem este estado civil puderam fazer coisas simples, como dançar e andar de bicicleta. Triste ter que esperar alguém morrer para isso.

No fundo, aprender a pedalar é o que menos importa. Bike Anjo é sobre ocupação da cidade, criação de laços entre as pessoas e superação de barreiras. E, acima de tudo, igualdade.

Impossível não considerar questões de gênero, etnia e classe social. Esses assuntos precisam estar na nossa pauta. Mulheres são menos de 10% dos ciclistas e o motivo não é a falsa fragilidade e medo do trânsito. O que afasta as mulheres das ruas são os mesmos motivos que as afastam de tantas outras esferas sociais: o machismo.

E o machismo não oprime apenas as mulheres. São raros os homens que aparecem lá sozinhos, e acredito que é porque não possuem coragem de assumir que não sabem fazer algo e procurar ajuda.
Ser Bike Anjo exige que eu coloque para fora o melhor ser humano que existe em mim.
Aqui no Rio a Escola Bike Anjo começou nos jardins do Museu de Arte Moderna, um espaço na Zona Sul do Rio, elitista e que afasta muita gente. Negros são constantemente revistados por agentes do Aterro Presente e entendo que as famílias branquinhas fazendo piquenique no gramado possam ser uma visão, talvez não opressora, mas no mínimo desconfortável para muita gente.

Nunca vou esquecer Seu Sebastião*, que chegou às dez da manhã, vindo da Baixada, para a atividade que começava às 14h30. Negro, de jeito simples, não se sentiu a vontade e foi embora antes do término da aula. Minha impressão é que ele não estava acostumado a ter jovens brancos de classe média dispostos a ajudá-lo e, de alguma forma, numa posição inferior a ele, já que professores no Brasil são vistos como subservientes. Aquele ambiente e aquelas pessoas não faziam parte do mundo do Seu Sebastião que, apesar das promessas de retorno, nunca mais voltou. Coloco este abandono na minha lista de derrotas.

Felizmente estão surgindo novos núcleos. São Gonçalo e Grande Méier já possuem grupos autônomos que estão realizando as Escolas Bike Anjo. Que a periferia se aproprie do projeto e faça as adaptações necessárias para chegar a cada vez mais pessoas.

Que gênero, etnia e classe social deixem de ser barreiras no acesso à cidade.

* Nomes fictícios.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Bar do Zé Goleiro

Bar do Zé Goleiro
O Bar do Zé Goleiro fica literalmente no meio de um imenso canavial, Fazenda Boa Vista, com acesso através de uma estrada de terra distante quase 12 quilômetros da rodovia. Trinta minutos de carro, chão esburacado e com pedras em muitos trechos que requerem direção cuidadosa, já que não há sinal de celular, ou seja, ninguém gostaria de enfrentar um problema mecânico nestas situações. Confesso que não confiei no GPS e fiquei com vontade de dar meia volta, mas a viagem valeu muito a pena, certamente um dos melhores e mais inusitados bares que visitei.

A casa é centenária, surgiu como armazém para atender colonos, em sua maioria italianos, que chegavam à região no Século XIX para cuidar das plantações de café em substituição à mão-de-obra escrava. Zé Goleiro assumiu a direção do estabelecimento comprado pelo sogro em 1937 na década de 80. Falecido com 69 anos em 2009, hoje seus filhos Fernando e Maria José tocam o bar que abre diariamente.

Sentando debaixo da sombra das árvores, aproveitando a brisa fresca no quentíssimo município de Guatapará, Heineken gelada na mesa, é impossível não pensar como se mantêm um estabelecimento localizado em lugar tão ermo e de difícil acesso. Durante o auge da colonização européia, milhares de trabalhadores ocupavam as fazendas da região e compravam em armazéns, conhecidos também como vendas, alimentos e itens de necessidade diária. É possível supor que existiam centenas de estabelecimentos do tipo, que foram fechando tão logo o trabalho manual foi sendo substituído pelas imensas máquinas agrícolas e os colonos perderam importância na manutenção das plantações. Felizmente uma dessas casas, por motivos sociais e culturais que analisarei abaixo, conseguiu se manter.
O caminho
Não gosto de escrever sobre um lugar depois de apenas uma visita, mas conversando com Fernando e observando o movimento tirei algumas conclusões sobre o sucesso do bar.

1) A estrada de barro vermelho esburacada é péssima para carros, mas é excelente para praticantes de off road. O movimento de jipes e motos para esse terreno é intenso, e esse é basicamente o principal público do bar. Em menor escala, mountain bikers também se aventuram por lá;

2) Caminho da Fé: com partida no município de Sertãozinho, milhares de peregrinos passam anualmente em frente ao Zé Goleiro com destino à Aparecida do Norte. São 550 quilômetros e várias cidades cruzadas em 25 dias. Muitos optam por fazer o caminho pedalando, caindo para aproximadamente 11 dias o tempo de travessia. A fé realmente é uma coisa impressionante, caminhar debaixo do sol escaldante aquele trecho inóspito é uma atividade hercúlea;

3) Cruz do Pedro: outro ponto de fé e peregrinação, a história da capela que fica a 800 metros do bar começou com o assassinato de Pedro, com 9 anos de idade, em 1885. Todo dia 29 de junho acontece uma grande festa de graças. Também visitei o lugar e escrevi sobre ele aqui.

Acredito serem esses as três principais características que permitiram o Zé Goleiro continuar funcionando. Para nossa alegria.
A caipirinha de vinho
No cardápio, costelinha frita, frango à passarinho e linguiça picante e normal vinda de Dumont, cidade onde nasceu o pai de Santos Dumont, cuja fazenda era frequentada pelo futuro criador da aviação. É famosa por suas linguiças, que realmente são muito boas.

Para beber, cervejas e a inusitada caipirinha de vinho, servida num desses vidros de meio litro usados para vender palmitos. É bem doce, mas a combinação de vinho, açúcar, gelo e limão é muito gostosa.

A decoração do Bar do Zé Goleiro também merece ser citada. Prateleiras de madeira e diversos itens pendurados no teto, como panelas, chuveiros, gaiolas, cabaças, instrumentos musicais e ferramentas. O fogão onde são fritos os petiscos fica logo atrás do balcão, tornando possível assistir o preparo.

O silêncio quebrado apenas pelo som dos passarinhos impressiona. O vento balançando o canavial me fez querer voltar em época de colheita, para ver as imensas máquinas retirando mecanicamente a cana e o transporte naqueles caminhões canavieiros. O movimento deve ser intenso.

Sem dúvida um dos melhores bares que já fui.

O 'salão'

Zé Goleiro na foto

O balcão

O bar
Fontes:

domingo, 1 de janeiro de 2017

Cruz do Pedro


Capela Cruz do Pedro
Pedro tinha 9 anos e, apesar de ter nascido depois da Lei do Ventre Livre, trabalharia, conforme mandava a legislação, até os 21 anos para seu senhor, o fazendeiro de Ribeirão Preto Coronel Mingote, a título de indenização pela sua alforria.

O ano era 1885 e na Fazenda Santana a rotina começava cedo: às cinco da manhã o sino tocava e acordava os cativos, autorizando a abertura das celas onde dormiam acorrentados. Reunidos no terreiro e depois da contagem, realizavam a oração matinal, recebiam café e partiam para os cafezais onde eram realizados os trabalhos forçados. Ao escurecer, voltavam para o terreiro, eram contados, oravam, recebiam alimentação e gozavam de uma hora descanso fora das celas quando, às 9 da noite, o sino tocava e eram novamente recolhidos e acorrentados.

Pedro era filho dos escravos João e Constância, conhecida como Tia Tana, e no dia 29 de junho seu trabalho era servir como candeeiro ao também cativo Teodoro, que já era conhecido como o escravo mais ordinário e traiçoeiro da fazenda, que conduziria o carro de bois com uma carga até a fazenda vizinha distante 15 quilômetros. Ao menino cabia a função de ir à frente do comboio iluminando o caminho.

Finalizada a tarefa, ambos voltavam noite a dentro quando Teodoro pediu o picuá com comida que estava de posse de Pedro. Constatada a ausência do item, o carreiro se encheu de fúria e estrangulou o menino, pendurando-o numa árvore simulando um suicídio. 

Tia Tana ao ouvir a notícia do suicídio, em prantos, ajoelhou e levantou as mãos ao céus, vaticinando que se seu filho tivesse morrido pela justiça divina, perdoaria, mas se tivesse sido um assassinato, as mãos do algoz secariam ao ponto de deixá-las inutilizadas. No local onde o corpo foi achado, a mãe colocou uma cruz, a Cruz do Pedro.

No virar da lua, as mãos de Teodoro começaram a ficar inertes, perdendo os movimentos e ficando completamente inativas, tornando-o incapaz para o trabalho e forçando a passar o resto de seus dias mendigando e precisando da ajuda de terceiros até para levar alimentos à boca. 

O lugar onde a cruz foi cravada começou a receber visitas de pessoas em busca de graças e uma capela foi erguida em 1889. Todo dia 29 de junho uma festa é realizada, com romaria de centenas de peregrinos e autorização da Igreja Católica.

O café foi substituído pela cana, os escravos por colonos italianos, os colonos pelas máquinas, agora a capela está cercana por pés de cana-de-açúcar distante a, pelo menos, 10 quilômetros de estrada de terra da rodovia. A data exata da origem da festa é incerta, mas existem registros de sua existência em documentos da década de 30.

Este é um pequeno resumo da história. Queria poder falar mais sobre a tentativa de igreja em embranquecer o menino, já que achava inaceitável o culto a um negro, e narrar o contexto histórico falando sobre a decadência do café e o início do cultivo da cana, a chegada dos colonos europeus, o governo Vargas que teve que lidar com Padre Cícero e Antônio Conselheiro, que também foram cultuados como santos pelo povo pobre à revelia do Papa e do governo.

Conheci o local no último dia de 2016. São 30 minutos de carro deixando poeira vermelha para traz. A cruz está lá e na capela muitas fotos e objetos dos peregrinos que buscam ajuda do menino Pedro. Fiquei com muita vontade de voltar no dia da festa. Quem sabe?

A Cruz do Pedro

A capela

O cenário: cana-de-açúcar

Estábulo para os peregrinos

Dentro da capela

Banheiros

Fontes:

A Cruz do Pedro: memórias do menino que virou lenda
Arquidiocese de Ribeirão Preto
Cidades e Lugares

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Bar do Guarabira

Guarabira e o pernil no tempero para ir ao forno no dia seguinte
Tenho um amigo que passou um tempo na Holanda e preparou um jantar tipicamente brasileiro para seus colegas, no caso, estrogonofe. Ficou surpreso quando todos separaram a batata do arroz, escolhendo apenas um acompanhamento para comer com a carne picada. Eles não misturam dois ou mais tipos de carboidratos, ao contrário do Guarabira.

Nascido na Paraíba, como toda minha ascendência, abri um sorriso ao ver no FP macarrão, batata e arroz, além do feijão mulatinho e da rabada, exatamente como minha mãe faz. Misturar arroz com macarrão parece que é uma tradição desta parte do Brasil, que teve na escassez a base de sua cultura alimentar.

O Bar do Guarabira fica no Santo Cristo, bairro periférico do Porto Maravilha que possui grande quantidade de retirantes que migraram em busca de trabalho e se estabeleceram na região à revelia do poder público. Ao lado do Morro da Providência, primeira favela do país, cuja formação inicial foram os soldados do massacre de Canudos e suas famílias. Inicialmente era interessante ignorar essas populações, que forneciam mão-de-obra barata para a Zona Sul, mas agora a presença dessas pessoas começa a incomodar.

Rabada do Guarabira com arroz, feijão mulatinho, batata e macarrão
A 300 metros do bar fica o Rua City Lab, laboratório de experiências urbanas financiado pelo Odebretch com o objetivo de mudar a cultura popular do bairro para uma mais próxima da Zona Sul, branca, jovem e empreendedora. Uma tentativa de estender o Boulervard Olímpico até aquela área, trazendo junto investimentos em espigões comerciais envidraçados e condomínios de classe média-alta. Mas, como já disse aqui, esta experiência caminha para o fracasso. Ainda bem.

O Bar do Guarabira oferece muitos itens tipicamente nordestinos, como pimentas, biscoitos, rapaduras, feijões e farinha, além de um pequeno hortifruti e produtos de mercearia. Não possui petiscos no cardápio, apenas refeições carregadas na sustança durante todo o dia, com gente, inclusive, almoçando cabrito às dez da manhã.

O cabrito, aliás, vem de Xerém, trazido por um fornecedor especial. Aos sábados o vendedor de caranguejo passa na porta do estabelecimento, deixando a corda por vinte reais, preparada pelos clientes assíduos no leite de coco para acompanhar o Campari com Sprit, gelo e limão no domingo.

Caranguejo ao leite de coco, cortesia de um cliente assíduo da casa
Lá não existem petiscos no cardápio, mas o Guarabira pode prepara um prato com a carne do dia e aipim ou batatas cozidas por quinze reais. Ali tudo tem jogo.

Cabrito de Xerém com apim

Bar do Guarabira
O lugar é um primor, comida deliciosa, barata e ambiente pitoresco. Não vou dar o endereço, fica ao lado do antigo Mundial do Santo Cristo. Se quiser ir, me envia um e-mail que passo as coordenadas e vou junto.

Bar do Guarabira
Santo Cristo, ao lado do antigo Mundial
PF: R$12
Petisco (carne do dia): R$15
Preços de dezembro/16

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Rua City Lab* e cidades para pessoas

Atualização (abr17): o Rua City Lab agora é NAU - Núcleo de Ativação Urbana


Na foto, duas formas de pensar a cidade. Uma delas acredita na diversidade como potência, a outra na regulação das atividades que nela são permitidas.

O Rua City Lab

Quando tomei conhecimento do Rua City Lab, fui procurar alguma informação sobre o financiador da iniciativa, que conta com uma cara estrutura e estava em busca de pessoas para ocupar o espaço. É um laboratório cujo objetivo é pensar a rua em todas suas manifestações, artísticas, culturais, gastronômicas, empreendedoras e criativas. Segundo o site:
O Rua City Lab incentiva o desenvolvimento da região, juntando pessoas da área e cabeças pensantes a vivenciar o dia a dia e realizar o novo porto.
Estão na moda esses 'Labs' e alguns deles desenvolvem atividades bem interessantes, como o Lab Rio, de experimentação de novas ferramentas de participação cidadã na gestão da cidade, e os Fab Labs, que possuem maquinários para criação de hardware, ambos participantes de redes com filiais em diversas cidades do mundo. Por isso meu interesse em conhecer melhor o empreendimento do Santo Cristo, bairro da Região Portuária periférico ao Porto Maravilha.

Na internet não achei nenhuma informação, mas foi conversando com algumas pessoas que descobrir que o prédio é da Odebrecht, então surgiu a segunda e mais importante pergunta: qual o interesse de uma empreiteira, que constrói, entre outras coisas, condomínios fechados, em financiar um espaço para pensar a rua?

Os novos espigões envidraçados ainda estão vazios, o Ibis vive às moscas, ninguém interessado em empreendimentos residenciais e muitos terrenos ainda disponíveis para construção. A área 'nova' do Santo Cristo, que engloba o hotel, o Rua City Lab e o Porto Atlântico, não possui circulação de pessoas e está completamente sem vida. O laboratório e o recém inaugurado Passeio Ernesto Nazareth são tentativas desesperadas de forçar a entrada do bairro num cenário cultural carioca 'moderninho' e 'deslocado', semelhante ao da Zona Sul, apagando a centenária cultura local, popular, e afastando seus indesejáveis moradores. É uma tentativa de promover o interesse por mais da metade do potencial construtivo que ainda não tem compradores.

O Porto Maravilha é sobre apagamento de memória. É a seleção oficial das histórias que podem ser contadas e regulamentação da rua.

O Passeio Ernesto Nazareth

Anunciado como um parque que teve como modelo o Las Ramblas, de Barcelona, o passeio foi criado com o objetivo de  estender o Boulevard Olímpico e trazer gente para 'área nova' do Santo Cristo, com cariocas e turistas caminhando e desfrutando de todas as atividades que a arte do encontro são capazes de proporcionar (link 1 e link 2). Vejam abaixo a projeção de como ficaria o parque e como ele realmente ficou, numa visita que fiz num domingo de sol.

Passeio Ernesto Nazareth expectativa

Crédito: divulgação

Crédito: divulgação
Passeio Ernesto Nazareth realidade

Ao fundo, o Novocais, propriedade da Odebrecht que financiou o 'parque'
Nas projeções, diversos prédios, residenciais e comerciais, gente circulando. Na realidade, um espaço árido sem nenhum atrativo, incapaz de fazer com que uma única pessoa tenha vontade de passar seu tempo ali.

O desejo da Odebrecht em trazer movimento para a região, apagando a cultura popular do bairro e forçando sua entrada num circuito higienizado, bronzeado, 'xovem' e empreendedor, tem como único objetivo vender prédios. O Rua City Lab está a serviço da especulação imobiliária. Não vou entrar na discussão se este é um desejo legítimo ou não, mas, se eu fosse investidor, deixaria meu dinheiro longe dessa roubada. Não que eu seja contra novos residenciais ou que empresas se instalem na região, mas pelo jeito como a coisa está sendo feita.

Como é uma cidade viva

Morte e Vida de Grandes Cidades, publicado por Jane Jacobs em 1961, pauta novos urbanistas no planejamento de cidades vivas, com gente nas ruas e diversidade. Citou quatro condições urbanas necessárias para que isso aconteça:

1ª condição: os bairros precisam atender a mais de uma função principal, garantindo circulação de pessoas em diferentes horários do dia.

Um bairro majoritariamente comercial só terá gente circulando em horário comercial, ficando vazio a noite e nos finais de semana. O contrário acontece num bairro majoritariamente residencial. Esses períodos de esvaziamento estimulam a violência e vandalismo. O ideal é que todas as áreas da cidade combinem residências, escritórios, comércio e lazer.

2ª condição: a maioria das quadras precisa ser curta, ou seja, as ruas e as oportunidades de virar esquinas devem ser frequentes.

Isso possibilita que os transeuntes tenham mais opções de caminhos para chegar a algum lugar, fazendo com que eles conheçam melhor a vizinhança.

3ª condição: o bairro deve ter uma combinação de edifícios com idades e estados de conservação variados, e incluir boa porcentagem de prédios antigos.

Prédios novos são mais onerosos, restringindo as atividades que neles podem acontecer. Prédios antigos são mais em conta e possibilitam atividades de menor rentabilidade, tornando assim as ruas mais diversificadas.

4ª condição: o bairro precisa ter uma concentração suficiente alta de pessoas, sejam quais forem seus propósitos. Isso inclui pessoas cujo propósito é morar lá.

Não sou urbanista, mas na minha opinião o principal erro da prefeitura foi não ter tomado para si a responsabilidade de construção de moradias populares na Região Portuária, ter deixado isso para o mercado que, como se pode ver, não demostrou interesse.

Em 2001 a Caixa Econômica comprou em leilão todos os Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção), mas, como a procura foi baixa, a prefeitura resolveu recomprar os lotes para que ela mesma possa oferecer às empresas. É uma transação muito estranha que precisa de transparência, já que essa recompra provavelmente onerou o município, visto que precisaria garantir o lucro da Caixa. Sem falar do uso de dívidas do ISS, mas como dívida vira Cepac não tá explicado (link).

Jan Gehl lançou em 2010 o livro Cidades Para Pessoas, ilustrado com exemplos práticos da teoria de Jacobs. Juro que não entendo o motivo para criação de um laboratório para pensar coisas que já foram pensadas e comprovadas. Me pergunto se a galera do Rua City Lab conhece essas novas tendências urbanas, quando vi no site deles a imagem abaixo:

Não houve participação popular no projeto do Porto Maravilha
Cidades tema capacidade de fornecer algo para todos apenas quando esse algo é criado por todos. Jane Jacobs.
Como não houve participação popular no Porto Maravilha, aquele pedaço do Santo Cristo continuará o deserto que é agora, não é esse arremedo de participação que vai mudar a situação. Felizmente, a uns trezentos metros dali, na 'parte velha' do bairro, seu Guarabira garante o movimento do bar vendendo cerveja gelada e refeições a preços módicos. A padaria ao lado garante a circulação de moradores em busca de pão fresco. Ali, a vida pulsa, transborda, sem a necessidade de um laboratório, mas não é esse tipo de vida que interessa aos especuladores.

Guarabira e o pernil marinando no molho para ser assado no dia seguinte