sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mas alimentação saudável é muito cara!

Continuando as comemorações aos cinco anos do Guia Alimentar Para a População Brasileira, hoje as dicas serão referentes ao preço:

1) Alguns legumes, verduras e frutas realmente possuem preço mais elevado, mas quando consumidos com outros mais baratos, como arroz, feijão, batata e mandioca, fartamente presentes na culinária brasileira, faz com que o preço médio da refeição seja inferior aos ultraprocessados;

2) Os vegetais da estação são mais baratos e abundantes, então procure saber sempre quais são os alimentos da época;

3) Alimentos de produtores locais também possuem preço inferior, já que não estão incluídas as despesas de transporte. Evite comprar importados, que além de ser bom para o bolso é bom para a economia local e para o meio ambiente;

4) Procurar fornecedores com menos intermediários, como feiras e sacolões, é uma ótima opção. Veja a possibilidade de comprar direto dos produtores ou através de compras coletivas, modalidade que tem se tornado bem comum nos grandes centros urbanos, principalmente com cestas de alimentos orgânicos;

5) Levar a comida para o trabalho também é uma forma de economizar, então não tenha vergonha de levar uma marmita com uma refeição saudável;

Vinho, cachaça e café do Armazém do Campo
6) Demanda: os preços caem conforme a demanda aumenta, já que mais produtores entram no mercado e há incremento da oferta. Então, quanto mais gente compra, menor é o preço. Incentive seus amigos e veja quais são seus gastos que podem ser cortados para reinvestir o valor em alimentos saudáveis;

7) Participação política: mais uma vez, fazer parte de grupos (associações, partidos políticos, conselhos etc) que visem incentivar a alimentação saudável é uma forma de fazer com que os preços caiam, pressionando para que haja incentivo fiscais para os produtores e a instalação de mais feiras livres na cidade.

Se você é uma pessoa privilegiada com tempo para participar destes movimentos, então utilize-o;

8) Conheça: Apesar da proteína animal no Brasil ser relativamente barata, ela ainda tem valor mais alto do que os vegetais. Conhecendo combinações nutricionais balanceadas, é possível diminuir a carne sem afetar a qualidade da refeição. Por exemplos, alimentos verdes escuro, como brócolis e couve, são ricos em proteína e excelentes substitutos.

Antigamente, comer carne era coisa de rico, agora é o contrário. Esses valores mudam com o passar do tempo, e nem sempre tem relação com o preço dos produtos.

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O Armazém do Campo - RJ é meu mais novo lugar favorito. Além de alimentos oriundos de assentamentos da reforma agrária, possui atividades culturais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Como conseguir tempo para cozinhar?

Um dos problemas enfrentados por aqueles que querem adquirir hábitos alimentares mais saudáveis é falta de tempo, mas existem algumas coisas que podemos fazer para resolver isso.

1) Diminua o tempo dedicado a atividades menos importantes: ninguém questiona a importância de uma boa alimentação, por isso, reveja seus hábitos para identificar aqueles que podem ser cortados ou, pelo menos, reduzidos. Televisão e internet, por exemplo;

2) Planeje seu cardápio: planejar as compras e o cardápio da semana ajuda a economizar tempo e a preparar refeições com mais celeridade. Também é possível congelar alimentos prontos para serem consumidos nos próximos dias;

3) Treine: conforme vamos cozinhando e desenvolvendo essa habilidade, vamos aprendendo a preparar refeições em menos tempo. Percebemos que para fazer um macarrão com molho de tomate leva quase o mesmo tempo do que preparar um prato ‘instantâneo’;

4) Divida as tarefas e envolva a família: toda a casa precisa estar envolvida, desde o planejamento, compras, preparação e limpeza da louça. Essas tarefas não podem ser responsabilidade de apenas uma pessoa.

Aproveite para transformar as refeições num momento divertido e de comunhão. As crianças podem participar também, sempre com atividades compatíveis com suas idades;

5) Participação política: o trânsito das grandes cidades está cada dia mais complicado e a população de menor renda é a mais prejudicada, levando duas ou mais horas no trajeto ao trabalho. Quem não precisa passar por isso é um privilegiado e uma das formas de interferir neste cenário e a participação em movimentos que visem melhorar os deslocamentos urbanos, pressionando o governo a investir em transporte público de qualidade.

Use seu privilégio para ajudar grupos vulneráveis. A solução não é individual e para atacar todos os problemas é preciso envolver e estar junto de outras pessoas, desde a família até grupos políticos ou instituições ligadas à alimentação ou mobilidade.

Se você tem tempo para participar desses grupos, pressionar políticos e realizar manifestações, utilize-o.

Dicas baseadas no Guia Alimentar Para a População Brasileira.

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Como já contei, um amigo que quer mudar seus hábitos alimentares pediu minha ajuda e temos realizados encontros semanais para cozinhar. No quarto encontro fizemos sushi. Seguem fotos.



terça-feira, 29 de outubro de 2019

O que a indústria nunca vai substituir

Na época da minha avó, para cozinhar um prato simples como um macarrão com molho de tomate e frango era necessário pegar a ave no quintal, matar, preparar a massa do macarrão, esticar e cortar, picar os tomates e cozinhar lentamente até virar molho.

De pouco tempo para cá, a indústria eliminou várias etapas. Preparar a mesma refeição requer apenas descongelar e assar o frango, esquentar o molho da caixinha e colocar o macarrão na água fervendo.

Agora, para muita gente, abrir uma embalagem deste mesmo prato e colocar no forno já é cozinhar. Certamente meus avós ficariam espantados se soubessem que em pouco tempo a galinha já viria limpa e cortada, o molho pronto dentro de um saquinho e o macarrão no ponto para ser fervido, assim como ficamos espantados quando alguém nos diz que esquentar uma refeição industrializada é cozinhar.
Cogumelos utilizados na receita
Mas qual é o limite? Quais são as ações básicas necessárias para podermos falar que cozinhamos nossa comida? Não existe resposta, e mesmo que houvesse ela mudaria com o tempo. Só uma coisa é certa: se alguém virar para mim e falar que cozinhou só colocando um congelado no forno vai levar um pescoção.

Independentemente disso, minha impressão é que a população tem passado cada vez menos tempo cozinhando, e esta também é a impressão de Michael Pollan em Cooked. Apesar do sucesso de dezenas de programas de televisão, como o Master Chef, e do surgimento de estrelas gastronômicas, a gente não coloca a mão na massa e vai deixado esta responsabilidade para a indústria, quem tem se esforçado muito para isso.

O resultado é o aumento do consumo dos ultraprocessados, ricos em sal, açúcar, gorduras e outros aditivos químicos que são comprovadamente prejudiciais à saúde. Mas mesmo que não fossem danosos (acredito que um dia não serão), existem outros motivos para a gente não ingerir esse tipo de composto que eles tentam chamar de comida.

A gente tem visto o que acontece quando empresas ficam ricas demais. Seus diretores e acionistas aferem milhões por ano enquanto, com a ajuda da tecnologia que vem substituindo o trabalho humano, seus funcionários recebem salários cada vez menores. Com o lobby que é feito junto a políticos, direitos trabalhistas e previdenciários são cortados e são criadas cada vez mais facilidades para exploração predatória da natureza. Comprar dessas empresas é deixá-las cada vez mais fortes e aumentar o abismo da desigualdade de social que está afundando o mundo.
Nosso espaguete ao pesto
Ao cozinhar mais e, consequentemente, ter que comprar ingredientes frescos, estamos fortalecendo pequenas famílias como as nossas. Estamos ajudando um pai a pagar um curso de inglês para seus filhos, comprar material escolar, roupas novas e quitar todos os boletos do mês. Vamos fazer nosso dinheiro circular entre a gente pois esta é apenas uma das formas de nos proteger do futuro da precarização do trabalho.

Esta decisão precisa ser colocada em prática em todo nosso consumo. Sou um apaixonado pelo meu Kindle, em segundos tenho na mão qualquer livro que quiser, mas não vou dar meu dinheiro para Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo e que explora seus funcionários. Vou comprar com o Ronaldo, livreiro dos bons e pai da Mila Flor. Ou na Livraria Folha Seca, com o Digão, um dos maiores bebedores de cerveja da Rua do Ouvidor.

Como já comentei aqui, estou me encontrando semanalmente com um amigo para cozinhar. Desta vez foi espaguete ao pesto e talharim com molho de cogumelos portobello. A massa foi feita do zero e só utilizamos ingredientes frescos ou minimamente processados. Derrubamos duas garrafas de vinho no processo e a vivência proporcionada pela experiência indústria nenhuma vai conseguir substituir.

sábado, 26 de outubro de 2019

Bolsonaro e o miojo

Um amigo está querendo mudar seus hábitos alimentares e me pediu ajuda. Desde então, temos realizado encontros semanais na minha casa para cozinhar.

Não sou especialista, mas preparo praticamente todas minhas refeições. Minha dieta é totalmente baseada nas recomendações do Guia Alimentar Para a População Brasileira, uma das publicações mais avançadas do mundo no quesito orientações alimentares à uma população.

Demorou alguns anos para ficar pronto porque contou com ampla participação popular, de entidades ligadas à nutrição, consultas públicas em todos os estados da federação, consulta on-line e amplo debate. O resultado é incrível, e uma das dicas é ensinar os outros a cozinhar, coisa que tenho feito.

Além das questões nutricionais, o Guia também tem preocupação em incentivar o consumo de alimentos socioambientalmente responsáveis e que contribuam com a distribuição de renda e defesa do patrimônio cultural do país. Basicamente, são quatro dicas:

- Fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação, preferencialmente agroecológicos ou oriundos da agricultura familiar;

- Utilizar em pequenas quantidades os ingredientes culinários para temperar a comida, como o sal, açúcar, óleos e gorduras;

- Limitar o uso dos processados, utilizá-los apenas como complemento das receitas; e

- Evitar, sempre que possível, os ultraprocessados.

O Guia foi criado para pautar não apenas o consumo individual e familiar, mas também como orientação para profissionais de saúde, instituições e para criação de políticas públicas. Vai além das escolhas individuais, algumas mudanças no ambiente são necessárias e incentiva a participação popular para pressionar o governo na criação de políticas que promovam a alimentação saudável.


A obesidade é um problema sério no Brasil, com mais da metade da população com sobrepeso. São crescentes números de doenças crônicas como diabetes, doenças cardíacas, tanto em adultos quanto em crianças. Desta forma, é papel do governo incentivar práticas que melhorem a alimentação do brasileiro.

Quando o presidente se recusa a participar de um banquete oferecido pelo imperador do Japão, para não ter que experimentar a culinária local, e posta uma foto fazendo um miojo, ele não está violentando apenas a cultura do país onde está hospedado, mas também passando uma mensagem extremamente negativa ao seu povo que atualmente enfrenta sérios problemas de saúde.

Vocês não fazem ideia da minha indignação. A gente aqui, no cotidiano, no miudinho, tentando transformar esse país num lugar um pouquinho melhor, ver uma cena dessa é extremamente desanimador. Mas esses canalhas não vão me deixar doente, não vão me enfraquecer. Domingo tem feira, e macarrão caseiro com molho pesto e molho de cogumelos.

Avante.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Alimentação e justiça social

Ontem saiu a PNAD e o resultado foi um Xibom Bombom: o de cima subiu e o de baixo desceu ainda mais. Por isso trago novamente o tema: como nossa alimentação pode ajudar a gerar justiça social?

Atualmente, nossa produção e distribuição de alimentos tem contribuído com essa imoral concentração de renda e o mesmo pode ser visto em outras cadeias, como na indústria da moda, por exemplo.

Quando a gente escolhe comer um ultraprocessado da Nestlé, a gente escolhe deixar ainda mais rica uma empresa multibilionária e deixar mais pobre o pequeno produtor rural. Para quem não sabe, a Nestlé está promovendo um genocídio em comunidades ribeirinhas da Amazônia com uma cadeia de abastecimento de entrega domiciliar, deixando a população obesa, doente, poluindo a floresta com suas embalagens e destruindo tradições alimentares. Eles também acreditam que a água não deva ser um direito universal gratuito, mas sim um produto como outro qualquer, apesar de estarem acabando com fontes naturais e rios com extração predatória, impactando diretamente as comunidades em todo o mundo.

O tamanho e o uso das propriedades rurais que produzem alimentos, autonomia dos agricultores na escolha das sementes, fertilizantes e controle de pragas, condições de trabalho e geração de renda e partilha do lucro gerado pelo sistema são questões que precisam ser discutidas quando o assunto é distribuição de renda e erradicação da fome e da miséria.

Realmente acredito que a tecnologia um dia vai permitir a criação de ultraprocessados saudáveis. A Coca-Cola terá o mesmo sabor que tem agora e será uma bebida nutritiva. Mas não se trata apenas de nutrição. Não é apenas sobre o que comer ou vestir, é sobre o mundo que queremos construir.

A dica é simples: saiba de onde vem os produtos que você consome e dê preferência para pequenos produtores. Comer e se vestir é um ato político.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Soberania Alimentar

Meu atual passatempo é assistir Quilos Mortais (My 600-lb Life), reality que acompanha durante um ano um paciente com no mínimo 270 quilos candidato à cirurgia bariátrica numa clínica em Houston. São histórias muito tristes e a taxa de sucesso na manutenção do peso a longo prazo é de apenas 5%.

O que me incomoda é que toda a responsabilidade pela obesidade é colocada apenas nos pacientes, excluindo fatores sociais que estimulam o alto consumo de alimentos ultraprocessados, mas isso é bem típico dos Estados Unidos, país que busca soluções individuais para problemas coletivos.

Outro dia um cidadão que iria começar o primeiro dia no emprego novo teve o carro quebrado. Ele acordou de madrugada para andar os 20 quilômetros até a empresa, quando foi parado na highway por um policial que deu-lhe carona. O caso viralizou e o empregado ganhou um carro do patrão por causa da sua dedicação, mas ninguém discutiu o por quê de não haver linhas de ônibus urbanos para atender a população.

O mesmo acontece em Quilos Mortais. A culpa é do indivíduo e cabe a ele sozinho buscar a solução. Não são discutidos os subsídios governamentais que mantêm baixo o preço dos ultraprocessados, a falta de uma regulamentação que proteja as crianças do excesso de publicidade, a falta de estímulos para criação de uma cadeia produtiva de alimentos saudáveis, educação alimentar etc. Por isso a taxa de sucesso é tão baixa, porque é insano querer que um indivíduo sozinho vença uma indústria bilionária.

Nunca fui obeso, mas já estive acima do peso. Iniciei minha reeducação alimentar há oito anos e o primeiro passo foi comer apenas um, dos tradicionais dois, acarajé da Ciça, barraca na Praça XV onde batia ponto toda sexta-feira. Desde então tenho dado pequenos passos e o mais recente foi cortar a carne das minhas escolhas individuais. Bicho, agora, só em situações de coletividade, como num churrasco entre amigos ou naquele filé aperitivo para dividir com a galera no bar.
A preparação
Todo final de semana vou à feira, faço visitas constantes ao supermercado e cozinho quase todas minhas refeições, e isso consome muito do meu tempo, mas faço isso com prazer. Mas a alimentação vai além de questões nutricionais, é preciso falar também de soberania alimentar.

Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, decidir o que e como cultivar, o que destinar ao mercado interno e externo e a gestão dos recursos naturais. Ou seja, quando a maior parte da nossa comida vem apenas das 10 multinacionais que controlam o mercado mundial de alimentos, estamos abrindo mão da nossa soberania alimentar. O resultado disso é que estamos nos envenenando, poluindo o planeta por causa da quantidade absurda de resíduos das embalagens, concentrando renda nas mãos destas empresas, perdendo nossas tradições culturais alimentares entre outros problemas.

Existem várias visões de mundo. Na minha, a cadeia produtiva é controlada pela população e não pelos departamentos de marketing e P&D das multinacionais, respeitando culturas e o meio ambiente, com participação da sociedade em conselhos que orientam as políticas públicas do setor, incentivando a agroecologia e protegendo comunidades tradicionais.

Foi exatamente esse modelo, orientado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, criado pelo Betinho e extinto pelo Bolsonaro, que contribuiu para tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2014. O Consea era formado por diversas entidades da sociedade civil e foi dele que saíram ideias de projetos que acabaram com a fome de milhões de pessoas, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que consistia na compra de alimentos de pequenos produtores para abastecer aparelhos municipais, como escolas e hospitais, e o restaurante popular, para atender a população urbana em extrema vulnerabilidade.

Diante de extinção do Consea, está sendo organizada para maio a Conferência Nacional, Popular, Autônoma por Direitos, Democracia e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Deve acontecer no Maranhão ou Bahia e tenho participado de algumas reuniões de organização representando a Ação da Cidadania, que recentemente lançou a campanha Natal Sem Fome para alertar sobre a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU.

A gente trabalho no grande, forçando a criação de políticas públicas, mas a gente também trabalha no miudinho. Outro dia um amigo me pediu para ajudá-lo a mudar seus hábitos alimentares. Começamos aulas de gastronomia na minha casa e também vamos fazer visitas à feiras e ao Armazém do Campo - RJ, loja que vende produtos oriundos de assentamentos e da agricultura familiar. Vamos ler e discutir o Guia Alimentar Para a População Brasileira e, obviamente, comer boa comida.

Nosso primeiro encontro foi domingo e fizemos nhoque de batata roxa com molho de tomate e aspargos grelhados. A entrada foi salada. Tudo feito com ingredientes frescos. Ficou lindo. E delicioso.
O resultado
Deixo como referência o documentário Histórias da Fome no Brasil, que contou com apoio da Ação da Cidadania. Taí, completo para ser assistido.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A falácia da carne vegetal


Hoje assisti um vídeo de mais um empreendedor com a solução para salvação do mundo: carne vegetal. Parece carne, sangra como carne, tem gosto de carne, mas é feita com vegetais ou cresceu a partir da multiplicação de células animais em laboratório. Vou tentar explicar, em poucas palavras, porque esse tipo de ‘solução’ é uma falácia.

O Guia Alimentar Para a População Brasileira é um dos documentos mais avançados do mundo com sugestões nutricionais para um país. Resumidamente, ele recomenda a ingestão de alimentos in natura ou minimamente processados, redução do consumo de carne vermelha e evitar, sempre que possível, os ultraprocessados, já que são comprovadamente cancerígenos. Esta carne vegetal é um ultraprocessado, logo, precisa ser evitada.

Mesmo que seja um composto seguro para consumo, o que ainda é cedo para dizer já que faltam pesquisas que avaliem como o corpo humano vai reagir, entramos num outro item muito importante: a soberania alimentar.

Quando falamos em segurança nutricional, falamos também de soberania alimentar, que é o controle pela população da cadeia produtiva de seus alimentos. Esta carne vegetal/de laboratório será produzida por alguma das 10 multinacionais bilionárias que detêm o oligopólico da produção mundial, e achar que mais uma tranqueira ultraprocessada fornecida por uma dessas empresas é solução para qualquer coisa é uma falácia que precisa ser combatida.

O que precisamos fazer: reduzir o consumo de derivados animais, incentivar a agroecologia e a agricultura familiar.

Mais reflexões sobre o Bike Anjo

Na abertura das atividades do Bike Anjo Rio, peço que todos deem as mãos e fazemos um círculo. É o momento em que falo dos nossos objetivos, que vão muito além de ensinar as pessoas a andar de bicicleta.

Falo que ali, pelo menos enquanto durar nossa atividade, será um espaço seguro. Nenhuma minoria será submetida às vontades da maioria e que todos serão tratados com respeito. Peço para que todos se olhem e percebam nossas diferenças. Somos homens, mulheres, trans, gays, héteros, brancos, negros, indígenas, evangélicos, ateus, macumbeiros, ricos, pobres, brasileiros, refugiados e que nenhuma dessas diferenças precisa ser motivo para o ódio ou violência, e o espaço público é por excelência o local onde a gente percebe isso.

No Oriente Médio, árabes e judeus estão literalmente se matando, enquanto aqui no Rio, a região de comércio popular do centro, a Saara, foi criada por essas duas etnias e ambas conviviam de forma pacífica e amigável. A diferença é que aqui não existe um muro separando os dois, e dividir o mesmo espaço físico faz com que a gente enxergue o outro não como um inimigo a ser combatido, mas como um semelhante.

É isso que fazemos no Bike Anjo. Derrubamos os muros invisíveis que nos separam na cidade. O muro da intolerância religiosa que destrói terreiros de umbanda, o muro da homofobia que mata gays e travestis, o muro do racismo que vê quem não é branco como inferior e tantos outros muros. Estimulamos o compartilhamento dos mesmos espaços pelas mais diversas pessoas, pois desta forma semeamos a empatia.

Criamos espaços seguros, e que esses espaços deixem de ser temporários e abarquem toda a cidade.

É assim, no miudinho, que vamos dando nossa contribuição.

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Mais uma ciclista na cidade
Dessas coisas que a gente tá precisando aprender e a vida te ensina de repente.

Hoje, no Bike Anjo, depois de perceber que minha aluna estava pedalando sem minha ajuda, falei: agora você vai sozinha, vou ficar aqui enquanto você vai até o outro lado.

Quando ela começou a pedalar fui correndo atrás sem que ela soubesse. Ao cumprir o trajeto e olhar para trás e me ver, abriu um grande sorriso e exclamou: você tá aí!

Às vezes a gente precisa ir sozinho para cumprir um objetivo, mas é muito bom olhar para trás e ver alguém ali para nos segurar.

Mesmo que você não saiba, tô correndo atrás, e sei que muitos correm atrás de mim.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

7 coisas para serem aprendidas antes dos 40

Outro dia conversava com uma amiga sobre uma lista de 20 coisas para se fazer antes dos 30 publicada no Medium. Como já estou perto dos 40, achei aquelas recomendações pueris, como criar o hábito ler diariamente, cuidar da alimentação e fazer atividade física. Consegui atingir muitos daqueles objetivos, depois dos 30, é verdade, mas cada um tem seu tempo.

Tentei, desde então, pensar numa atualização para minha faixa etária. São exercícios que pratico diariamente e a diferença é que a minha é mais focada no outro, enquanto sua análoga mais jovem trata de conquistas pessoais. Ao invés de fazer, é sobre aprender.

7 coisas para serem aprendidas antes dos 40

Ter mais responsabilidade afetiva

Uma antiga namorada me escreveu numa carta anos atrás: "tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Não sabia, mas era uma frase bem conhecida d'O Pequeno Príncipe, livro infantil que só agora estou começando a entender.

Confesso que tenho negligenciado isso. Não posso mais continuar sem dar a devida atenção aos sentimentos que os outros nutrem por mim. Desde as coisas mais pequenas, como desmarcar um compromisso sem dar satisfação, até coisas maiores.

Ser um incentivador

Tenho tentado fazer um elogio por dia, pessoalmente ou pelas redes sociais. Parabenizar um amigo por uma conquista, elogiar um trabalho, tentar motivar alguém que está triste, enviar uma mensagem em um dia especial, essas coisas que não custam nada mas que podem fazer uma grande diferença.

O mundo já um lugar cruel demais, com milhões de obstáculos e gente tentando nos derrubar. Sejamos pontes.


É impossível mudar o outro

Não se engane, fazer alguém mudar é uma tarefa quase impossível. Não quero mais começar um relacionamento com alguém aceitando determinadas características que me são desagradáveis acreditando que com o tempo vou conseguir mudá-las.

Tem coisa que é imutável, e cabe a nós desenvolver a habilidade de saber distinguir das que não são.

Deixar de ser grosso 

Achava que o mundo estava ficando nutella demais, com as pessoas se magoando por qualquer coisa. Talvez elas estejam mesmo, mas ouvir de alguns amigos que sou grosso tem me deixado mais atento quanto a isso.

Não achar como os outros devem agir

Frases que tenho tentado abolir nos meus diálogos: "você deveria ter feito isso..." e suas variações. As pessoas sempre tentam fazer o melhor possível (tá bom, nem sempre), mas quem sou eu para saber como cada um deveria ter procedido?

Não quero mais opinar sem ser solicitado. Muitas vezes, tudo que nosso interlocutor precisa é de uma escuta afetiva, sem sugestões ou tentativas de resolução de seus problemas.

Quando me perguntado, tento responder: "no seu lugar, eu teria agido desta forma".

Não julgar, principalmente julgamentos morais

Ninguém sabe o que o outro viveu para fazer determinadas coisas e na maior parte das vezes só tomamos conhecimento de um lado da história. Pré-julgamentos na internet já foram responsáveis pelo assassinato de inocentes e destruição de reputações. Por isso tenho tentado ser um 'espaço seguro', ser aquele cara que está sempre disponível para ouvir qualquer segredo, até mesmo os mais bizarros, sem julgar. Ouço calado, tento controlar todas minhas reações corporais e só emito minha opinião se solicitada, e minha opinião sempre vai ser de conforto.

Não acredito em livre arbítrio, por isso acho que tudo é natural e normal. "Faça o que tu queres pois é tudo da lei" (segunda citação clichê do texto), desde que seja consensual e que não fira terceiros.

Só insistir em relacionamentos que valem a pena

"Onde não puderes amar, não te demores" (eita que hoje tá um festival de clichês). 

Tem gente que não tá a fim, então é melhor deixar ir. Se apegar a isso é um tremendo sofrimento.

E você, acrescentaria alguma coisa?

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Safe space

Tenho tentado criar espaços seguros nos meus relacionamentos, fazer com que o espaço entre mim e meu interlocutor possa ser um lugar onde não sejam necessárias máscaras, armas ou armaduras. Garantir que qualquer coisa possa ser dita, sem julgamentos, sem ofensas.

Em um mundo fluido, no qual ninguém mais se importa com ninguém, no qual trocamos de relacionamentos com um passar de dedo na tela do celular, se sentir acolhido tem sido cada vez mais difícil, e muita gente só encontra esse tipo de acolhimento por duzentos reais a consulta. Por isso tenho feito um esforço consciente para acolher os outros, e esse esforço passa por três premissas:

1) Escuta afetiva: realmente parar para escutar o outro, entendo toda a história com empatia. Saber a importância de ouvir e segurar minhas opiniões para outros momentos;

2) Não julgar: tento controlar todas minhas reações, como expressões faciais e respiração. Não importa o que estão me contando, pode ser o caso mais absurdo que eu já tenha ouvido, ouço tudo com naturalidade e não faço nenhum juízo de valor. Nenhum;

3) Sigilo: uma certeza dou a todos que se abrem comigo, que é a garantia de sigilo. Nunca, em nenhuma hipótese, vou contar para outra pessoa o que me foi confidenciado.

Na maioria das vezes não funciona, mas em alguns casos sim. Trabalho numa organização que tem como voluntários pessoas em situação de risco, e sentar e oferecer toda minha atenção faz parte do meu dia a dia e vejo a importância que isso tem.

No Bike Anjo, trabalho voluntário no qual ensino adultos a andar de bicicleta, também tenho contato com traumas e muitas outras questões, e muitas vezes só ouvir já ajuda a pessoa a superar algumas barreiras para começar a pedalar.

Sejamos todos espaços seguros para os outros.