domingo, 1 de janeiro de 2017

Cruz do Pedro


Capela Cruz do Pedro
Pedro tinha 9 anos e, apesar de ter nascido depois da Lei do Ventre Livre, trabalharia, conforme mandava a legislação, até os 21 anos para seu senhor, o fazendeiro de Ribeirão Preto Coronel Mingote, a título de indenização pela sua alforria.

O ano era 1885 e na Fazenda Santana a rotina começava cedo: às cinco da manhã o sino tocava e acordava os cativos, autorizando a abertura das celas onde dormiam acorrentados. Reunidos no terreiro e depois da contagem, realizavam a oração matinal, recebiam café e partiam para os cafezais onde eram realizados os trabalhos forçados. Ao escurecer, voltavam para o terreiro, eram contados, oravam, recebiam alimentação e gozavam de uma hora descanso fora das celas quando, às 9 da noite, o sino tocava e eram novamente recolhidos e acorrentados.

Pedro era filho dos escravos João e Constância, conhecida como Tia Tana, e no dia 29 de junho seu trabalho era servir como candeeiro ao também cativo Teodoro, que já era conhecido como o escravo mais ordinário e traiçoeiro da fazenda, que conduziria o carro de bois com uma carga até a fazenda vizinha distante 15 quilômetros. Ao menino cabia a função de ir à frente do comboio iluminando o caminho.

Finalizada a tarefa, ambos voltavam noite a dentro quando Teodoro pediu o picuá com comida que estava de posse de Pedro. Constatada a ausência do item, o carreiro se encheu de fúria e estrangulou o menino, pendurando-o numa árvore simulando um suicídio. 

Tia Tana ao ouvir a notícia do suicídio, em prantos, ajoelhou e levantou as mãos ao céus, vaticinando que se seu filho tivesse morrido pela justiça divina, perdoaria, mas se tivesse sido um assassinato, as mãos do algoz secariam ao ponto de deixá-las inutilizadas. No local onde o corpo foi achado, a mãe colocou uma cruz, a Cruz do Pedro.

No virar da lua, as mãos de Teodoro começaram a ficar inertes, perdendo os movimentos e ficando completamente inativas, tornando-o incapaz para o trabalho e forçando a passar o resto de seus dias mendigando e precisando da ajuda de terceiros até para levar alimentos à boca. 

O lugar onde a cruz foi cravada começou a receber visitas de pessoas em busca de graças e uma capela foi erguida em 1889. Todo dia 29 de junho uma festa é realizada, com romaria de centenas de peregrinos e autorização da Igreja Católica.

O café foi substituído pela cana, os escravos por colonos italianos, os colonos pelas máquinas, agora a capela está cercana por pés de cana-de-açúcar distante a, pelo menos, 10 quilômetros de estrada de terra da rodovia. A data exata da origem da festa é incerta, mas existem registros de sua existência em documentos da década de 30.

Este é um pequeno resumo da história. Queria poder falar mais sobre a tentativa de igreja em embranquecer o menino, já que achava inaceitável o culto a um negro, e narrar o contexto histórico falando sobre a decadência do café e o início do cultivo da cana, a chegada dos colonos europeus, o governo Vargas que teve que lidar com Padre Cícero e Antônio Conselheiro, que também foram cultuados como santos pelo povo pobre à revelia do Papa e do governo.

Conheci o local no último dia de 2016. São 30 minutos de carro deixando poeira vermelha para traz. A cruz está lá e na capela muitas fotos e objetos dos peregrinos que buscam ajuda do menino Pedro. Fiquei com muita vontade de voltar no dia da festa. Quem sabe?

A Cruz do Pedro

A capela

O cenário: cana-de-açúcar

Estábulo para os peregrinos

Dentro da capela

Banheiros

Fontes:

A Cruz do Pedro: memórias do menino que virou lenda
Arquidiocese de Ribeirão Preto
Cidades e Lugares

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