quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Pobreza no nordeste

Em 2023 visitei um antigo campo de concentração no Ceará. Você não leu errado: campo de concentração, ou os currais do governo. Contei essa história aqui.

Resumidamente: durante as grandes secas, sertanejos fugindo da morte iam caminhando até Fortaleza em busca de alguma chance de sobrevivência e acampavam em frente ao palácio do governador. Mas essas milhares de pessoas maltrapilhas, doentes e sujas, enfeiavam a capital que estava em processo da afrancesamento, além de ser um problema de saúde pública e, acima de tudo, um problema humanitário. 

Muitas pessoas morriam antes de chegar em Fortaleza e seus corpos ficavam espalhados ao lado da linha ferroviária. A foto a seguir tem menos de 100 anos e mostra crianças que não sobreviveram à viagem.

Corpos de famílias inteiras, que fugiam da seca, espalhados ao logo da linha férrea que ia até Fortaleza

Mas o governo tinha uma solução. Para evitar que essa massa de flagelados chegasse em Fortaleza, o criou campos de concentração no qual famílias inteiras eram submetidas a trabalhos forçados, alimentação estragada, ausência de cuidados médicos e instalações sub-humanas. Dezenas morriam por dia, de fome, doenças, exaustão, e eram enterrados em valas rasas.

Em 1932 foram criados sete destas instalações e apenas uma delas, a única que funcionou em uma construção de alvenaria, resistiu até os dias de hoje, no município de Senador Pompeu. Foi esta que eu visitei. Estive na estação ferroviária onde as famílias chegavam, visitei o local onde os corpos eram enterrados, o prédio onde funcionava a administração. Também visitei um dos trens utilizados no transporte dessas pessoas que está exposto numa praça em Fortaleza.

E tudo isso aconteceu há menos de 100 anos. Há menos de 100 anos pessoas eram confinadas em campos de concentração no interior do Ceará. Até outro dia ainda existiam sobreviventes desses locais, pessoas que na época eram crianças e foram para lá com seus pais. O documentário Currais, trailer abaixo, apresenta algumas dessas pessoas e conta essa história. O filme pode ser assistido nas plataformas digitais.

Cem anos não é nada quando a gente fala da história de um país. Mas, se você acha que isso é muito tempo, saiba que essa realidade ainda era comum na década de 1990.

Eram frequentes as reportagens no Fantástico e no Jornal Nacional mostrando os flagelados da seca, famílias inteiras deixando suas terras em busca de sobrevivência, crianças morrendo de desnutrição e as altíssimas taxas de mortalidade infantil, especialmente no Nordeste.

Também eram comuns as imagens de crianças trabalhando em canaviais e carvoarias, privadas do direito de estudar, brincar e viver a infância.

E não estamos falando de um passado distante. Estamos falando de uma realidade que muitos de nós vimos na televisão, sentados na sala de casa, há pouco mais de trinta anos.

 Dá uma olhada nesse vídeo:


Eu sei que ainda tem muita coisa para melhorar, que o Brasil ainda está longe de ser aquele que a gente deseja para ele. Mas a gente precisa admitir que avançamos. 

Hoje, as pessoas não morrem mais aos milhares na beira das estradas, fugindo da seca no sertão em busca de sobrevivência nas capitais. Hoje, o trabalho infantil nas carvoarias e nos canaviais, embora ainda exista, já não é uma realidade tão disseminada e naturalizada como foi durante décadas. Hoje, uma seca no Nordeste não precisa mais significar uma sentença de fome e morte para milhares de famílias.

E o motivo de a gente ter melhorado não é mistério. Tem nome: política pública.

Nas minhas viagens pelo sertão, eu vejo isso de perto. Hoje, a gente encontra unidades básicas de saúde, Centros de Referência de Assistência Social, escolas públicas e ônibus que percorrem quilômetros de estradas rurais para garantir que as crianças possam estudar. Muitas famílias têm cisternas para armazenar a água da chuva, algo que mudou profundamente a vida de quem antes precisava caminhar quilômetros para conseguir água.

Tem o Luz para Todos, que levou energia elétrica a comunidades historicamente esquecidas. Tem o Bolsa Família, que garante uma renda mínima para milhões de famílias e ajuda a combater a fome e a pobreza.

Nada disso aconteceu por acaso. São conquistas de décadas de luta, muitas delas asseguradas pela Constituição de 1988, que reconheceu a saúde, a educação e a assistência social como direitos. Outras foram ampliadas e consolidadas durante os governos Lula, com políticas que transformaram especialmente a vida da população mais pobre.

Ainda existe pobreza no Brasil. Ninguém está negando isso. Ainda temos muito a fazer para construir um país mais justo, onde todas as pessoas possam viver com dignidade.

Mas avançamos. E avançamos muito, ainda que mais devagar do que gostaríamos. Temos um Congresso que, muitas vezes, atua contra os interesses da maioria da população e dificulta a ampliação de direitos. Mesmo assim, é impossível negar o salto civilizatório que o Brasil deu durante os governos Lula.

Quem conhece a história do nosso país, especialmente a realidade do sertão nordestino, sabe o que significa ter acesso à água, à energia elétrica, à saúde, à educação e a uma renda mínima. São conquistas que transformaram vidas e que não podem ser tratadas como se sempre tivessem existido.

É por tudo isso que, no domingo, meu voto é Lula 13.

Referências:

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