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segunda-feira, 18 de abril de 2022

A barrificação (ou copacabanização) da Zona Portuária

A depender do ângulo de vista, a Zona Portuária tem se mostrado um sucesso. Só a construtora Cury lançou três condomínios que estão vendendo muito bem, além de um quarto na Presidente Vargas. Voltados para classe média, possuem, em torres de 20 andares, desde estúdios com trinta metros quadrados até dois quartos com 50 metros e valores iniciais em duzentos e poucos mil reais.

São muito pequenos, mas possuem toda sorte de lazer e serviços, como piscina, academia, lavanderia, cinema, bares e rooftop.

Tudo isso incentivado pelo Reviver Centro, programa da prefeitura para estimular a vinda de moradores para o centro.

O potencial realmente é gigante, perfeito para construção de condomínios, visto a quantidade de terrenos vazios e abandonados e próximos a vários modais de transporte (VLT, rodoviária, metrô, barcas, aeroporto).

O grande problema disso é que se trata da reprodução de um modelo de cidade TOTALMENTE EQUIVOCADO. Esses condomínios tinham que ser desestimulados, já que seus prédios longes das ruas, de uso unicamente residencial e ocupados por famílias de um mesmo perfil socioeconômico são a cópia da Barra da Tijuca, um não lugar, frio, apático, distante.

O problema não é só estético, já que os muros dos condomínios separam não apenas os corpos, mas também as mentes de seus moradores, o que resulta em violências físicas e simbólicas. Já escrevi sobre isso aqui e aqui.


O que eu proponho é a copacabanização da Região Portuária: prédios com a fachadas para rua e andares térreos comerciais, com bares, farmácias, minimercados, incentivando fluxos de pessoas durante todo o dia nas calçadas.

Outra medida urgente é fortalecer, através do poder público, construção de moradias sociais, utilizando, inicialmente, prédios abandonados ou ocupados de forma irregular.

Como morador da região, me preocupa os rumos que estamos escolhendo o Porto. O Rio precisa de mais Copacabanas e menos Barras da Tijuca.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

A muralha do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro já teve uma muralha para se defender de ataques externos. Começou a ser construída em 1713, depois da invasão pirata comandada por René Duguay-Trouin em 1711.

René, durante a ocupação da cidade, ficou ‘hospedado’ no Palácio Episcopal do Morro da Conceição, onde hoje funciona o Museu Cartográfico do Exército. Durante muitos anos essa foi a mais espaçosa e bonita residência do Rio.

Ele e seus homens só voltaram para a França depois que os moradores fizeram a maior vaquinha da história carioca, que arrecadou, entre outros itens, 600 quilos de ouro, 200 bois e escravos.

Por coincidência, foi um engenheiro francês que veio ao Rio para dar uma consultoria para fortalecer as defesas do município. Entre outras sugestões, criou o traçado da muralha que começava aos pés do Morro do Castelo, perto de onde hoje ficam o Teatro Glauce Rocha e o Edifício Central, seguia paralelamente à Rua Uruguaiana (que não existia, aquela região era um charco) e terminava na subida da agora Ladeira Major Daemon, Morro da Conceição.


Seu traçado foi muito contestado na época, já que deixava fora dos seus limites o aqueduto (Arcos da Lapa), principal fonte de abastecimento d’água, e o Morro de Santo Antônio (no Largo da Carioca), cujo sítio elevado permitiria um ataque de canhões por cima do muro.

O objetivo principal da obra era fornecer proteção contra inimigos que chegassem do interior, já que os limites marítimos eram guarnecidos pelas fortalezas de Santa Cruz (Niterói) e São João (Urca).

Diante da ineficiência da proteção, que além dos motivos citados tinha outros problemas, como ser muito baixa em alguns trechos e não ser tão resistente como deveria, o empreendimento caiu em descrédito e a população começou a roubar suas pedras para construções particulares e a não respeitar a faixa de segurança, construindo casas encostadas no muro.

A muralha foi engolida pela cidade e provavelmente desapareceu por volta de 1740, sem nunca ter servido ao propósito para a qual foi construída. Engraçado que obras inúteis que só servem para gastar dinheiro público ainda são comuns nos dias de hoje.

No mapa de 1725, coloquei em verde a Rua Uruguaiana, em amarelo as pistas da Av. Presidente Vargas e em vermelho a Rio Branco. Em preto, o traçado da muralha.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Rio: monumento à tortura

Outro dia escrevi sobre a forca que existia na Praça Mauá e uma amiga comentou que nunca pisaria ali. Infelizmente andar no Rio é andar por um cemitério indígena e negro, praticamente cada uma das nossas esquinas tem um histórico de tortura e execução.

E nem adianta ficar em casa. Em 1996, ao fazer uma reforma residencial, uma família encontrou ossadas de escravos recém chegados ao Brasil. Eles moravam, literalmente, em cima de um cemitério e hoje esse espaço é o Instituto do Pretos Novos, local de visitação obrigatória para se saber como esse país foi erguido.

Existiam mais dois outros patíbulos na região: um na esquina da Avenida Passos com a Rua Senhor dos Passos, onde Tiradentes foi executado, e outro no Largo da Capim, Rua dos Andradas, demolido para dar passagem à Avenida Presidente Vargas.

Vale citar uma antiga tradição portuguesa trazida para o Rio, a lúgubre procissão dos ossos. Na noite anterior ao dia dos finados, a Irmandade da Misericórdia, com sede na Santa Casa (Rua Santa Luzia), vestida com capas pretas e sob a luz de tochas, punha-se em marcha pelas ruas recolhendo corpos pendurados nas forcas e demais cadáveres que não tinham direito a uma sepultura, descartados ao lado dos patíbulos, para um enterro cristão no cemitério do hospital.

Em 1498, o Rei Dom Manuel I permitiu que a Irmandade, todo dia primeiro de novembro, recolhesse os ossos dos justiçados para dar-lhes sepultura. 

Ponta do Calabouço

A vista ao decolar ou pousar no Santos Dumont é deslumbrante, mas muita gente não sabe que pertinho da atual cabeceira ficava a Ponta do Calabouço, uma repartição pública que tinha como objetivo castigar escravos, já que seus senhores estavam proibidos pelo Estado de infringir eles próprios as punições nos cativos.

Mapa do Largo do Capim. A rua São Pedro virou a pista da direita e a Rua do Bom Jesus a da esquerda da Presidente Vargas (fonte)
Comércio de escravos

A poucos metros da minha casa fica o Observatório do Valongo, campus dos cursos de astronomia da UFRJ. Um lugar incrível com diversas atividades para a comunidade, como observação dos astros, palestras e cursos.

Um de seus telescópios, disponível para visitação, ajudou a mapear o pouso do homem na lua.

Mas o lugar inicialmente funcionava como sítio de engorda dos escravos recém chegados da África. É muito provável que o caminho que eu faço até o trabalho, pela Ladeira do Valongo, seja o mesmo percorrido pelos africanos depois de desembarcar no Cais do Valongo, tombado recentemente pela Unesco por ter sido o porto que mais recebeu escravos no mundo, aproximadamente um milhão de pessoas chegaram por ali para realizar trabalhos forçados.

O extermínio continua

A Candelária também fica na Região, e em 1993 oito jovens foram assassinados enquanto dormiam nas ruas. Uma cruz em frente à igreja lembra o evento.

A prática de execução de negros, infelizmente, continua em vigor nas nossas favelas, herança portuguesa desde os primórdios da cidade.


Caminhar no Rio é caminhar sobre sangue.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Rio, a cidade que deu certo

A imagem de Aimberê morto na praia, amparado por José de Anchieta, foi a abertura da aula sobre a fundação do Rio de Janeiro ministrada por Henrique Silveira. O quadro ‘O último tamoio’ retrata a vitória portuguesa sobre os indígenas, marcando definitivamente o início da ocupação da região onde a cidade foi erguida

As festas, feijoadas e rodas de samba que acontecem no dia primeiro de março são, na verdade, a comemoração de um genocídio. Claro que a gente resignificou essa história, mas não podemos esquecer que o Rio foi erguido sobre sangue indígena e, depois, negro

Esta cidade deu certo, não encontramos mais índios pelas ruas, todos foram eficazmente assassinados

'O último tamoio', em exposição no Museu Nacional de Belas Artes, na Cinelândia
Uma vez, estava com um amigo anarquista em São Paulo em frente a uma catedral quando fiz um comentário sobre a beleza do prédio. Ele disse que não achava bonito, já que não conseguia ver beleza em obras realizadas com trabalho escravo

Acho Cuba um país incrível, sem gente dormindo nas ruas, medicina e universidades gratuitas, entre outras conquistas sociais atingidas, em parte, por uma ditadura e pelos paredões dos tribunais revolucionários que mataram não apenas criminosos de guerra, mas opositores do regime

No fundo, tudo que a humanidade construiu foi assim, na base de guerras, genocídios, exploração e sofrimento. Sem julgamento de valor, o que move o ser humano é a destruição

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Calabouço

Autorizei o débito no cartão de crédito e em poucos segundos todos os romances de Machado de Assis estavam disponíveis para leitura no meu Kindle. Custaram alguns poucos reais e comecei com Esaú e Jacó, que inicia com a subida de Natividade e sua irmã, Perpétua, ao extinto Morro do Castelo para fazer uma consulta com uma bruxa.

O Morro do Castelo foi derrubado em 1922 e do local só sobraram o nome, que indica a região onde ele ficava no centro da cidade, e um pequeno trecho da Ladeira da Misericórdia, que só não foi abaixo também porque serve como parte da estrutura que mantém em pé a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso. Para mim é um local de reflexão, já sentei naquele calçamento de pé-de-moleque para imaginar o Rio em seus primeiros anos de fundação. Aquelas pedras fazem parte da primeira rua da cidade, e o arrasamento do morro foi uma violência histórica e cultural que teve como objetivo expulsar os pobres que moravam a poucos metros da recém criada Avenida Central, atual Rio Branco, com seus novos prédios de inspiração francesa.

Se fosse me casar numa igreja, seria esta que está aos pés da ladeira. Não apenas pela forte ligação com o Rio, mas por ser ali o local onde foram realizadas as primeiras apresentações teatrais, com índios catequizados dirigidos por padres jesuítas em encenações que contavam a história do cristianismo.
Ladeira da Misericórdia
Foi essa paixão pela gênesis da cidade que me levou a começar por Esaú e Jacó. Os olhos dos meus amigos brilham ao falar de Machado e Lima Barreto, o que sempre me deixou envergonhado por não ter lido nenhum deles. Sou um leitor tardio, comecei no ensino médio por influência de amigos. Foi Carlos Leandro quem me ofereceu a primeira publicação que li com gosto, O Menino Sem Imaginação, uma crítica bem humorada à sociedade e à televisão.

Meus pais sempre responderam positivamente os meus parcos interesses pela literatura e compravam os livros que me interessavam, além de fazer assinaturas de revistas. Ainda guardo muitos desses materiais no meu antigo quarto, dezenas de edições da Globo Ciência, atual Galileu, e uma coleção em capa dura de ciência para crianças, com várias experiências que podiam ser realizadas com itens caseiros. Só agora, ao escrever estas linhas, que me dou conta do quão importante isso foi para minha formação. Foi neste momento que o método científico fincou raízes no meu cérebro.

Embebido na leitura de Esaú e Jacó, fui até a casa onde o autor nasceu e passou seus primeiros anos, a uns 300 metros de onde eu moro. A residência está abandonada e não há nada que indique que ali morou o maior escritor brasileiro. Só sabemos disso graças ao trabalho do historiador Milton Teixeira, que recentemente fez esta descoberta. Outros dois locais onde Machado morou possuem placas indicativas: o prédio da Firjan na esquina da Rua Santa Luzia com a Graça Aranha e um prédio residencial no Cosme Velho, que rendeu-lhe o apelido de Bruxo do Cosme Velho. Apesar das casas não existirem mais, as placas não deixam esta história ser esquecida.

O que mais me surpreende é que a Ladeira do Livramento está na Região Portuária do Rio, um espaço também conhecido como Pequena África, tamanha a influência da cultura africana. Como forma de celebração, foi criado pela prefeitura um circuito com locais importantes para a cultura negra, como a Pedra do Sal (onde surgiu o samba), o Cais do Valongo (cais que mais recebeu africanos escravizados no mundo, foram cerca de um milhão) e o Cemitério dos Pretos Novos (onde os cativos que morriam por causa da péssimas condições da travessia do Atlântico eram enterrados). A casa onde Machado de Assis nasceu, que era negro, ficou fora do circuito.

A Pequena África recentemente ganhou o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, título em risco por conta de uma gestão incompetente da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro que ainda não realizou nenhum dos compromissos firmados com a Unesco, como a criação de um centro de visitação. Surpreendentemente, a secretária é negra e não faz absolutamente nada preservar essa história.

Infelizmente não me encantei com os romances do Bruxo. Achei difíceis, com palavras e referências que não conheço e uma estrutura de texto que não estou habituado a ler. Nem terminei Esaú e Jacó, o que me faz me sentir meio burro.

Curiosamente, foi uma tradutora estadunidense, responsável pela quarta tradução em inglês de Brás Cubas, que despertou em mim novamente a vontade de tentar. Em excelente artigo publicado na revista piauí, ela conta o desafio que foi traduzir a palavra calabouço, presente em dos trechos do livro.

Ponta do Calabouço
Apesar de grafado em letra minúscula, esta referência eu sabia. O nome se refere a um local onde os escravos eram castigados, já que seus proprietários eram proibidos de aplicar castigos físicos. Claro que esta regra não era respeitada, principalmente no interior, mas na capital do país era necessário pagar ao estado para que os negros fossem açoitados.

O Calabouço ficava perto do atual Museu Histórico Nacional e hoje seu exato local está na cabeceira do aeroporto Santos Dumont. Eu sobrepus uma mapa antigo com um atual, tirado do Google Maps.

Flora Thomson-DeVeaux, a tradutora, conta a saga que foi fazer esta descoberta, já que todos seus amigos cariocas desconheciam essa história. Assim como o Calabouço, os livros de Assis são repletos de referências que, apesar de estarem no cotidiano dos habitantes da cidade na época em que foram escritos, requerem grandes pesquisas para serem entendidas em sua plenitude. Fiquei impressionado com a pesquisa de Flora para achar a palavra perfeita para a tradução e com a solução encontrada, que vai virar uma nota de rodapé. Foi a partir daí que me dei conta das edições comentadas, que trazem anotações que ajudam o leitor contemporâneo a entender a obra. Acabei de comprar por três reais o Memórias Póstumas de Brás Cubas, comentado, ilustrado e com glossário. Vamos ver se desta vez eu consigo.