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terça-feira, 18 de maio de 2021

Nosso futuro é a distopia

Carro autônomo

Já tem carro andando sozinho nos Estados Unidos. Apesar da obrigatoriedade do motorista estar sentado atrás do volante, a polícia já fez alguns flagrantes do condutor no banco traseiro enquanto o veículo seguia no piloto automático.

No McDonald's da esquina da minha casa, os clientes fazem os pedidos num totem e apenas uma atendente tira os pedidos de forma presencial. Ainda são necessárias pessoas para fritar batatas e montar os sanduíches, mas em breve todo esse processo também será automatizado e a loja vai operar do forma totalmente autônoma. 

Essa tecnologia já está chegando no Brasil e em breve os robôs poderão também fazer pratos mais elaborados do que hambúrgueres.

Na China, cabines médicas que podem ser colocadas nas ruas dão diagnósticos e oferecem a medicação adequada na hora.

O que essas histórias reais possuem em comum? Cada vez mais, as pessoas estão se tornando desnecessárias para o trabalho. Começou timidamente com o autoatendimento nos bancos e com as catracas eletrônicas nos ônibus, mas cada dia que passa um algoritmo rouba o emprego de alguém.

No mundo já não existem vagas de trabalho para todos e e vão existir cada vez menos. E mesmo que as projeções de alguns otimistas estejam corretas, de que a tecnologia vai criar novos postos, um motorista do Uber não vai virar engenheiro de software de um dia para o outro, como alertou Harari.

É só olhar para o capitalismo para saber que a humanidade não vai escolher dividir toda essa riqueza gerada pela tecnologia. Vão criar muros e bunkers com segurança armada para continuar deixando os pobres do lado de fora, mas numa escala digna de uma distopia.

Caminhamos a passos largos para a barbárie.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Face App

A democracia é um ideal que precisa ser defendido constantemente, ela nunca estará suficientemente sólida ao ponto não nos preocuparmos com seu derretimento. Hoje, por exemplo, o Brasil tem um governo que está preparando a cama para um golpe militar, uma aspiração do presidente que nunca foi escondida.

Agora imaginem o que um regime totalitário seria capaz de fazer se tivesse acesso à tecnologia de reconhecimento facial? Yuval Harari fala disso em Homo Deus, conjecturando como seria se a União Soviética tivesse acesso à ferramentas de controle e vigilância que começam a ser disponibilizadas. Um sistema praticamente impossível de ser derrubado, uma distopia real à la 1984.

A tecnologia está aí, e a única forma de nos defender é questionando seus usos através da arte, filosofia e ciências humanas, áreas de conhecimento naturalmente questionadoras e que sempre são atacadas pelas ditaduras.

Nem países com instituições democráticas fortes, como os Estados Unidos, estão livres disso. Reconhecimento facial está sendo usado para identificar manifestantes do Black Lives Matter.

Enquanto isso, aqui no Brasil, tem muito comunistas trocando de gênero no Face App, ajudando a gestar essa que vai ser nossa ruína.

domingo, 28 de abril de 2019

Ciências humanas e o futuro da humanidade


Bate papo entre Zuckerberg e Harari. Como já era de se esperar, o CEO do Facebook acredita que a tecnologia ajuda a fortalecer a democracia e conectar comunidades, enquanto o historiador coloca suas preocupações sobre como regimes totalitários podem fazer uso desses novos aparatos.

Minha conclusão: a inteligência artificial, assim como qualquer ferramenta, pode ser usada para o bem ou para o mal, assim como uma faca que pode ser utilizada para cozinhar ou matar alguém. O fundamental é que a conduta, a ética e a moral humana sejam conduzidas para o bem comum, e as principais disciplinas que fazem isso em uma sociedade são a filosofia, a sociologia e a antropologia.

Ao abrir mão das ciências sociais, nosso governo mais uma vez abre mão de participar dessas questões tão importantes para o futuro da humanidade. Estamos abrindo mão não apenas da nossa soberania, mas ameaçando o destino do Brasil e enfraquecendo as vozes que defendem a igualdade no mundo, nos aproximando de uma distopia. Uma lástima.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Big Brother da vida real

Moro perto do prédio da Polícia Federal no Rio, ao lado da Praça Mauá. Consequentemente bebo nos mesmo bares que os policiais, e semana passada um deles sentou na minha mesa e conversamos por um bom tempo. Ele trabalha ouvindo escutas autorizadas pela justiça e fazendo transcrições das conversas, que servem para alimentar as investigações que estão em curso. Lembrei de um filme dos Estados Unidos no qual o protagonista é um agente da CIA que trabalha como analista de informações, também ouvindo escutas e interceptando e-mails, atividade realizada por quase a totalidade dos agentes, realidade bem diferente daquela retratada no cinema com espiões agindo secretamente em território estrangeiro e trocando tiro com terroristas.

A realidade brasileira é parecida, boa parte da força policial federal trabalha com informações. As ações de rua, de busca e apreensão, geralmente são realizadas pelos novatos ou pela força especial que sai em operações específicas e de alto risco. A revista piaí de maio narra uma dessas operações, digna de virar filme.

A principal diferente entre e terra do Curupira e a terra do Tio Sam é a tecnologia. Por lá, algorítimos 'ouvem' as conversas e separam palavras chaves. Por aqui, ainda precisamos de uma pessoa com fone no ouvido e digitando tudo que os suspeitam falam.

Uma coisa que ainda não conseguiram grampear, pelo menos por aqui, são as conversas do WhatsApp, o que dificulta muito as investigações. Tudo que a PF consegue fazer é plugar o aparelho apreendido num equipamento, chamado de chupa-cabra, e baixar as mensagens. E este equipamento custa muitos milhares de reais.

Ainda que tecnicamente seja possível instalar um app espião, é necessário estar de posse do aparelho desbloqueado para isso. Ou através de aplicativos maliciosos, de origem duvidosa, instalados pelo proprietário sem saber. Por isso é fundamental ficar atendo a tudo que colocamos no celular, de preferência apenas produtos de empresas conhecidas, como Google, Microsoft ou Apple. Aquele joguinho passa-tempo pode estar te espionando, com acesso ao seu microfone, câmera e conversas.

O WhatsApp, ao que parece, realmente é um ferramenta a prova de invasão. Muitos juízes que não conhecem a tecnologia já solicitaram ao Facebook, empresa proprietária do aplicativo, mensagens de pessoas que estavam sendo investigadas. Diante da impossibilidade de fornecer esses dados, que são criptografados e apenas o emissor e o receptor têm acesso ao conteúdo, mandaram tirar o programa do ar no Brasil. Isso já aconteceu umas duas ou três vezes, mas por apenas algumas horas, já que as medidas foram revogadas por outros juízes.

Ter um pouco de privacidade é reconfortante, apesar de saber que o acesso a estas conversas poderia ajudar a desvendar muitos crimes. Lembro de acompanhar pela imprensa o desaparecimento de um adolescente e ficar imaginando se seu paradeiro não teria sido descoberto com mais facilidade se os investigadores tivessem tido acesso às mensagens do WhatsApp, mas ainda acho a privacidade mais importante. Não apenas por questões pessoais, mas porque acredito que isso possa coibir o caminho para um futuro distópico.
Fonte da imagem
Nos Estados Unidos existe uma briga entre a justiça, a polícia e a Apple para que a empresa forneça ferramentas que permitam que investigadores acessem iPhones apreendidos. A Apple tem lutado até onde pode para não permitir isso, visando proteger seus usuários. Em um caso recente, a polícia invadiu um velório para desbloquear, através da digital, o telefone do morto.

Somos vigiados

Tenho certeza que meu celular tá me ouvindo 24 horas por dia. A incidência de anúncios relacionados às minhas conversas é tão grande que já passou de qualquer possibilidade estatística de ser coincidência. Não sou terrorista nem trabalho com informações confidenciais, mas, caso fosse, meus hábitos seriam outros. Ainda assim, passei a tomar alguns cuidados que compartilho com vocês:


Celular: só instalar apps confiáveis e bloquear acesso ao microfone e câmera. Só ligar o GPS quando for necessário.

Navegador: atualmente uso o Brave, que bloqueia quase todos os anúncios (no Youtube não aparece nenhum, os vídeos rodam sem nenhum tipo de interrupção), localizadores e cookies (arquivos instalados no computador que registram os hábitos do usuário). Se você quer continuar com o Chrome, instale um adblock confiável.


Se é exagero eu não sei, mas já chegamos num futuro distópico na China, que controla por vídeo quase todos seus cidadãos, um Big Brother real. Proteger até o fim nossas informações nos ajuda a evitar que esse tipo de coisa aconteça por aqui.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O futuro num mundo sem empregos

Você é otimista ou pessimista? Imaginando o futuro da humanidade daqui a, sei lá, 100 anos, estaremos melhores, num mundo com mais igualdade, ou piores, vivendo uma distopia?

Sou um cara otimista na maior parte do tempo. Fazer parte do Bike Anjo, ensinar pessoas a pedalar e trabalhar numa importante instituição que contribuiu com a saída do Brasil do Mapa da Fome, para mim, significa acreditar em um futuro bem diferente desta realidade que nos massacra todos os dias.

Frente a esta minha crença que não nos aniquilaremos, segue abaixo como acredito que será nosso futuro.

Um segundo renascimento

A Renascença foi um período da história marcado pela redescoberta de valores culturais da antiguidade clássica, como o humanismo, influenciando a política, as artes, a economia, religião e ciências. Grécia, junto com Roma, foi fonte de inspiração, e ideais como república e democracia ganharam força e pautaram revoluções.

Na democracia grega, que virou o propósito de boa parte dos regimes políticos ao redor do mundo, o cidadão não trabalhava. Estas atividades eram relegadas aos escravos, cabendo aos gregos as funções de coordenação. O tempo livre era utilizado no aprimoramento do intelecto, como artes, literatura, música e filosofia.

Esse sistema deu tão certo que o conhecimento gerado naquele tempo é referência até hoje, sem falar que durante séculos o país foi uma potência em todas as áreas, com um exército imbatível que fez com que seus generais sejam homenageados até hoje.

Nesse futuro otimista que imagino, novamente os cidadãos não trabalharão, mas o trabalho não será realizado por escravos, mas pela tecnologia, inteligência artificial e robôs. Teremos tempo livre para nos dedicar às artes e à filosofia, tal qual na Grécia Antiga.



Renda mínima para todos

Não tem emprego para todo mundo. A tecnologia está fazendo cada vez mais as atividades antes desempenhas por seres humanos. Empregos decentes, capazes de sustentar uma pessoa com dignidade e que atenda às necessidades vitais básicas, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, segundo o Artigo 7º da Constituição.

Hoje, no Brasil, 90% das pessoas aferem menos de R$2.500 por mês. Se você ganha mais que esse valor, saiba que faz parte de uma elite de apenas 10% da população do país. E esta quantia não é muita coisa, tenho amigos pagando mil reais por uma quitinete e se virando para fechar as contas.

Cada vez mais teremos menos empregos disponíveis. A Amazon vai abrir uma loja sem caixa, você pega os itens que quer e simplesmente vai embora, sem filas, já que um sistema de câmeras vai saber os produtos que os clientes estão levando e realizarão o débito automaticamente. Por mais que novas profissões estejam surgindo com a tecnologia e que uma educação empreendedora nos ensine a criar nossos próprios empregos, ainda assim não serão suficientes para que todos desenvolvam atividades econômicas.

Já estamos vendo as consequências disso. Quantas pessoas você conhece que se formaram na faculdade e estão desempregadas ou subempregadas? E a tendência é piorar.

Uma forma de evitar um colapso social é a distribuição de uma renda básica para todos os cidadãos, independente de qualquer fator. A Finlândia vai testar isso e todos seus habitantes ganharão entre dois e quatro mil reais por mês, sem nenhuma contrapartida.

Se tudo der certo, seremos remunerados sem precisar trabalhar, nosso tempo livre será dedicado às artes e à filosofia, e a tecnologia fará quase todo o trabalho. Ou é isso ou um futuro no qual 1% da população viverá com fartura, enquanto o resto sofrerá com escassez de tudo numa luta selvagem pela sobrevivência, mais ou menos como é agora.

sábado, 26 de novembro de 2016

Filosofia prática

1984 e Admirável Mundo Novo são duas das obras que mostram futuros distópicos que despertam discussões até hoje, apesar de ambas terem sido escritas há mas de 60 anos. Embora tenham projetados cenários diferentes, hoje podemos ver que os dois universos retratados em suas páginas podem conviver simultaneamente no mundo atual.

Em 1984, George Orwell imaginou uma distopia clássica, com um governo que controla quase todas as atividades sociais através de aparatos opressores, vigilância constante e policial. Já em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o controle não vem de uma ditadura, mas da tecnologia do entretenimento e de uma individualidade exacerbada que destruiu laços sociais tradicionais, como a família.

Agora Black Mirror lança um novo olhar sobre o destino da humanidade, apresentando um futuro próximo tão real que tem deixado muita gente preocupada, o que é bom, já que permite discussões que podem evitar que suas previsões se tornem realidade.

Black Mirror
Equação Price

Outro dia li na Vice uma matéria sobre George Price, cientista que tentou mostrar que o altruísmo é na verdade uma ação altamente individualista que tem o único objetivo de perpetuar o material genético ou hierarquia social daquele que a pratica. Agir de maneira carinhosa com alguém, por exemplo, para Price é um impulso egoísta.

Criou uma equação que traduz matematicamente esse comportamento humano, modelo mais completo do que a anterior criada pelo biólogo evolucionista Bill Hamilton rB>C, em que o benefício (B) multiplicado pelo grau de parentesco entre os indivíduos (r) precisa ser maior que o custo (C) do ato altruísta. De uma maneira mais simples, mede o quanto estamos dispostos fazer alguma coisa para ajudar alguém.

Em 1973, Price escreveu um artigo intitulado "A Lógica do Conflito Animal", que diz como um indivíduo faz escolhas que mais se adequam aos seus objetivos considerando as decisões de toda a comunidade. Apesar de ter sido muito citado na área da biologia teórica, todo esse pensamento é extremamente filosófico e sua revolucionária fórmula é apenas uma representação criada para compreendermos um fenômeno comportamental, sem utilidade prática. Pelo menos até agora.

Equação do Waze

Há poucos dias fiz uma visita ao Centro de Operações Rio e o Pablo Cerdeira, Chief Data Officer da prefeitura, mostrou uma fórmula do Waze proposta por Marta Gonzalez, do MIT, para que o aplicativo não considere apenas apenas o melhor para o indivíduo, mas que avalie também o que é melhor para todos os outros usuários, ou seja, para a comunidade. Fiquei impressionado quando coloquei os olhos naquela equação, pois era muito parecida com a criada por Price. Estava diante de mim um exemplo prático e real da aplicação de um conceito filosófico com impacto direto na nossa vida, no caso, a melhor rota para se chegar de carro a um determinado destino.

Na próxima imagem, acima está a equação do Waze e abaixo a de Price.


Sou leigo no assunto, talvez as duas fórmulas não possuam nenhuma relação*, mas acho pouco provável já que ambas consideram comportamentos individuais levando em consideração a coletividade. 

Privacidade, consciência, eutanásia, doutrinação, punição e hedonismo são assuntos do campo filosófico que nuca estiveram tão próximos do nosso dia a dia, principalmente por conta do avanço tecnológico. Por isso extinguir as disciplinas humanas das grades curriculares para foco exclusivo nas cadeiras técnicas abre caminho para que esses futuros distópicos, retratados em diversas obras de ficção, se tornem reais.

Uma escola sem partido é uma escola que não reflete sobre esses assuntos. Se você não quer viver num futuro como o do Black Mirror, como eu não quero, é melhor lutar para que ciências sociais e filosofia ganhem mais espaço nas nossas cadeiras escolares.

PS: segundo Pablo Cerdeira a análise está correta.