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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Fahrenheit 451


Fahrenheit 451 é um romance que mostra um futuro distópico no qual não existem mais incêndios, por isso os bombeiros assumiram um novo papel: queimar livros. Uma leitura mais clássica da obra, abordada no filme da HBO, mostra o perigo da literatura, apresentada como uma ferramenta que desperta um pensamento crítico e autônomo da população que ameaça o sistema, mas existem outras interpretações.

Uma delas é como a televisão substituiu a leitura dentro das casas, imbecilizando as pessoas. Hoje em dia esse papel pode ser substituído pelo celular e pelas redes sociais.

Mas o que quero destacar aqui é como a queima de livros virou política de estado no romance. Tudo começou com minorias (homossexuais, feministas, batistas, adventistas, sionistas, irlandeses etc) se achando no direito e no dever de rasgar páginas e colocar fogo em publicações com as quais não concordam. Alguma semelhança com a política do cancelamento atual?

Vez por outra vejo o compartilhamento de um diagrama que nos coloca na interseção entre 1984, O Conto da Aia e Fahrenheit 451. Nós, do campo progressista, costumamos ver os sinais desses futuros distópicos surgindo entre grupos conservadores, tirando nossa responsabilidade no processo, mas esquecemos que nossas ações podem, sim, ser o estopim desse horizonte que tanto nos aterroriza.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Nosso futuro é a distopia

Carro autônomo

Já tem carro andando sozinho nos Estados Unidos. Apesar da obrigatoriedade do motorista estar sentado atrás do volante, a polícia já fez alguns flagrantes do condutor no banco traseiro enquanto o veículo seguia no piloto automático.

No McDonald's da esquina da minha casa, os clientes fazem os pedidos num totem e apenas uma atendente tira os pedidos de forma presencial. Ainda são necessárias pessoas para fritar batatas e montar os sanduíches, mas em breve todo esse processo também será automatizado e a loja vai operar do forma totalmente autônoma. 

Essa tecnologia já está chegando no Brasil e em breve os robôs poderão também fazer pratos mais elaborados do que hambúrgueres.

Na China, cabines médicas que podem ser colocadas nas ruas dão diagnósticos e oferecem a medicação adequada na hora.

O que essas histórias reais possuem em comum? Cada vez mais, as pessoas estão se tornando desnecessárias para o trabalho. Começou timidamente com o autoatendimento nos bancos e com as catracas eletrônicas nos ônibus, mas cada dia que passa um algoritmo rouba o emprego de alguém.

No mundo já não existem vagas de trabalho para todos e e vão existir cada vez menos. E mesmo que as projeções de alguns otimistas estejam corretas, de que a tecnologia vai criar novos postos, um motorista do Uber não vai virar engenheiro de software de um dia para o outro, como alertou Harari.

É só olhar para o capitalismo para saber que a humanidade não vai escolher dividir toda essa riqueza gerada pela tecnologia. Vão criar muros e bunkers com segurança armada para continuar deixando os pobres do lado de fora, mas numa escala digna de uma distopia.

Caminhamos a passos largos para a barbárie.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Face App

A democracia é um ideal que precisa ser defendido constantemente, ela nunca estará suficientemente sólida ao ponto não nos preocuparmos com seu derretimento. Hoje, por exemplo, o Brasil tem um governo que está preparando a cama para um golpe militar, uma aspiração do presidente que nunca foi escondida.

Agora imaginem o que um regime totalitário seria capaz de fazer se tivesse acesso à tecnologia de reconhecimento facial? Yuval Harari fala disso em Homo Deus, conjecturando como seria se a União Soviética tivesse acesso à ferramentas de controle e vigilância que começam a ser disponibilizadas. Um sistema praticamente impossível de ser derrubado, uma distopia real à la 1984.

A tecnologia está aí, e a única forma de nos defender é questionando seus usos através da arte, filosofia e ciências humanas, áreas de conhecimento naturalmente questionadoras e que sempre são atacadas pelas ditaduras.

Nem países com instituições democráticas fortes, como os Estados Unidos, estão livres disso. Reconhecimento facial está sendo usado para identificar manifestantes do Black Lives Matter.

Enquanto isso, aqui no Brasil, tem muito comunistas trocando de gênero no Face App, ajudando a gestar essa que vai ser nossa ruína.

sábado, 26 de novembro de 2016

Filosofia prática

1984 e Admirável Mundo Novo são duas das obras que mostram futuros distópicos que despertam discussões até hoje, apesar de ambas terem sido escritas há mas de 60 anos. Embora tenham projetados cenários diferentes, hoje podemos ver que os dois universos retratados em suas páginas podem conviver simultaneamente no mundo atual.

Em 1984, George Orwell imaginou uma distopia clássica, com um governo que controla quase todas as atividades sociais através de aparatos opressores, vigilância constante e policial. Já em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o controle não vem de uma ditadura, mas da tecnologia do entretenimento e de uma individualidade exacerbada que destruiu laços sociais tradicionais, como a família.

Agora Black Mirror lança um novo olhar sobre o destino da humanidade, apresentando um futuro próximo tão real que tem deixado muita gente preocupada, o que é bom, já que permite discussões que podem evitar que suas previsões se tornem realidade.

Black Mirror
Equação Price

Outro dia li na Vice uma matéria sobre George Price, cientista que tentou mostrar que o altruísmo é na verdade uma ação altamente individualista que tem o único objetivo de perpetuar o material genético ou hierarquia social daquele que a pratica. Agir de maneira carinhosa com alguém, por exemplo, para Price é um impulso egoísta.

Criou uma equação que traduz matematicamente esse comportamento humano, modelo mais completo do que a anterior criada pelo biólogo evolucionista Bill Hamilton rB>C, em que o benefício (B) multiplicado pelo grau de parentesco entre os indivíduos (r) precisa ser maior que o custo (C) do ato altruísta. De uma maneira mais simples, mede o quanto estamos dispostos fazer alguma coisa para ajudar alguém.

Em 1973, Price escreveu um artigo intitulado "A Lógica do Conflito Animal", que diz como um indivíduo faz escolhas que mais se adequam aos seus objetivos considerando as decisões de toda a comunidade. Apesar de ter sido muito citado na área da biologia teórica, todo esse pensamento é extremamente filosófico e sua revolucionária fórmula é apenas uma representação criada para compreendermos um fenômeno comportamental, sem utilidade prática. Pelo menos até agora.

Equação do Waze

Há poucos dias fiz uma visita ao Centro de Operações Rio e o Pablo Cerdeira, Chief Data Officer da prefeitura, mostrou uma fórmula do Waze proposta por Marta Gonzalez, do MIT, para que o aplicativo não considere apenas apenas o melhor para o indivíduo, mas que avalie também o que é melhor para todos os outros usuários, ou seja, para a comunidade. Fiquei impressionado quando coloquei os olhos naquela equação, pois era muito parecida com a criada por Price. Estava diante de mim um exemplo prático e real da aplicação de um conceito filosófico com impacto direto na nossa vida, no caso, a melhor rota para se chegar de carro a um determinado destino.

Na próxima imagem, acima está a equação do Waze e abaixo a de Price.


Sou leigo no assunto, talvez as duas fórmulas não possuam nenhuma relação*, mas acho pouco provável já que ambas consideram comportamentos individuais levando em consideração a coletividade. 

Privacidade, consciência, eutanásia, doutrinação, punição e hedonismo são assuntos do campo filosófico que nuca estiveram tão próximos do nosso dia a dia, principalmente por conta do avanço tecnológico. Por isso extinguir as disciplinas humanas das grades curriculares para foco exclusivo nas cadeiras técnicas abre caminho para que esses futuros distópicos, retratados em diversas obras de ficção, se tornem reais.

Uma escola sem partido é uma escola que não reflete sobre esses assuntos. Se você não quer viver num futuro como o do Black Mirror, como eu não quero, é melhor lutar para que ciências sociais e filosofia ganhem mais espaço nas nossas cadeiras escolares.

PS: segundo Pablo Cerdeira a análise está correta.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Cidades inteligentes e MURS

Sou um cara que gosta de pensar a cidade, participo de coletivos que realizam intervenções urbanas e eventos ligados ao assunto. A cidade é um espaço de potência e seu planejamento pode ajudar a despertar o que há de pior e melhor nas pessoas.

Uma das minhas áreas de interesse são as smart cities, ou cidades inteligentes, que são aquelas que utilizam a tecnologia e os dados gerados pelos seus usuários para pautar políticas e criar um ambiente sustentável e otimizado ao uso humano, além do consumo eficiente de recursos, mobilidade e serviços.

Conheci isso na prática ao fazer uma visita técnica ao Centro de Operações Rio, que monitora uma infinidade setores da urbe, como trânsito, locomoção, encostas de risco, previsão do tempo, enchentes, gestão de grandes eventos e outras entre as mais de 250 camadas de programação.

O histórico dos dados gerados pelos sistemas da prefeitura, somados a outros sistemas (Waze, Uber, GPS dos ônibus e até hastags nas redes sociais), criam um enorme banco de dados que analisados corretamente fornecem informações importantes para melhorar a vida das munícipes. Isso é uma cidade inteligente.

Na segunda-feira mais recente aconteceu na FGV um seminário sobre as smart cities, o qual, infelizmente, não pude participar, mas a noite assisti o espetáculo MURS, do grupo catalão La Fura Dels Baus, que faz uma crítica a esse modelo urbano. Por ter a ver com temas que tenho lido ultimamente, achei a apresentação sensacional e uma linha narrativa muito clara passou diante de mim durante toda a encenação. É uma peça para poucos entenderem, principalmente por causa da língua, portunhol e inglês.

O espetáculo é interativo, para participar plenamente é preciso instalar um aplicativo no celular, mas a ligação com o seriado Black Mirror da Netflix não termina aí. Um futuro distópico com pessoas alienadas é outra linha que mantêm próximas as duas obras.

As observações abaixo não têm o objetivo de explicar a peça, apenas apontar os motivos pelos quais saí de lá fascinado.

MURS (aviso de spoiler)

O cenário consiste em quatro salas, com cores diferentes, cada uma representando um aspecto da cidade. A sala azul refere-se ao bem estar, alimentação saudável e prática de atividades físicas pelos seus habitantes. A vermelha é o capitalismo, a possibilidade da ascensão social e os prazeres da carne. A verde representa a sustentabilidade, um ambiente urbano saudável e integrado com a natureza. A última sala, amarela, segurança.

Sala vermelha

Como dito anteriormente, é preciso instalar um aplicativo que funciona de forma integrada à sala onde o espectador está. Tudo isso é administrado por computadores e antenas que ficam numa torre de aço tubular na intercessão de todos os espaços, representando os sistemas de gestão da cidade.

O público, composto por quase mil pessoas, é divido em quatro, e cada grupo precisa ir para a sala da cor respectiva indicada no celular. Em cada sala é apresentada uma cena curta, sempre interativa, que depois de encerrada recebe uma nova leva de espectadores. Desta forma, todos assistem as quatro apresentações.

Mas a coisa começa a ficar interessante depois desta introdução. Uma bomba explode, dando entender que alguma coisa deu errado no roteiro. Um ator ensaguentado corre pedindo ajuda e outros o acudem. Nos telões, um telejornal noticia um atentado terrorista. Nas imagens, gravadas antes do início do espetáculo, mostram o suspeito, vestindo casaco preto com capuz, deixando uma mochila no guarda volumes.

A partir daí o caos se instala. A foto do terrorista é enviado para nossos telefones e a cidade perde totalmente o controle. Um vírus se espalha, alguns são contaminados e homens dentro daquelas roupas de proteção bacteriológica correm de um lado para o outro. Mensagens de proteção e instrução pipocam na tela do telefone, fazendo com que a gente tenha que correr de um lado para o outro. Fumaça, som alto, imagens ao vivo enviadas de celulares de atores que interpretam uma equipe de televisão, tumulto urbano e uso excessivo da força por agentes policiais. A smart city fica totalmente fora do controle.

Nesta situação, ordens de fechamento das fronteiras são dadas e grades são instaladas entre as salas, impedindo que o público troque de espaço. Este tema está muito em voga, com países se fechando para estrangeiros e refugiados, o novo presidente dos Estados Unidos prometendo construir um muro ainda maior separando o México.

Realidade aumentada
Neste momento fiquei na sala vermelha e um ator de terno falava jargões, em inglês, utilizados por Trump durante sua campanha, como we will make America great again. Para quem não conhece o idioma e não acompanhou as eleições estadunidenses, realmente fica difícil fazer essa associação e entender a cena, que exacerba o nacionalismo e a xenofobia, colocando nós, os vermelhos, contra o resto do público, numa clara alusão à crescente onda conservadora que está tomando o mundo.

Ao final, figuras que chamarei aqui de anarquistas, vestidos de preto, escalam a torre e começam a depredar as antenas, e quando a maior delas é tombada o espetáculo encerra. Aqueles que foram noticiados como terroristas são os que derrubam o sistema, trazendo a cidade de volta a uma tranquilidade e a uma situação anterior ao controle excessivo proporcionado pela tecnologia. A analogia é clara, o triunfo da revolução dos movimentos anticapitalismo.

Tudo isso acontece no meio do público, em ações que alguns podem achar violentas, como forçar a entrada do espectador numa jaula com rodas que circula pelas salas. Para deixar ainda mais tênue o que é encenação e o que é real, atores disfarçados sofrem ações mais invasivas, como ter peças de poucas arrancadas. Alguns não percebem que faz parte do roteiro e se revoltam com a cena.

A lição que tiro disso é a importância de questionarmos sempre a tecnologia e o futuro para o qual estamos sendo conduzidos. Confesso que nutro uma certa fascinação pelas cidades inteligentes, que são um caminho sem volta, mas toda esse inovação tecnológica precisa ser pautada por discussões éticas e morais que envolvem temas como liberdade individual, privacidade, vigilância, censura e consumo, temas esses levantados por disciplinas como filosofia, ciência política e antropologia. Iniciativas como a Escola Sem Partido são atentados contra a liberdade e colocam em risco nossa essência como seres humanos, criaturas autônomas capazes de pensar por si próprias. Criaturas livres, em suma.

O avanço da tecnologia precisa andar de mãos dadas com as ciências humanas, caso contrário viveremos uma realidade distópica como as que vemos em Black Mirror ou em romances como 1984 e Admirável Mundo Novo.