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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Super Size Me 2: Holy Chicken!

Super Size Me 2 foi o filme mais importante que assisti recentemente, fundamental para quem curte o tema alimentação.

É um documentário gonzo que foge do tradicional “cabeças falantes” deste estilo de cinema, no qual os entrevistados ficam sentados em frente à câmera falando. Morgan Spurlock se coloca à frente de cena e com seu carisma faz rir e chorar sem tirar do longa o caráter ‘informativo’.

Morgan é um famoso cineasta e ativista estadunidense que resolveu abrir sua própria loja de fast food, a Holy Chicken! No filme ele revela como se dá esse processo, consultando especialistas em comunicação, advogados, contratando uma empresa cujo serviço é desenvolver novas receitas para restaurantes e marcas de alimentos, conversando com criadores de frango e consumidores.

O filme me despertou vários sentimentos, começando pelo desejo de correr para o McDonald’s assim que os créditos começassem a subir, passando pela empolgação em ver tanta gente criativa trabalhando no desenvolvimento dos conceitos da loja, tristeza ao ver fazendeiros endividados e terminou me dando a certeza que nunca mais comerei num fast food outra vez.

O conceito da Holy Chicken! é a transparência sobre seus produtos e a cadeia produtiva. Nas paredes estão todas as informações reais sobre a fabricação do sanduíche, passando pela exploração de fazendeiros, maus tratos animais e todas as mentiras nas peças de comunicação para fazer os clientes acreditarem que estão comendo um lanche saudável e socialmente responsável.

O que mais me chamou a atenção foi como que as pessoas, mesmo diante das informações sobre toda crueldade utilizada para a confecção daquele lanche, ainda assim entravam na fila para fazer seus pedidos. Por que elas não se indignavam?

Os clientes sabiam que para aquele sanduíche ser produzido, um fazendeiro ficou endividado (tinha o nome e uma ilustração de um deles), eram usados frangos cujas pernas quebravam porque não aguentavam o próprio peso, tinham acesso a todas as mentiras contadas por equipes de marketing para dar a falsa sensação de que aquele alimento era saudável e, ainda assim, a loja foi um tremendo sucesso, recebendo, inclusive, propostas de investidores interessados em espalhar franquias em todos os Estados Unidos, uma espécie de espetacularização do sofrimento com molho e salada.

Por que somos assim? Por que, passivamente, diante de tanta violência, apenas fazemos nossos pedidos e não movimentamos um dedo contra esse sistema cruel que explora trabalhadores e clientes em troca de dinheiro? Como podemos ficar tão indiferentes a isso?

O problema é, como sempre, o capitalismo, que coloca nossas necessidades individuais acima do coletivo e faz com a gente não se importe com as violências cometidas contra o outro. Eu quero comer esse sanduíche, dane-se se ele deixou um fazendeiro e sua família eternamente endividada. Dane-se a exploração animal, dane-se que estão mentindo para mim. Eu quero esse sanduíche e só isso importa.

O individualismo e a crença da meritocracia, tão incentivada pelo neoliberalismo, faz com que procuremos soluções individuais para nossos problemas. É a compra do carro ao invés da exigência de transporte público. É o plano de saúde no lugar de um sistema gratuito e universal. É o ‘meu’ sanduíche no lugar de uma refeição sustentável. O outro é apenas uma escada para nossos interesses.

Infelizmente apenas ter acesso à informação não é suficiente para mudarmos de atitude. Precisamos entender os processos históricos que aprisionam os trabalhadores para, desta forma, iniciarmos a transformação.

Precisamos combater esse individualismo que nos impede de darmos as mãos para a construção de um mundo fraterno e essa construção passa pelo despertar da consciência de classe.

O mundo que queremos nunca aconteceu, e imaginar esse mundo perpassa edificar teoricamente suas bases e agirmos de acordo elas.

Avante, companheiros.

(filme disponível na Amazon)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Mas alimentação saudável é muito cara!

Continuando as comemorações aos cinco anos do Guia Alimentar Para a População Brasileira, hoje as dicas serão referentes ao preço:

1) Alguns legumes, verduras e frutas realmente possuem preço mais elevado, mas quando consumidos com outros mais baratos, como arroz, feijão, batata e mandioca, fartamente presentes na culinária brasileira, faz com que o preço médio da refeição seja inferior aos ultraprocessados;

2) Os vegetais da estação são mais baratos e abundantes, então procure saber sempre quais são os alimentos da época;

3) Alimentos de produtores locais também possuem preço inferior, já que não estão incluídas as despesas de transporte. Evite comprar importados, que além de ser bom para o bolso é bom para a economia local e para o meio ambiente;

4) Procurar fornecedores com menos intermediários, como feiras e sacolões, é uma ótima opção. Veja a possibilidade de comprar direto dos produtores ou através de compras coletivas, modalidade que tem se tornado bem comum nos grandes centros urbanos, principalmente com cestas de alimentos orgânicos;

5) Levar a comida para o trabalho também é uma forma de economizar, então não tenha vergonha de levar uma marmita com uma refeição saudável;

Vinho, cachaça e café do Armazém do Campo
6) Demanda: os preços caem conforme a demanda aumenta, já que mais produtores entram no mercado e há incremento da oferta. Então, quanto mais gente compra, menor é o preço. Incentive seus amigos e veja quais são seus gastos que podem ser cortados para reinvestir o valor em alimentos saudáveis;

7) Participação política: mais uma vez, fazer parte de grupos (associações, partidos políticos, conselhos etc) que visem incentivar a alimentação saudável é uma forma de fazer com que os preços caiam, pressionando para que haja incentivo fiscais para os produtores e a instalação de mais feiras livres na cidade.

Se você é uma pessoa privilegiada com tempo para participar destes movimentos, então utilize-o;

8) Conheça: Apesar da proteína animal no Brasil ser relativamente barata, ela ainda tem valor mais alto do que os vegetais. Conhecendo combinações nutricionais balanceadas, é possível diminuir a carne sem afetar a qualidade da refeição. Por exemplos, alimentos verdes escuro, como brócolis e couve, são ricos em proteína e excelentes substitutos.

Antigamente, comer carne era coisa de rico, agora é o contrário. Esses valores mudam com o passar do tempo, e nem sempre tem relação com o preço dos produtos.

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O Armazém do Campo - RJ é meu mais novo lugar favorito. Além de alimentos oriundos de assentamentos da reforma agrária, possui atividades culturais.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Como conseguir tempo para cozinhar?

Um dos problemas enfrentados por aqueles que querem adquirir hábitos alimentares mais saudáveis é falta de tempo, mas existem algumas coisas que podemos fazer para resolver isso.

1) Diminua o tempo dedicado a atividades menos importantes: ninguém questiona a importância de uma boa alimentação, por isso, reveja seus hábitos para identificar aqueles que podem ser cortados ou, pelo menos, reduzidos. Televisão e internet, por exemplo;

2) Planeje seu cardápio: planejar as compras e o cardápio da semana ajuda a economizar tempo e a preparar refeições com mais celeridade. Também é possível congelar alimentos prontos para serem consumidos nos próximos dias;

3) Treine: conforme vamos cozinhando e desenvolvendo essa habilidade, vamos aprendendo a preparar refeições em menos tempo. Percebemos que para fazer um macarrão com molho de tomate leva quase o mesmo tempo do que preparar um prato ‘instantâneo’;

4) Divida as tarefas e envolva a família: toda a casa precisa estar envolvida, desde o planejamento, compras, preparação e limpeza da louça. Essas tarefas não podem ser responsabilidade de apenas uma pessoa.

Aproveite para transformar as refeições num momento divertido e de comunhão. As crianças podem participar também, sempre com atividades compatíveis com suas idades;

5) Participação política: o trânsito das grandes cidades está cada dia mais complicado e a população de menor renda é a mais prejudicada, levando duas ou mais horas no trajeto ao trabalho. Quem não precisa passar por isso é um privilegiado e uma das formas de interferir neste cenário e a participação em movimentos que visem melhorar os deslocamentos urbanos, pressionando o governo a investir em transporte público de qualidade.

Use seu privilégio para ajudar grupos vulneráveis. A solução não é individual e para atacar todos os problemas é preciso envolver e estar junto de outras pessoas, desde a família até grupos políticos ou instituições ligadas à alimentação ou mobilidade.

Se você tem tempo para participar desses grupos, pressionar políticos e realizar manifestações, utilize-o.

Dicas baseadas no Guia Alimentar Para a População Brasileira.

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Como já contei, um amigo que quer mudar seus hábitos alimentares pediu minha ajuda e temos realizados encontros semanais para cozinhar. No quarto encontro fizemos sushi. Seguem fotos.



terça-feira, 29 de outubro de 2019

O que a indústria nunca vai substituir

Na época da minha avó, para cozinhar um prato simples como um macarrão com molho de tomate e frango era necessário pegar a ave no quintal, matar, preparar a massa do macarrão, esticar e cortar, picar os tomates e cozinhar lentamente até virar molho.

De pouco tempo para cá, a indústria eliminou várias etapas. Preparar a mesma refeição requer apenas descongelar e assar o frango, esquentar o molho da caixinha e colocar o macarrão na água fervendo.

Agora, para muita gente, abrir uma embalagem deste mesmo prato e colocar no forno já é cozinhar. Certamente meus avós ficariam espantados se soubessem que em pouco tempo a galinha já viria limpa e cortada, o molho pronto dentro de um saquinho e o macarrão no ponto para ser fervido, assim como ficamos espantados quando alguém nos diz que esquentar uma refeição industrializada é cozinhar.
Cogumelos utilizados na receita
Mas qual é o limite? Quais são as ações básicas necessárias para podermos falar que cozinhamos nossa comida? Não existe resposta, e mesmo que houvesse ela mudaria com o tempo. Só uma coisa é certa: se alguém virar para mim e falar que cozinhou só colocando um congelado no forno vai levar um pescoção.

Independentemente disso, minha impressão é que a população tem passado cada vez menos tempo cozinhando, e esta também é a impressão de Michael Pollan em Cooked. Apesar do sucesso de dezenas de programas de televisão, como o Master Chef, e do surgimento de estrelas gastronômicas, a gente não coloca a mão na massa e vai deixado esta responsabilidade para a indústria, quem tem se esforçado muito para isso.

O resultado é o aumento do consumo dos ultraprocessados, ricos em sal, açúcar, gorduras e outros aditivos químicos que são comprovadamente prejudiciais à saúde. Mas mesmo que não fossem danosos (acredito que um dia não serão), existem outros motivos para a gente não ingerir esse tipo de composto que eles tentam chamar de comida.

A gente tem visto o que acontece quando empresas ficam ricas demais. Seus diretores e acionistas aferem milhões por ano enquanto, com a ajuda da tecnologia que vem substituindo o trabalho humano, seus funcionários recebem salários cada vez menores. Com o lobby que é feito junto a políticos, direitos trabalhistas e previdenciários são cortados e são criadas cada vez mais facilidades para exploração predatória da natureza. Comprar dessas empresas é deixá-las cada vez mais fortes e aumentar o abismo da desigualdade de social que está afundando o mundo.
Nosso espaguete ao pesto
Ao cozinhar mais e, consequentemente, ter que comprar ingredientes frescos, estamos fortalecendo pequenas famílias como as nossas. Estamos ajudando um pai a pagar um curso de inglês para seus filhos, comprar material escolar, roupas novas e quitar todos os boletos do mês. Vamos fazer nosso dinheiro circular entre a gente pois esta é apenas uma das formas de nos proteger do futuro da precarização do trabalho.

Esta decisão precisa ser colocada em prática em todo nosso consumo. Sou um apaixonado pelo meu Kindle, em segundos tenho na mão qualquer livro que quiser, mas não vou dar meu dinheiro para Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo e que explora seus funcionários. Vou comprar com o Ronaldo, livreiro dos bons e pai da Mila Flor. Ou na Livraria Folha Seca, com o Digão, um dos maiores bebedores de cerveja da Rua do Ouvidor.

Como já comentei aqui, estou me encontrando semanalmente com um amigo para cozinhar. Desta vez foi espaguete ao pesto e talharim com molho de cogumelos portobello. A massa foi feita do zero e só utilizamos ingredientes frescos ou minimamente processados. Derrubamos duas garrafas de vinho no processo e a vivência proporcionada pela experiência indústria nenhuma vai conseguir substituir.

sábado, 26 de outubro de 2019

Bolsonaro e o miojo

Um amigo está querendo mudar seus hábitos alimentares e me pediu ajuda. Desde então, temos realizado encontros semanais na minha casa para cozinhar.

Não sou especialista, mas preparo praticamente todas minhas refeições. Minha dieta é totalmente baseada nas recomendações do Guia Alimentar Para a População Brasileira, uma das publicações mais avançadas do mundo no quesito orientações alimentares à uma população.

Demorou alguns anos para ficar pronto porque contou com ampla participação popular, de entidades ligadas à nutrição, consultas públicas em todos os estados da federação, consulta on-line e amplo debate. O resultado é incrível, e uma das dicas é ensinar os outros a cozinhar, coisa que tenho feito.

Além das questões nutricionais, o Guia também tem preocupação em incentivar o consumo de alimentos socioambientalmente responsáveis e que contribuam com a distribuição de renda e defesa do patrimônio cultural do país. Basicamente, são quatro dicas:

- Fazer dos alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação, preferencialmente agroecológicos ou oriundos da agricultura familiar;

- Utilizar em pequenas quantidades os ingredientes culinários para temperar a comida, como o sal, açúcar, óleos e gorduras;

- Limitar o uso dos processados, utilizá-los apenas como complemento das receitas; e

- Evitar, sempre que possível, os ultraprocessados.

O Guia foi criado para pautar não apenas o consumo individual e familiar, mas também como orientação para profissionais de saúde, instituições e para criação de políticas públicas. Vai além das escolhas individuais, algumas mudanças no ambiente são necessárias e incentiva a participação popular para pressionar o governo na criação de políticas que promovam a alimentação saudável.


A obesidade é um problema sério no Brasil, com mais da metade da população com sobrepeso. São crescentes números de doenças crônicas como diabetes, doenças cardíacas, tanto em adultos quanto em crianças. Desta forma, é papel do governo incentivar práticas que melhorem a alimentação do brasileiro.

Quando o presidente se recusa a participar de um banquete oferecido pelo imperador do Japão, para não ter que experimentar a culinária local, e posta uma foto fazendo um miojo, ele não está violentando apenas a cultura do país onde está hospedado, mas também passando uma mensagem extremamente negativa ao seu povo que atualmente enfrenta sérios problemas de saúde.

Vocês não fazem ideia da minha indignação. A gente aqui, no cotidiano, no miudinho, tentando transformar esse país num lugar um pouquinho melhor, ver uma cena dessa é extremamente desanimador. Mas esses canalhas não vão me deixar doente, não vão me enfraquecer. Domingo tem feira, e macarrão caseiro com molho pesto e molho de cogumelos.

Avante.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Bar do Zé Goleiro

Bar do Zé Goleiro
O Bar do Zé Goleiro fica literalmente no meio de um imenso canavial, Fazenda Boa Vista, com acesso através de uma estrada de terra distante quase 12 quilômetros da rodovia. Trinta minutos de carro, chão esburacado e com pedras em muitos trechos que requerem direção cuidadosa, já que não há sinal de celular, ou seja, ninguém gostaria de enfrentar um problema mecânico nestas situações. Confesso que não confiei no GPS e fiquei com vontade de dar meia volta, mas a viagem valeu muito a pena, certamente um dos melhores e mais inusitados bares que visitei.

A casa é centenária, surgiu como armazém para atender colonos, em sua maioria italianos, que chegavam à região no Século XIX para cuidar das plantações de café em substituição à mão-de-obra escrava. Zé Goleiro assumiu a direção do estabelecimento comprado pelo sogro em 1937 na década de 80. Falecido com 69 anos em 2009, hoje seus filhos Fernando e Maria José tocam o bar que abre diariamente.

Sentando debaixo da sombra das árvores, aproveitando a brisa fresca no quentíssimo município de Guatapará, Heineken gelada na mesa, é impossível não pensar como se mantêm um estabelecimento localizado em lugar tão ermo e de difícil acesso. Durante o auge da colonização européia, milhares de trabalhadores ocupavam as fazendas da região e compravam em armazéns, conhecidos também como vendas, alimentos e itens de necessidade diária. É possível supor que existiam centenas de estabelecimentos do tipo, que foram fechando tão logo o trabalho manual foi sendo substituído pelas imensas máquinas agrícolas e os colonos perderam importância na manutenção das plantações. Felizmente uma dessas casas, por motivos sociais e culturais que analisarei abaixo, conseguiu se manter.
O caminho
Não gosto de escrever sobre um lugar depois de apenas uma visita, mas conversando com Fernando e observando o movimento tirei algumas conclusões sobre o sucesso do bar.

1) A estrada de barro vermelho esburacada é péssima para carros, mas é excelente para praticantes de off road. O movimento de jipes e motos para esse terreno é intenso, e esse é basicamente o principal público do bar. Em menor escala, mountain bikers também se aventuram por lá;

2) Caminho da Fé: com partida no município de Sertãozinho, milhares de peregrinos passam anualmente em frente ao Zé Goleiro com destino à Aparecida do Norte. São 550 quilômetros e várias cidades cruzadas em 25 dias. Muitos optam por fazer o caminho pedalando, caindo para aproximadamente 11 dias o tempo de travessia. A fé realmente é uma coisa impressionante, caminhar debaixo do sol escaldante aquele trecho inóspito é uma atividade hercúlea;

3) Cruz do Pedro: outro ponto de fé e peregrinação, a história da capela que fica a 800 metros do bar começou com o assassinato de Pedro, com 9 anos de idade, em 1885. Todo dia 29 de junho acontece uma grande festa de graças. Também visitei o lugar e escrevi sobre ele aqui.

Acredito serem esses as três principais características que permitiram o Zé Goleiro continuar funcionando. Para nossa alegria.
A caipirinha de vinho
No cardápio, costelinha frita, frango à passarinho e linguiça picante e normal vinda de Dumont, cidade onde nasceu o pai de Santos Dumont, cuja fazenda era frequentada pelo futuro criador da aviação. É famosa por suas linguiças, que realmente são muito boas.

Para beber, cervejas e a inusitada caipirinha de vinho, servida num desses vidros de meio litro usados para vender palmitos. É bem doce, mas a combinação de vinho, açúcar, gelo e limão é muito gostosa.

A decoração do Bar do Zé Goleiro também merece ser citada. Prateleiras de madeira e diversos itens pendurados no teto, como panelas, chuveiros, gaiolas, cabaças, instrumentos musicais e ferramentas. O fogão onde são fritos os petiscos fica logo atrás do balcão, tornando possível assistir o preparo.

O silêncio quebrado apenas pelo som dos passarinhos impressiona. O vento balançando o canavial me fez querer voltar em época de colheita, para ver as imensas máquinas retirando mecanicamente a cana e o transporte naqueles caminhões canavieiros. O movimento deve ser intenso.

Sem dúvida um dos melhores bares que já fui.

O 'salão'

Zé Goleiro na foto

O balcão

O bar
Fontes:

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Bar do Guarabira

Guarabira e o pernil no tempero para ir ao forno no dia seguinte
Tenho um amigo que passou um tempo na Holanda e preparou um jantar tipicamente brasileiro para seus colegas, no caso, estrogonofe. Ficou surpreso quando todos separaram a batata do arroz, escolhendo apenas um acompanhamento para comer com a carne picada. Eles não misturam dois ou mais tipos de carboidratos, ao contrário do Guarabira.

Nascido na Paraíba, como toda minha ascendência, abri um sorriso ao ver no FP macarrão, batata e arroz, além do feijão mulatinho e da rabada, exatamente como minha mãe faz. Misturar arroz com macarrão parece que é uma tradição desta parte do Brasil, que teve na escassez a base de sua cultura alimentar.

O Bar do Guarabira fica no Santo Cristo, bairro periférico do Porto Maravilha que possui grande quantidade de retirantes que migraram em busca de trabalho e se estabeleceram na região à revelia do poder público. Ao lado do Morro da Providência, primeira favela do país, cuja formação inicial foram os soldados do massacre de Canudos e suas famílias. Inicialmente era interessante ignorar essas populações, que forneciam mão-de-obra barata para a Zona Sul, mas agora a presença dessas pessoas começa a incomodar.

Rabada do Guarabira com arroz, feijão mulatinho, batata e macarrão
A 300 metros do bar fica o Rua City Lab, laboratório de experiências urbanas financiado pelo Odebretch com o objetivo de mudar a cultura popular do bairro para uma mais próxima da Zona Sul, branca, jovem e empreendedora. Uma tentativa de estender o Boulervard Olímpico até aquela área, trazendo junto investimentos em espigões comerciais envidraçados e condomínios de classe média-alta. Mas, como já disse aqui, esta experiência caminha para o fracasso. Ainda bem.

O Bar do Guarabira oferece muitos itens tipicamente nordestinos, como pimentas, biscoitos, rapaduras, feijões e farinha, além de um pequeno hortifruti e produtos de mercearia. Não possui petiscos no cardápio, apenas refeições carregadas na sustança durante todo o dia, com gente, inclusive, almoçando cabrito às dez da manhã.

O cabrito, aliás, vem de Xerém, trazido por um fornecedor especial. Aos sábados o vendedor de caranguejo passa na porta do estabelecimento, deixando a corda por vinte reais, preparada pelos clientes assíduos no leite de coco para acompanhar o Campari com Sprit, gelo e limão no domingo.

Caranguejo ao leite de coco, cortesia de um cliente assíduo da casa
Lá não existem petiscos no cardápio, mas o Guarabira pode prepara um prato com a carne do dia e aipim ou batatas cozidas por quinze reais. Ali tudo tem jogo.

Cabrito de Xerém com apim

Bar do Guarabira
O lugar é um primor, comida deliciosa, barata e ambiente pitoresco. Não vou dar o endereço, fica ao lado do antigo Mundial do Santo Cristo. Se quiser ir, me envia um e-mail que passo as coordenadas e vou junto.

Bar do Guarabira
Santo Cristo, ao lado do antigo Mundial
PF: R$12
Petisco (carne do dia): R$15
Preços de dezembro/16

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Manel da Galinha

Salão do Manel da Galinha
Comer é um ritual que ultrapassa o simples ato de levar a comida à boca, mastigar e engolir. Às vezes é um processo que pode levar anos, como minha ida a Tinguá no feriado.

A primeira vez que estive nesse bairro de Nova Iguaçu foi a trabalho, e um local me levou para comer uma famosa galinhada num bar beirando o rio. Isso em 2010, desde então vinha nutrindo o desejo de retorno sem compromisso profissional, fato consumado no feriado de Nossa Senhora de Aparecida.

A viagem saindo do Centro do Rio é longa: metrô até a Pavuna e ônibus até Tinguá, que por quase duas horas passa por São João de Meriti, Belford Roxo e seus bairros pobres com ruas esburacadas e sem asfalto, e Nova Iguaçu, cruzando por baixo o Arco Metropolitano. Como eu disse, comer é uma experiência completa que muitas vezes exige sacrifícios.

Felizmente encontrei meu amigo a anfitrião, vendedor de coco e mel de abelha nervosa na praça, que me indicou o caminho até o Manel da Galinha. No limite entre a Reserva Biológica Federal de Tinguá, Patrimônio da Humanidade pela Unesco e, que além de Nova Iguaçu, abrange outros cinco municípios da Baixada Fluminense, corre um rio que oferece suas limpas águas aos clientes dos diversos bares à sua margem.

Por apenas vinte reais, minha digníssima e eu comemos até estufar a barriga e rezar por uma rede. A galinhada, servida apenas às segundas e quartas, é feita com animais comprados em aviários locais e servida com arroz e feijão mulatinho com maxixe. A carne é um pouco mais dura do que aquela comprada no supermercado, mas compensa em sabor.

O maxixe é o fruto de uma trepadeira muito consumido no nordeste, com galinha e no feijão. Parece uma mamona gigante e ovalada que, cozido e fatiado, também pode ser acrescentado na salada. Não é muito utilizado no Rio, tendo sua venda concentrada em supermercados e quitandas próximas de núcleos nordestinos. Seu sabor é suave, neutro, meio como o chuchu.

Sem cerimônia, utilizando as mãos, comemos e roemos os ossos, lambemos os dedos e limpamos a boca com o braço, regando tudo com cerveja. Para não dormir na cadeira, um banho no rio.

É um lugar popular e familiar, com muitas crianças correndo e pulando nas águas geladas. Muitos preferem levar seus farnéis. A única coisa que me incomodou foi a música alta tocando funk e pagode.

Galinhada do Manel da Galinha, em Tinguá

Galinhada do Manel da Galinha, em Tinguá

Placa do Manel da Galinha

Piscina natural

Mesas e cadeiras no rio

São aproximadamente 15 minutos de caminhada da praça de Tinguá até o Manel da Galinha. Não vou dar instruções de como chegar, se quiser pergunte ao Seu Nonô, na barraquinha de coco, ou me manda um e-mail. Recomendo ir parando nos outros bares ao longo do rio, como o Cris Bar, com música e ambiente mais agradável, no Poço da Caixa D'água.

Cris Bar

Cris Bar

Serviço:
Manel da Galinha
Galinhada para duas pessoas: R$20 (valor de outubro de 2016)
Como chegar: pergunte ao Seu Nonô na barraquinha de coco na praça de Tinguá.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A última do português*


Os primeiros foram chegando logo após o almoço. O óleo que esquentou lentamente abraça os primeiros bolinhos de bacalhau do dia. Alguns são servidos imediatamente e outros abastecem a estufa. Cervejas vão sendo consumidas quando, às dezoito horas, o movimento aumenta. 

Em silêncio, terminávamos o dia trinta e um de agosto com semblantes de tristeza. O país tinha acabado de sofrer um golpe de estado. Outra porção de bolinhos. As poucas palavras pronunciadas eram de tristeza e conjecturas sobre o futuro daquele que nos trazia mais uma garrafa.

Candido Torres chegou ao Brasil ainda adolescente e passou a vida indo do salão que ocupávamos à cozinha. Começou ao lado do pai e depois, com o irmão, o restaurante Singapura ganhou a alcunha que deveria ter sido sua verdadeira razão social: Bar do Candinho.

Quando aberto, há 54 anos, o balcão exibia postas generosas de bacalhau, lulas, polvos e graúdos camarões. Era uma casa executiva que alimentava com pratos portugueses altos funcionários de empresas do entorno. Aos poucos, as empresas foram fechando e mudando. A região foi esvaziando e o entusiasmo inicial diante dos primeiros boatos sobre a "revitalização" foi gradativamente sendo substituído por apreensão sobre o futuro.

Já passam de dois anos e meio que a Rua Pedro Ernesto está com suas entranhas abertas, com trânsito fechado para carros e desafiando os pedestres. A poeira entrando no salão e a lama em dias de chuva afastaram os fregueses, mas Candinho nunca se deu por vencido, até o dia em que chegou a ordem de despejo do proprietário que vendeu o prédio, exigindo urgência na desocupação.

Há poucos metros dali fica o Moinho Fluminense, que em breve se tornará um shopping e seus silos abrigarão quartos de um luxuoso hotel. Com VLT passando na porta, em pouco tempo a Praça da Harmonia passará por uma transformação que nos deixa apreensivos. Será que conseguiremos continuar pagando os aluguéis? Qual proprietário fará a próxima venda? Para alguns, "revitalização" significa expulsar populações tradicionais de seus territórios.

Com mais gente chegando, os assuntos vão se diversificando. As vozes, antes contidas, aumentam de volume. Com o fim das cerveja, o vinho rascante de garrafa PET foi sendo servido. Os bolinhos acabaram, vieram batatas fritas e ovos fritos com gema mole.

Risadas finalmente vão tomando conta do ambiente e todos se divertem com a rispidez do português negando os pedidos de fotografias. Mas aos poucos o turrão vai cedendo, sorrindo e, depois de galhofas, discursos emocionados e de gritos cadentes de todos os amigos (Candinho! Candinho! Candinho!), ele se esconde na cozinha numa tentativa frustrada de evitar que nós víssemos suas lágrimas. Alguns falaram que foi a primeira vez que Candido Torres chorou.







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* A Última do Português é o enredo do carnaval 2017 da escola de samba Vizinha Faladeira, também localizada na Região Portuária do Rio.