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quinta-feira, 14 de março de 2024

Resenha: O Despertar do Universo Consciente

Essa semana fui assistir uma palestra do Marcelo Gleiser, cientista conhecido como Carl Sagan brasileiro. Astrofísico e divulgador científico, com vários livros escritos, protagonizou no Fantástico uma série sobre o universo aos moldes de Cosmos.

Seu mais recente livro, "O Despertar do Universo Consciente", apresenta uma abordagem sobre como a humanidade percebe a si mesma e o universo que a cerca. Gleiser argumenta que essa nova perspectiva tem o potencial de transformar o mindset das pessoas, instigando mudanças em seus hábitos para conter o processo destrutivo que ameaça levar à nossa própria extinção.

A questão central abordada por Gleiser é que a humanidade está destruindo o planeta em parte devido à sensação de insignificância diante da vastidão do universo. Com trilhões de galáxias e trilhões e trilhões de estrelas e planetas, a Terra parece ser apenas um pequeno ponto sem importância nesse cenário grandioso.

Por outro lado, a probabilidade de um planeta abrigar vida é extremamente baixa, o que torna a existência da Terra quase um milagre em si mesma. Gleiser argumenta que precisamos abandonar essa visão de nos percebermos como insignificantes na vastidão do universo e adotar uma perspectiva centrada na vida, reconhecendo a improbabilidade e o valor único que ela representa.

Essa mudança de paradigma, que Gleiser chama de visão biocêntrica, implica em colocar a vida no centro de nossa relação com o cosmos. Quando todos os seres humanos reconhecerem a raridade e a preciosidade da vida, estaremos no caminho para transformar nossa relação com o planeta e, consequentemente, garantir nossa própria sobrevivência.

No final do livro, ele apresenta um manifesto com sugestões de mudanças individuais que seriam capazes de salvar o planeta, como comer menos carne, por exemplo. 

Agora vamos aos meus comentários.

Não acredito que a humanidade esteja relapsa com o planeta por causa desta cosmovisão que implica em enxergar-nos como um pequeno ponto azul e insignificante na imensidão do universo. Eu até gostaria que fosse verdade, queria que as pessoas tivessem tempo livre e condições para refletir sobre seu lugar no universo, mas a realidade é o contrário disso. O negacionismo ganha espaço a cada dia, junto com terraplanismo, movimentos antivacinas e extremismo religioso que querem colocar livros religiosos no lugar da Constituição.

Esse tipo de reflexão pode até ser comum na bolha do Gleiser, composta por intelectuais e alunos das universidades estadunidenses de primeira linha onde ele dá aulas, mas o cotidiano do cidadão comum é outro. Estamos preocupados em sobreviver, em colocar comida na mesa e garantir o mínimo de saúde mental.

O atual estado de destruição ambiental que enfrentamos é em grande parte culpa do capitalismo. Este sistema, que favorece o acúmulo de capital por uma pequena parcela da população, coloca os interesses individuais desses poucos acima da saúde do planeta. Enquanto o 1% mais rico prioriza o acúmulo de riqueza, a capacidade da natureza de se regenerar é comprometida. Enquanto isso, os 99% mais pobres precisam recorrer a práticas não sustentáveis para sobreviver e têm pouca ou nenhuma margem para considerar as consequências de longo prazo de suas ações. 

Assim, o capitalismo destrói o meio ambiente ao mesmo tempo em que mantém uma desigualdade social brutal, tanto na distribuição dos recursos quanto no poder para implementar mudanças significativas em prol da sustentabilidade.

Outra questão que quero abordar são os hábitos individuais como motor para a salvação do planeta. Economizar água em casa e separar lixo para reciclagem são ações importantes e podem ter um impacto positivo no meio ambiente. No entanto, não é suficiente para salvar o mundo da destruição, isso porque as grandes corporações e indústrias são as principais responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa e da poluição ambiental.

O mais curioso da palestra foi que Gleiser cita uma conversa que teve com Ailton Krenak, autor do livro Ideias Para Adiar o Fim do Mundo. Mas, para Krenak, achar uma alternativa ao capitalismo para nos livrar da extinção tem mais centralidade do que mudanças individuais de comportamento. Este sistema, além da lógica predatória que leva à crise ambiental, produz alienação do ser humano e uma brutal desigualdade social.

Importante frisar que eu não estou defendendo o comunismo. Só estou dizendo que precisamos de uma alternativa ao atual sistema econômico urgentemente.

Em resumo: qualquer abordagem para salvar o mundo sem enfrentamento ao capitalismo é ingênua. Não basta "mudar o mindset", é preciso organizar a luta coletiva para avançar.

* Este texto foi escrito com ajuda de inteligência artificial para garantir clareza e fluidez.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Chuva todo dia de finados

Há 10 anos que eu coloco no Facebook se choveu ou não no dia 2 de novembro, data que muita gente tem certeza que sempre chove. Neste período, choveu 5 dias e não choveu nos outros 5. 

Ano passado resolvi fazer diferente e utilizar o método científico para provar que essa crença não faz o menor sentido, mas o Brasil é uma terra onde o analfabetismo científico impera, vide a quantidade de pessoas que se recusaram a tomar vacina mas se trataram com cloroquina contra a covid, usa homeopatia e acredita em astrologia.

Peguei dados públicos dos pluviômetros espalhados pela cidade, planilhei e coloquei num dashboard que pode ser visitado no link abaixo. No vídeo explico com fiz.


terça-feira, 28 de junho de 2022

Ratanabá

Assisti um trecho da entrevista do ator Sandro Rocha, famoso por Tropa de Elite, na qual ele fala da cidade subterrânea de Ratanabá (uma civilização que teria habitado a Amazônia há milhões de anos) e lembrei na hora do Sr. Buckley, motorista que buscou Carl Sagan no aeroporto certa vez. A história é contada no livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios, que é uma das publicações mais importantes para mim.

O Sr. Buckley ficou feliz ao ver que seu passageiro era um cientista famoso e resolveu conversar sobre ‘ciência’: alienígenas presos pelo governo estadunidense, máquinas que conversam com os mortos, o poder de cura dos cristais e Atlântida, cidade extremamente avançada que também teria submergido após um cataclisma geológico. O que Sandro Rocha e o Sr. Buckley têm em comum, além de acreditar em sociedades altamente desenvolvidas que nunca existiram? Ambos são curiosos e querem descobrir os mistérios do universo, condições necessárias para se fazerem cientistas.


Sagan tenta entender em que ponto a sociedade errou e deixou essas pessoas se perderem nas bobagens das pseudociências. Sem focar em questões individuais, esse é um problema que precisa ser tratado de forma coletiva.

A sociedade está permitindo que teorias da conspiração sejam espalhadas pelos seus canais, trazendo confusão às pessoas que acabam não aprendendo a distinguir a ciência verdadeira de sua imitação barata.

Sagan também alerta para o desmonte das instituições científicas públicas e de como isso pode servir de base para ideias extremistas. Parece que ele estava escrevendo sobre o Brasil de hoje, e naquela época nem existiam os tios da zap.

Rocha e Buckley representam milhões de pessoas, e é urgente resgatá-los da escuridão.

terça-feira, 3 de maio de 2022

A farsa dos nutrientes

Licopeno, substância presente no tomate, combate câncer de próstata. O betacaroteno, presente nas cenouras, faz bem para os olhos. Isso faz bem pra aquilo. Aquilo faz bem pra aquilo outro.

Esses tipos de afirmações são comuns, vindas até de profissionais de nutrição e de veículos de comunicação respeitáveis. Hoje mesmo vi uma matéria na BBC falando que a beterraba ajuda a correr mais rápido. Mas por que essas alegações não são confiáveis e por que é perigoso reduzir os alimentos a uma mera combinação de nutrientes? Segue o fio.

Ciência difícil de fazer

Verificar o benefício que um nutriente traz a uma pessoa é uma tarefa quase impossível de ser realizada. É preciso analisar a dieta de milhares de pessoas ao longo de vários anos para perceber mudanças, muitas vezes subjetivas, de melhoras no desempenho de alguma função corporal*. 

Esse acompanhamento é feito por complicados questionários no qual os voluntários precisam responder sobre seu histórico alimentar a cada xis meses, mas as pessoas simplesmente esquecem como se alimentaram no período analisado, sem falar que também podem mentir sobre sua dieta e não saber a composição do que comeram (no caso de refeições feitas em restaurantes), o que complica ainda mais a coleta de dados corretos.

Fatores ambientais, como a prática de atividade física, tabagismo e alcoolismo, exposição à poluição ou agrotóxicos, e fatores genéticos são outras variáveis que interferem na saúde, fazendo com que o surgimento ou não de uma doença não possa ter relação com o nutriente que está sendo pesquisado. O tomate possui centenas de nutrientes, tornando ainda mais difícil saber qual deles é responsável pelos supostos benefícios que traz. Pode ser o licopeno, mas pode ser qualquer outro, ou a combinação de duas ou mais substâncias.

Ou seja: é impossível isolar uma variável num grupo de milhares de pessoas ao longo de vários anos e depois afirmar que ele previne alguma doença. 


Nutricionismo

O nutricionismo é a redução dos alimentos a sua composição química. A palavra é formada pela junção de ‘nutrição’ e ‘reducionismo’. O maior problema dessa abordagem é que a indústria alimentícia se apropria das afirmações de saúde ligadas à nutrientes para lançar produtos supostamente saudáveis.

E se a Coca-Cola colocasse licopeno em sua fórmula, isso faria do refrigerante uma bebida saudável (ou menos prejudicial)? Claro que não. Pesquisas mostram que o grande público é muito suscetível às mensagens publicitárias contidas nas embalagens de ultraprocessados e suas alegações de saúde, como as que estão presentes em biscoitos e bebidas lácteas. Um biscoito fortalecido com vitamina vai continuar sendo comida porcaria.

Outro fator a considerar é que os nutrientes isolados não demonstram os mesmos supostos benefícios do que os alimentos onde estão contidos, e suplementos alimentares têm se mostrado repetidamente inócuos.

O resumo é: não ligue para afirmações nutricionais que ligam nutrientes únicos a melhora de funções corporais; prefira alimentos frescos e evite ao máximo ultraprocessados. A indústria mente e vai fazer de tudo para te confundir.

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* exceto em caso de doenças causadas pela falta de nutrientes únicos, como o escorbuto. Felizmente essas doenças não fazem mais parte do nosso cotidiano.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Uma postagem pro inferno

A primeira vez que entendi a necessidade do brasileiro em acreditar em forças sobrenaturais para manutenção do cotidiano foi quando prestei serviços para a Telemar. Além do trabalho dos engenheiros, só mesmo o trabalho de entidades espirituais fortíssimas para fazer com que você tire o telefone do gancho e ele te permita falar com alguém em outro lugar.

Ainda hoje acredito que todos os dias de manhã um caboclo bafora fumava de charuto naqueles painéis para permitir que as ligações aconteçam.

Em nada me admira a Prefeitura do Rio fazer contratos com o Caboclo Cobra Coral. Só mesmo um ser de luz, muito evoluído, para não ter ressentimento contra uma população que literalmente exterminou seus antepassados para, ainda assim, dedicar um tempinho da sua existência para nos livrar de desastres naturais. Na boa? Se fosse comigo eu deixava era todo mundo morrer afogado.
Caboclo Cobra Coral
Escrevo isso para falar que ainda não estou acreditando que um cientista enviou dez amostras concentradas de coronavírus para diferentes laboratórios do Brasil por Sedex. É ou não é o prelúdio do apocalipse?

Se eu fosse o responsável pela postagem, meu ateísmo ia sumir mais rápido do que antivax correndo para fila de vacinação do covid. Eu ia ajoelhar na frente da agência dos Correios, acender 20 velas e rezar para todos os deuses conhecidos, praticamente uma cena da Porta dos Fundos.

Cada dia que passa eu tenho mais certeza que o fim do mundo vai começar no Brasil.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A filosofia do coentro

Tive uma professora de filosofia na faculdade que tinha a certeza absoluta que o comportamento humano é resultado único e exclusivo do meio, moldado pela cultura. Àqueles que pensavam na influência da genética e da biologia, como eu, ela apenas reservava um sorriso debochado como se estivesse dizendo: você é jovem, não sabe nada da vida ainda. Desde então, toda vez que leio alguma coisa sobre o assunto eu lembro dela.

Uma das coisas boas que 2018 me deixou foram os livros. Apesar dos pesares, a produção literária e científica continua avançado e nos dando um sopro de esperança.


Em O Gene, Uma História Íntima, o médico indiano Siddahartha Mukherjee traça toda a história da descoberta dos genes, começando nas primeiras reflexões sobre hereditariedade feitas pelos filósofos gregos. Passa pelo experimento das ervilhas de Mendel, a teoria da evolução, o projeto genoma até as mais recentes descobertas, entre elas, estudos comportamentais que provam que identidade de gênero, preferencia sexual, temperamento e personalidade são cingidos pelo DNA. A cultura, obviamente, tem influência, mas o ser humano quando nasce não é uma massa disforme que pode ser totalmente moldada pelo meio.

Difícil acreditar que já no Século XX uma docente universitária tenha esse tipo de pensamento, que começou a cair na década de 70. Mas sabe a diferença entre um filósofo e um geneticista? O geneticista faz experimentos. Dezenas de estudos com centenas de gêmeos idênticos e fraternos, criados em famílias separadas, já foram realizados e mostraram que os irmãos univitelinos possuem mais semelhanças de personalidade do que os bivitelinos, deixando claro que existe um fator hereditário na equação, apesar de ainda não terem sido localizados os genes comportamentais. Já o filósofo chega às suas conclusões partindo apenas de reflexões teóricas.


Não tem aqui nenhum juízo de valor, não estou dizendo que uma é melhor que a outra, só estou apontando as diferenças. As ciências duras tiveram origem na filosofia, mas em algum momento da história alguns resolveram testar suas hipóteses através de experimentos e criaram novos ramos do conhecimento.

O mapeamento genético avançado só foi possível graças ao avanço da capacidade de processamento de dados dos computadores, coisa de não mais do que vinte anos, ou um pouco menos. Como estes estudos levam muitos anos para serem realizados e precisam de muitos recursos, ainda não temos provas que apontam genes à personalidade, mas as evidências são claras e em breve novas descobertas confirmarão ainda mais a importância do DNA em nosso comportamento, desde nossas preferências sexuais até o gosto pelo coentro.

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Li Gene com o Youtube aberto para assistir aulas de genética para o Enem e relembrar conceitos básicos e entender melhor o livro. A forma que a vida encontrou para se multiplicar e evoluir é de extremamente bela, quase poética. A divisão celular, os cromossomos, o DNA... pensar em como tudo isso surgiu dá um nó na cabeça.

Apesar de Mukherjee não tratar de como a vida se originou no planeta, imaginar elementos químicos se combinando no fundo do mar, criando aminoácidos que juntos formaram esferas de gordura, as cariotecas primitivas, e dentro delas outros aminoácidos e açúcares criando os primeiros DNAs capazes de se multiplicar até chegar, em milhões de anos, a seres conscientes como nós é incrível. Algo tão improvável de acontecer que não duvido que sejamos os únicos seres inteligentes do universos, e olha que o universo é tão grande que beira o infinito.

Só em nossa galáxia, a Via Láctea, existem quatrocentos bilhões de estrelas, o que equivale a dez estrelas por cada grão de areia que tem na terra. E cada estrela pode ter vários planetas em volta, o que faz com que o número de lugares onde possa ter surgido vida consciente seja tão grande que nossa mente limitada não consegue nem imaginar. E isso apenas em uma galáxia, dentre as bilhões e bilhões que existem.

Os próximos temas que quero estudar são evolução das espécies e astronomia. Alguma recomendação de livros sobre estes assuntos, numa linguagem parecida com a utilizada por Harari (de Sapiens) e Mukherjee?

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Deus é um dragão na garagem

Carl Sagan foi um talentoso astrofísico que ficou famoso pelo seu trabalho como divulgador científico, explicando ciência para o público leigo. No livro O Mundo Assombrado Pelos Demônios ele conta a história do dragão na garagem:

Dois amigos estão conversando e um deles alega ter, em sua garagem, um dragão que cospe fogo. Ambos vão até lá mas quando a porta é aberta não é possível ver nada. Segue diálogo adaptado:

- Cadê o dragão?
- Ele é invisível, por isso não estamos vendo.
- Tudo bem. A gente pode, então, jogar farinha no chão. Assim, quando ele andar, poderemos ver as marcas das pegadas.
- Não vai dar. Ele flutua a alguns centímetros do chão, por isso não vai deixar pegadas.
- Sem problema, eu tenho óculos infravermelho lá em casa. Vou lá buscar para a gente conseguir ver o fogo e o calor do corpo dele.
- Ih, cara, também não vai funcionar. Ele não emite calor.
- Entendi. E se a gente jogar tinta nele? Assim poderemos vê-lo.
- Não vai rolar. O dragão é intangível.

Outros experimentos são propostos mas sempre é dada uma desculpa. Então, qual a diferença entre um dragão invisível, intangível e que não emite calor e um dragão inexistente?


Nada contra acreditar nesse dragão, mas neste caso caímos no campo da fé. As religiões são baseadas nisso, com imensas catedrais e milhões de fiéis que acreditam num ser sem que haja comprovação empírica de sua existência. A bíblia foi escrita por pessoas inspiradas pelo dragão da garagem.

Até pode aparecer alguém com a mão queimada dizendo que foi o animal que fez isso, mas sabemos que queimaduras podem ocorrer de outras formas, do mesmo jeito que alguém pode dizer que foi curado pela homeopatia quando a cura também se manifesta por outras vias.

Pegadas podem aparecer de manhã na farinha, mas será mesmo que ela foi feita pelo dragão?

Deus, astrologia, tarô, futurologia, homeopatia, enfim, todos nós temos dragões em nossas garagens. Qual é o seu?

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Olhar o mundo de forma crítica é ser livre

Cresci numa família de classe média baixa. Meus pais, nordestinos que vieram para o Rio em busca de melhores condições, nunca deixaram faltar comida e atendimento médico, mas alguns pequenos 'luxos' requeriam planejamento financeiro e espera, como a Coleção Guia Prático de Ciências, da antiga revista Globo Ciência (atual Galileu).

Numa época em que não existia internet e com apenas uma televisão em casa, com quatro ou cinco canais e preferência de uso dos adultos, com a hiperatividade inerente às crianças, fazer o tempo passar requeria habilidades muito diferentes das de hoje em dia. Por isso ainda lembro da caixa chegando com todos aqueles livros: capas duras e integralmente coloridos, 15 fascículos divididos em 5 temas: Como a Natureza, Corpo Humano, Universo, Terra e a Ciência Funcionam. Esses livros foram, sem dúvida, uma das minhas referências de vida mais importantes.

Foram dias no quarto folheando aquelas páginas e realizando as experiências que explicavam como tudo funcionava. Copos com bexigas e canudos para simular um pulmão, imãs e agulhas para fazer bússolas, pentes para demostrar a eletricidade estática, tudo ricamente ilustrado e com as devidas explicações. Uma obra primorosa.

Pouco tempo depois ganhei um microscópio. Era uma peça infantil, quase um brinquedo, mas suficiente para, na escuridão do quarto com as janelas fechadas, ficar observando pequenos insetos e folhas.

Minha terceira grande referência foi a Maquinha de Escrever. Utilizando papel carbono como fita e um disco giratório para escolher as letras, nela rascunhei meus primeiros 'papers'.

Maquininha de Escrever
Apesar de todos os indícios daquele período, não me tornei cientista mas aprendi a não cair em engôdos tão comuns hoje em dia, como homeopatia e astrologia. Conhecer a ciência e seus métodos é libertador.

Fatos científicos acontecem independentemente das crenças das pessoas. A gravidade vai funcionar para todo mundo, não importa qual é a sua religião, partido político, etnia ou orientação sexual, os objetos vão sempre cair. A mesma coisa acontece com a homeopatia. Suas crenças não significam coisa alguma, esse tipo de tratamento só funciona como placebo e nada mais pode ser dito a respeito. Ponto.

Muitas vezes me acham arrogante por defender de forma tão enfática determinadas coisas, mas eu acho o contrário. Nada mais arrogante do que acreditar que nossos pensamentos são capazes de mudar leis químicas e físicas que regem o universo. Nada mais pernóstico do que o pensamento 'a homeopatia funciona para quem acredita', como se o simples fato de acreditar fosse suficiente para mudar a constituição de moléculas e o destino da vida de alguém. Acredite: existem coisas que seus pensamentos não são capazes de alterar.

Conheço muita gente inteligente que acredita nessas coisas, amigos que tiveram excelente formação em várias áreas mas cujas escolas negligenciaram a ciência. Essas pessoas não têm culpa, a culpa é do nosso sistema educacional que não oferece atividades em laboratórios e a resolução de problemas e perguntas através do método científico: observação do fenômeno, elaboração de hipóteses, experimentação, análise dos dados e conclusão. E para piorar, o governo Bolsonaro vai afundar ainda mais a educação, já que alguns do seu quadro funcional são abertamente terraplanistas que defendem o ensino do criacionismo nas escolas. Estamos dando alguns passos para trás e tenho pena, e vergonha, no que essas crianças vão se tornar.

O recado deste texto é: ensinem o método científico para seus filhos. Estimular o pensamento crítico vai ser o grande diferencial no futuro. Oscar Wilde dizia que a maioria das pessoas não vive, apenas existe, por isso eu digo: para viver é preciso ser livre, e olhar o mundo de forma crítica é ser livre.

Ah! Ensinar programação também é importante.

Quero aproveitar e agradecer meus pais por terem aberto mão de tantas coisas por mim. Vocês são incríveis.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O que é ciência?

Quando eu era criança, todas as vezes que a escola mandava um recado para minha mãe ela tinha que assinar na marcação 'ciente' do bilhete. Assim, ela demostrava ter tomado 'ciência' da notificação. De forma abrangente, ciência significa conhecimento, mas quando lemos nos jornais que o corte das bolsas de pós-graduação da Capes em agosto de 2019 afetará a produção científica do país, 'ciência' assume outro significado.

Hoje, no titio's tutorial treteiro, vou explicar o que é ciência. Importante falar que isso aqui é o resumo do resumo do resumo.

As instituições

A ciência é produzida por um conjunto de instituições que utiliza o método científico para conseguir respostas. São elas:

Institutos de pesquisas: entidades públicas ou privadas que realizam as pesquisas. Diante de um problema ou pergunta, criam hipóteses que são testadas em ambientes controlados;

Congressos científicos: eventos nos quais são apresentadas pesquisas em andamento para, a partir da avaliação de outros pesquisadores, receberem feedback que podem contribuir com seu desenvolvimento;

Revistas científicas: quando um instituto conclui uma pesquisa, apresenta seus resultados através de um artigo para toda a comunidade. Esta pesquisa fica disponível para ser replicada por outras entidades, cujos resultados podem ou não ser os mesmos, abrindo caminho para refutação, ratificação ou surgimento de novas hipóteses a serem testadas. Antes da publicação, o artigo passa por uma rigorosa análise de outros pesquisadores, que avaliam se a metodologia foi bem desenvolvida e se os resultados são confiáveis;

Órgãos reguladores: antes de um novo produto desenvolvido nos laboratórios chegar ao mercado, órgãos governamentais (como a Anvisa) precisam se certificar que os eles não oferecem risco à população e que cumprem as funções descritas em seus rótulos. Eles avaliam a metodologia utilizada e podem solicitar novos testes. Passado por esse processo, temos um novo produto disponível aos consumidores, como um remédio, por exemplo. As pesquisas nas áreas das ciências humanas não passam por essa regulação já que suas investigações não resultam num produto físico.

Cabem duas ressalvas: 1) existem sistemas nacionais e internacionais que dão notas a todas estas instituições, de forma a avaliar a qualidade e nível de credibilidade de cada uma delas; 2) todo este sistema não é à prova de falhas, muitos resultados são forjados para favorecer determinadas indústrias, mas quando esses casos se tornam públicos os pesquisadores entram num limbo profissional e os institutos de pesquisa perdem credibilidade.

São outras instituições os financiadores e as universidades.

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O método científico

Conjunto de etapas que percorridas produzem o conhecimento científico. De forma resumida, o processo é iniciado a partir de um problema, pergunta ou observação de um fenômeno. Depois são levantadas algumas hipóteses que são testadas. Os resultados são analisados e podem-se chegar a uma conclusão ou ao retorno a uma das etapas anteriores.

Este método é aplicado em hipóteses que podem ser testadas ou falseadas através da observação de evidências empíricas, ou seja, evidências que podem ser percebidas através de um dos nossos sentidos.

Vamos supor que seu vizinho diga que na garagem dele tem um dragão. Você vai lá olhar e não vê nada. Então ele diz que é porque o animal é invisível. Você então tenta, sem sucesso, tocá-lo, mas desta vez a desculpa dada é que ele é intangível. O dragão também não exala nenhum cheiro e não pode ser detectado por nenhum tipo de equipamento. A única prova sua existência é o depoimento de seu vizinho. Esta evidência, o depoimento de uma pessoa, não pode ser testada, logo, teorias que não podem ser provadas através de testes não são consideradas científicas, são mitos. 

Outro exemplo: é comum ouvirmos relatos de pessoas afirmando que a homeopatia funcionou com elas, mas casos isolados não são suficientes para confirmar uma hipótese. Até existem alguns estudos que mostram resultado positivo na homeopatia, mas é preciso destacar duas falhas de metodologia: 1) o número de pessoas acompanhadas (N amostral) é muito pequeno com relação aos estudos conduzidos para se colocar um alopático no mercado (que pode chegar e dezenas de milhares de indivíduos em três grupos: clínico, controle e placebo), o que resulta numa falácia da generalização precipitada; 2) os resultados são superficialmente melhores do que os resultados do placebo. A homeopatia nunca passou por um escrutínio científico, e já foram realizados vários.

A falácia da generalização precipitada é quando o tamanho de uma amostra é insuficiente para sustentar uma generalização e evidência anedótica é uma evidência que só funciona para uma pessoa ou que não pode ser testada. A evidência empírica é aquela que pode ser observada por um dos nossos sentidos.

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Conhecimento tradicional, popular, ou cultura

Os remédios indígenas, feitos pelo pajé através da mistura de várias plantas, apesar de muitos possuírem efeitos reais de cura, não são ciência. Podemos dizer que são conhecimentos tradicionais, conhecimentos populares ou cultura, mas jamais podemos dizer que são ciência porque não passaram pelas instituições nem pelo método científico. Seus resultados foram conseguidos através de centenas de anos de tentativas e erros. Antes do surgimento da ciência, superstições, simpatias e feiticeiros eram utilizados porque eram as únicas opções disponíveis.

As ciências humanas

As ciências humanas também são ciências, exceto a filosofia e as ciências jurídicas, que tratam mais de outras questões, como a ética e a moral. A sociologia, por exemplo, utiliza muita estatística para avaliar grupos populacionais e a antropologia tem o sistema de parentesco. Pesquisas bibliográficas e coleta de testemunhos, técnicas muito utilizadas nas humanas, também se encaixam no método científico.

A psicologia utiliza pesquisas quantitativas e qualitativas, experimentos controlados e observações em ambientes naturais.

As pseudociências

A ciência é extremamente respeitada pela população, por isso algumas pessoas travestem determinados conhecimentos de ciência com o objetivo de ganhar credibilidade, mas quando olhados de perto percebemos que algumas etapas não foram realizadas. Exemplos: homeopatia, astrologia, psicanálise, numerologia entre muitas outras.

Pode uma pessoa comum fazer ciência?

Quando um parente seu fica doente e você receita um remédio, isso é fazer medicina? Quando seu vizinho desenha um quartinho no quintal e pede para um pedreiro construir, ele está fazendo arquitetura ou engenharia? Pode-se produzir ciência na garagem de casa? A resposta é: depende.

Como vimos, o produzir ciência passa por diversas instituições. Para ganhar o carimbo 'comprovado cientificamente' a pesquisa precisa ser replicável, da aprovação da comunidade e ser publicado numa revista.

A indústria

A indústria frequentemente paga por pesquisas que permitam a comercialização de seus produtos, mesmo que os resultados sejam forçados e isso custe a vida dos consumidores. As fabricantes de cigarros são um grande exemplo, que apresentavam 'estudos' que comprovavam benefícios em saúde do fumo. Agora os agrotóxicos estão passando pelo mesmo escrutínio público, assim como as farmacêuticas.

O que cabe ressaltar nestes casos é que essas falsas pesquisas são refutadas com ciência. Estudos idôneos são conduzidos e através da metodologia aqui apresentada escancaram os interesses desses grupos que podem sofrer sanções penais por esta conduta.

Resumo

Hoje aprendemos que nem toda produção de conhecimento é ciência. Os saberes que não passaram pelas instituições científicas são saberes tradicionais, populares ou cultura. 

As pseudociências, como a homeopatia, tentando ganhar credibilidade da sociedade, se travestem de ciência mas suas hipóteses nunca foram comprovadas pelo método científico. Logo, são mitos.

A ciência nunca é feita só por uma pessoa ou instituição. Precisa passar por um conjunto de entidades, ser replicável e testável.

Falsos resultados apresentados pela indústria são refutados com mais ciência, e não com menos.

A ciência não vende verdades absolutas. Diante de novas evidências, coloca as conclusões anteriores em xeque e parte na busca de novos resultados. É um exercício de humildade e a melhor coisa que a humanidade já criou.

Referências (algumas)
Armadilhas do Pensamento - Evidências Anedóticas

Falseabilidade

terça-feira, 24 de julho de 2018

Homeopatia: Guia Definitivo

Veneno de cobra, fígado de pato e besouro moído. O que parecem ingredientes do caldeirão da bruxa na realidade são algumas das matérias-primas utilizadas na fabricação de remédios homeopáticos.

Acredito que muita gente acha que a homeopatia é uma opção válida porque não sabe como ela é feita. Senta que lá vem polêmica. Hoje o titio vai mostrar como essas bolinhas são produzidas. Se mesmo assim você continuar achando que existe alguma possibilidade de cura, eu desisto da humanidade.

O princípio

A principal regra da homeopatia é 'semelhante cura semelhante'. Ou seja, o princípio ativo, que pode ser de origem animal, vegetal ou mineral, precisa causar um efeito semelhante ao da doença que se quer combater. Um exemplo real é a cebola. Quando cortamos cebola nossos olhos ardem e lacrimejam, e podemos também ficar com o nariz escorrendo. São sintomas parecidos com o da gripe, logo, aplicando o princípio do semelhante cura semelhante, esse bulbo é diluído e utilizado no combate à gripe.

A diluição e a agitação (dinamização)

Fonte da imagem
Esta é uma etapa importante do processo de fabricação. Os remédios homeopáticos são nomeados de acordo com o princípio ativo em latim seguido de um número, que indica a diluição. Allium cepa 6Ch quer dizer que a cebola (Allium cepa) é o princípio ativo (PA) diluído em seis centesimais Hahnemaniana (6Ch).

A centesimal Hahnemaniana consiste na diluição de uma parte da matéria-prima em noventa e nove partes do excipiente, que pode ser lactose, sacarose, álcool 70% entre outras opções. A chamada Tintura Mãe (TM) é a base para confecção dos medicamentos e contém 1% do princípio ativo. A partir dela são realizadas outras diluições e agitações. 

Para se chegar a 1Ch é utilizada uma parte da tintura mãe para noventa e nove partes do excipiente, ou seja, o resultado final desta dinamização fica com apenas 0,01% do princípio ativo em sua composição.

Para chegar ao 2Ch, pega-se uma parte da substância 1Ch e dilui-se novamente em noventa e nove partes do excipiente. Desta forma, no final da diluição, restam 0,0001% do PA.

Para chegar ao 3Ch, pega-se uma parte da substância 2CH e dilui-se em noventa e nova partes. Assim, restam 0,000001% da substância original.

Quando chegamos a 10Ch, a proporção é equivalente a uma gota do princípio ativo derramada em todos os oceanos da terra, que é agitado e ingerido de forma aleatória pelos pacientes. Em 13Ch já não existe nenhum resquício do fármaco. 

Vamos analisar um exemplo real: no site da Ultrafarma, a Allium cepa 6Ch está sendo vendida por R$21,60. Vamos ler a descrição do produto:


Alliun cepa 6Ch Boiron Glóbulos
Excipientes: sacarose e lactose

Boiron é o laboratório e glóbulos é o formato (aquelas bolinhas). Ou seja: são bolinhas de açúcar (no caso são utilizadas a sacarose e lactose) com 0,000000000001% de cebola (6Ch).

Neste site gringo é possível comprar a Alliun cepa em até 15 e 30 Ch, e, como vimos acima, essa diluição já não armazena mais nenhuma molécula da cebola. É, literalmente, apenas açúcar.

Na boa, tente colocar a razão para funcionar: você realmente acha que açúcar com cebola é suficiente para tratar a gripe? Veja bem: É SÓ A PORRA DE UMA CEBOLA! E em muitos casos não fica absolutamente nada da cebola, apenas o açúcar.

Na wikipedia você pode ver outras substâncias utilizadas na homeopatia. Partes de pato (penas, fígado e coração), veneno de cobra, orquídeas, conchas de ostras, mel, carvão, enxofre entre outras, que são diluídas até proporções que não deixam nenhuma molécula do princípio ativo.

Outros exemplos:

A Belladonna atropa é uma planta extremamente venenosa. Uma única folha ingerida por um adulto é capaz de matar. Causa febre e alucinações, logo é usada para combater doenças com estes sintomas.

Leite de cadela (lac caninum) também é utilizado para aumentar ou secar a quantidade de leite e dores nas mamas. Meu amigo, pense bem: você realmente acha que pingar leite de cadela na boca de alguém vai curar alguma doença? Esse é, sem dúvida, um dos exemplos mais absurdos da homeopatia. Se você ficou curioso, usa-se leite de labradora.

Um zueiro na farmácia

Se uma pessoa má intencionada entrar numa farmácia de manipulação a noite e trocar os comprimidos de frascos, ninguém nunca mais será capaz de fazer a reposição correta. Nem mesmo os mais avançados microscópios e a tecnologia mais moderna para identificação da composição química de substâncias é capaz de reconhecer os fármacos utilizados na produção da homeopatia, porque, como já vimos a medicação é tão diluída que não sobra nenhuma molécula do princípio ativo.

Suicídio homeopático

Diversos países, entre eles Inglaterra, Espanha, Bélgica e Brasil, já realizaram o evento suicídio homeopático, no qual manifestantes ingerem vidros inteiros do composto a base de belladonna, o mais venenoso da lista de ingredientes utilizados. Obviamente ninguém nunca morreu.

Memória da água

Setenta por cento do nosso corpo é água e repomos toda ela em poucos dias. Ou seja, a água que está hoje dentro de você já esteve nos oceanos, já foi chuva, esgoto, já foi bebida e urinada por dinossauros, irrigou plantações e já percorreu tantos lugares quanto nossa imaginação é capaz de criar.

Em homeopatia, memória da água refere-se à suposta capacidade da água reter propriedades de substâncias que nela estiveram diluídas, mas que não mais se encontram ali. É a desculpa que aqueles que acreditam em seus efeitos dão para justificar seu suposto funcionamento. Mas, se levarmos esta teoria em consideração (coisa que nunca foi provada), ela deveria guardar também as propriedades da urina, esgoto entre outras substâncias com as quais teve contato em seu histórico.

Fatos não são suficientes

Agora você já sabe tudo que precisava saber sobre homopatia. Se ainda assim você continua acreditando nesta bobagem, eu só posso lamentar. Infelizmente, certas crenças são tão arraigadas que nenhum fato ou prova é capaz de fazer com que as pessoas mudem de ideia. Tem gente que até hoje acredita que o filho do Lula é dono da Friboi, mas você não precisa ser uma dessas pessoas.


E para finalizar... uma piada


quinta-feira, 19 de julho de 2018

Existem níveis seguros para uso de agrotóxico?

Tenho um amigo que cansou da vida na cidade grande e virou agricultor. Foi um processo de anos, enquanto trabalhava nos escritórios de grandes empresas ia estudando bioconstrução, produção de alimentos orgânicos, controle natural de pragas, foi pesquisando terrenos para comprar e adquirindo as demais habilidades necessárias. Neste ínterim, conheceu um produtor que utilizava agrotóxicos nos vegetais que seriam vendidos na feira, mas aqueles que seriam consumidos pela sua família eram cultivados separadamente.

Quando uma pessoa desenvolve um câncer, são dezenas de fatores que podem ter influenciado o surgimento da doença. Sedentarismo, fatores genéticos, fumo, poluição do ar e da água, alimentação (excesso de sal, açúcar, gordura e aditivos químicos), tóxicos adicionados em milhares de produtos, desde cosméticos, recipientes plásticos para conservação de alimentos, roupas e utensílios domésticos, contato prolongado com certos equipamentos eletrônicos, remédios, radiação e até vírus são apenas alguns dos exemplos. Apontar a influência de cada um desses fatores é um prognóstico sujeito a grande margem de erro.

As pesquisas nesta área precisam utilizar animais em laboratório, que possuem um ciclo curto de vida e todas estas variáveis podem ser isoladas. Impossível começar esses testes com seres humanos, que podem viver 80 anos e cujos hábitos diários não são monitorados com eficácia, dependendo, basicamente, de anotações enviadas aos pesquisadores.

O que quero dizer é o seguinte: quando alguém desenvolve um câncer, só é possível apontar as causas da doença em situações extremas, como quando vários trabalhadores rurais são expostos a agrotóxicos sem proteção adequada. Ou trabalhadores das minas de carvão ou amianto. Tirando esses casos, fartamente documentados, um médico só pode indicar os diversos fatores de risco num paciente que não passou por estes extremos, como eu e você, por exemplo.

Diante deste cenário, a ciência ainda não achou uma única pessoa que tenha morrido por conta do consumo de alimentos cultivados com agrotóxicos. Existem muitos indícios dos riscos inerentes quando os protocolos de segurança não são adotados, mas um nome, um rosto com CPF cuja causa da morte tenha sido a ingestão regular de alface tratado com defensivos agrícolas ainda não surgiu. E mesmo se existisse, são centenas de venenos utilizados e apontar a influência de cada um deles é uma atividade tecnicamente impossível de ser realizada.

Essa lacuna é responsável pela quantidade absurda de agrotóxico que nós, brasileiros, consumimos todos os dias. É esse argumento utilizado pelo agronegócio para nos entubar alimentos contaminados. E que já era ruim, pode piorar. A PL do Veneno tá vindo aí.

A revolução verde

Durante quase toda a existência da humanidade, a escassez de comida foi a regra. Foram apenas nas últimas décadas, durante a revolução verde, que conseguimos fazer com que a oferta de alimentos fosse maior do que a demanda. Foi a produção em massa com auxílio dos agrotóxicos que permitiram este que foi um dos maiores avanços na história da nossa espécie. Mas com isso surgiram outros problemas, como o enfraquecimento de tradições alimentares dos povos do mundo inteiro, diminuição das variedades de alimentos, surgimento de multinacionais com mais dinheiro que muitos países, patenteamento de sementes que deveriam ser bens universais do homem, poluição, sofrimento animal e uso indiscriminado de veneno.

Países preocupados com seus cidadãos, na dúvida sobre os efeitos do consumo de alimentos com agrotóxico, restringem a utilização desses produtos, mas por aqui nossos legisladores afrouxam cada vez mais as regras e até dificultam a comercialização de alimentos orgânicos. Querem nos matar em nome do lucro, e conseguem isso colocando deputados e senadores no bolso. É a bancada do boi, da bala e da bíblia.

Outra questão que não existe consenso é sobre se é possível alimentar a população mundial sem uso de transgênicos e venenos. Uns acham que sim, outros que não. Mas no atual momento, o mais sensato a se fazer é seguir a tendência mundial de restrição.

Só lembrando que a indústria do agrotóxico é oriunda da indústria armamentista. A Bayer fazia os gases utilizados para matar judeus durante o holocausto.

Abaixo vídeo explicativo sobre a PL do Veneno. Assine a petição.

domingo, 1 de julho de 2018

Chove todo dia 2 de novembro

Criei o hábito de anualmente publicar no Facebook no dia 3 de novembro se choveu ou não na véspera, aka Dia de Finados. Nas últimas cinco ocorrências só choveu uma vez, vinte por cento dos casos, mas ainda assim é extremamente comum achar pessoas que têm certeza que sempre chove. Você se pergunta por que isso acontece? Por que as pessoas mantêm uma fé inabalável na precipitação do dia 2 de novembro? Felizmente a ciência tem a explicação. Senta que o titio vai falar sobre viés de confirmação e dissonância cognitiva:

Temos a tendência de somente perceber os fatos e informações que confirmem nossas crenças e ignorar tudo que nos contradiz. No caso em questão, as pessoas realmente esquecem dos dias em que não choveu, mas vão lembrar daqueles que choveram mesmo que ocorridos há muitos anos. A isso a psicologia dá o nome de viés de confirmação. 

Suponhamos que no dia 3 de novembro alguém vire para um desses crentes e mostre que fez um lindo dia de sol na véspera. Ao perceber isso, a pessoa vai sentir um desconforto psicológico, já que está diante de duas informações conflitantes. Naturalmente vamos tentar acabar com este desconforto, também conhecido como dissonância cognitiva. O indivíduo tem três opções:

a) ignorar o dia que não choveu e realmente esquecer, depois de algum tempo, essa informação e continuar acreditando que sempre chove;

b) interpretar o fato de forma tendenciosa, como dizendo que onde a tia dela mora em Manaus choveu;

c) recriar todo seu sistema de crenças e aceitar que realmente não chove. Mas isso dá muito trabalho. Requer um esforço mental enorme que muitas vezes tem efeito dominó e requer a reavaliação de outros valores. Por isso as pessoas evitam esta opção e preferem continuar na segurança de suas convicções.

Entendeu? A ciência não é incrível? 

Will Tirando
Isso acontece com todo mundo em todos os campos de conhecimento: na religião, política, esportes, relacionamentos amorosos, quando estamos tentando perder peso mas nos deparamos com um pedaço delicioso de pizza e procuramos um motivo para comer e não sentir culpa, enfim, ninguém está livre disso e na maioria das vezes ficaremos do lado mais confortável destes dilemas diários.

Em resumo:

Alguém que acredita que que chove todo dia dois de novembro é confrontado com o fato de não chuva nesta data. Ele sente um desconforto psicológico (dissonância cognitiva), já que está diante de duas ideias conflitantes. As opções que este indivíduo tem: esquecer desse dia que não choveu ou fazer uma interpretação tendenciosa para manter suas crenças (viés de confirmação) ou mudar todos seus valores, o que consome muito tempo e energia.

Há décadas cientistas anotam todas as chuvas que acontecem no mundo. Essa informação está disponível na internet. Você escolhe a região e a data e aparece uma planilha com a quantidade de milímetros precipitados. Ia fazer uma relação com os últimos dez anos para mostrar que não chove todo dia dois de novembro, mas desisti. Mas adianto o resultado: não chove. Se você acredita nisso, suas opções estão dadas.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Não quero acreditar, quero saber

É muito fácil verificar se a astrologia é real ou não. É só fazer pesquisas utilizando diversos grupos de pessoas, de países, religiões e culturas diferentes, de signos e ascendentes diversos, astrólogos, céticos e crédulos, aplicar testes de verificação de personalidade (a psicologia tem diversos modelos) e comparar com os traços descritos no zodíaco.

A ciência já fez isso e provou não não existe nenhuma relação entre a data e hora do nascimento de uma pessoa e sua personalidade. Como não estou fazendo proselitismo, não vou colocar os links porque quem acredita vai continuar acreditando, independente de qualquer prova.

Doctor House tem uma frase incrível que resume bem essa necessidade em acreditar. Ele se refere à religião, mas faço uma licença poética para aplicar a todos os tipos de superstições: "Se argumentos racionais funcionassem com pessoas religiosas, não haveria pessoas religiosas."

As mulheres são mais propensas a acreditar na astrologia porque historicamente elas sempre foram apartadas da ciência, é só ver a quantidade de mulheres cientistas no mundo. Essa falta de contato com as ferramentas que explicam o funcionamento da natureza afetam a capacidade de relacionar causa e efeito, abrindo caminho para a crença num mundo assombrado por demônios.

Se você acredita em astrologia, não se sinta mal, você é o resultado de um sistema educacional ruim. A boa notícia é que ainda dá tempo para rever esse conceito.

Guia Prático de Ciências da revista Globo Ciência
Venho de uma família muito simples que sempre fez tudo para suprir minhas parcas vontades literárias. Um ponto marcante na minha vida foi a compra da coleção Guia Prático de Ciências, que trazia dezenas de experimentos para serem realizados em casa com materiais domésticos. Depois de cada experimento, aprendíamos um pouco sobre o funcionamento da natureza. A grande lição das horas que passava no meu quarto com esses livros foi aprender a necessidade de provas documentais para acreditar em alguma coisa.

O método científico não é perfeito, mas é o melhor que temos. Foi ele que levou o homem à lua, colocou satélites em órbita, criou celulares, internet, vacinas entre outras maravilhas, por isso não podemos negar sua eficácia em explicar o universo.

Também adorava assistir o Mundo de Beakman, programa infantil de televisão sobre ciência. Abaixo um trecho bem simples que explica como os cientistas trabalham: fazem uma pergunta, formulam uma hipótese, testam a hipótese através de um experimento, chegam a uma conclusão e, quando necessário, formulam outra hipótese e o ciclo recomeça.

Isso já foi feito vários vezes e a astrologia não passou em nenhum teste*. Felizmente agora os cientistas gastam seu precioso tempo em atividades realmente importantes para a humanidade.


* Testes sérios.



segunda-feira, 30 de abril de 2018

A escola é chata

Não tenho televisão em casa há cinco anos, mas assisto Youtube diariamente. Cozinhando, lavando a louça ou comendo, coloco o celular na pia ou na mesa e deixo os vídeos passando. Minha atual predileção são canais que fazem divulgação científica, com vídeos que na maioria das vezes não passam de um bate papo entre jovens cientistas e pesquisadores que traduzem para uma linguagem acessível o que acontece na academia.

A forma de abordagem dos temas é sempre incrível, e simples, e me fazem gostar de ciência e lamentar pelo tempo que joguei fora na escola. Não existe nada mais medieval e ineficiente do que uma sala de aula tradicional, dinheiro e tempo jogados fora, dos alunos, professores e pais que pagam a mensalidade. Não lembro de absolutamente nada do meu ensino médio, disciplinas como química e física simplesmente desapareceram da minha lembrança e só agora, já adulto, começo a me encantar com esses assuntos. Culpo sem nenhum constrangimento o sistema educacional e, com um menor grau de responsabilidade, meus professores, com algumas exceções.


Me dá gastura lembrar que entrava numa sala e copiava o que o professor ia escrevendo no quadro. Depois que todos terminavam, tudo era apagado para mais uma leva de cópia. Absolutamente nada me restou, apenas decepção pelo que eu poderia ter aprendido e não aprendi. Uma professora de matemática usava anotações amareladas do tempo, exatamente as mesmas utilizadas quando ela dava aula para a mãe de uma colega de classe.

Não sei como é uma sala de aula hoje em dia, mas recursos tecnológicos e laboratórios são fundamentais para que todo o potencial dos alunos seja alavancado. O ser humano é um animal incrível e estamos tolhendo o talento de milhões de pessoas, cujo resultado ultrapassa o limite do indivíduo e reflete em todo o país, criando desigualdades e subdesenvolvimento. Na vida existe mais do que português e matemática, aqueles que apresentam aptidões para os esportes, artes, música, entre as dezenas de outras áreas, precisam ser estimulados.

Constituição, educação financeira, economia doméstica, cuidar de uma casa, cozinhar, plantar, leis de trânsito, são conhecimentos extremamente necessários e que a maioria das escolas ignora. Ao invés disso, fazemos os alunos decorarem fórmulas prontas que quando necessárias na vida real não serão aplicadas por que faltou a experiência prática.

Novos conteúdos

Muitos professores estão utilizando vídeos produzidos para o Youtube em sala de aula. O canal Manual do Mundo fez um no qual mostra a montagem de um hand spinner, aquele brinquedo de mão giratório que foi febre entre jovens, magnético, que explicou o funcionamento de um motor elétrico. Incrível, e aos poucos outros canais igualmente atrativos estão explicando biologia, evolução, matemática, geografia entre outras disciplinas. Assistir esse conteúdo e entender como funciona o método científico e a ciência é uma verdadeira vacina contra o surgimento de pessoas que acreditam que a terra é plana, criacionismo, que o homem não foi à lua, homeopatia e astrologia. 

Uma das coisas nas quais acredito que possa melhorar a educação é institucionalizar a ligação entre estas duas pontas, vídeos atrativos e escola. Alguns professores dão exatamente a mesma aula duas ou três vezes por dia, o que é um desperdício de recursos absurdo. Aulas em vídeo, bem produzidas, com um professor servindo de orientador para atividades práticas, é uma abordagem factível para a realidade brasileira.

Vídeo games e educação

Sempre tive preconceito com o educação à distância (EAD), achava que não teria disciplina para estudar fora de uma sala de aula até o dia em que fui experimentar os 15 dias gratuitos de uma plataforma de ensino de inglês. Hoje eu não cogito sair de casa para estudar inglês por nada. Enfrentar a rua, engarramento, deslocamento e todos os transtornos que isso representa já não me fazem nenhum sentido. A EAD conseguiu avançar principalmente por conta de um novo campo da educação: gamification, ou gamificação.

Jovens adoram jogar video games. Muitos deles passam vinte horas semanais na frente de uma tela apertando botões para matar zumbis ou alienígenas. Qualquer pessoa que passar vinte horas por semana estudando qualquer coisa vai se tornar proficiente em pouco tempo: tocar um instrumento, falar um idioma ou se aperfeiçoar em um esporte. Isso levanta duas questões:

1) Estes jovens são especialistas em video games. Como usar todo esse conhecimento para transformar positivamente a sociedade?

2) Como criar plataformas de educação que sejam tão atrativas quanto um jogo de computador?

Pesquisadores de EAD conseguiram grandes avanços na segunda questão. Através de pontuação, fases, interação entre outros elementos dos jogos, vários cursos à distância estão transformando o aprendizado, caso deste que estou fazendo. Diante disso, grandes players do ramo estão diversificando seus métodos em sala. Uma famosa franquia agora ensina seus alunos a elaborar projetos e realizar apresentações orais (pitching), além de empreendedorismo e gestão. O inglês parece até que fica em segundo plano.

O vídeo abaixo explica melhor o conceito de gamification e suas aplicações.


Educação como potência

Dá uma tristeza perceber que quase nada aprendi durante todos aqueles anos na escola, que deveria ser um lugar de potencia. Ao invés disso, milhões de jovens continuam desperdiçando seu tempo em um sistema massacrante.

Aqueles que podem pagar por uma educação diferente, com mensalidades de até dez mil reais reais, conseguem manter suas dinastias. Existem outras alternativas, como as escolas Waldorf, com mensalidades mais em conta e algumas unidades no Rio, mas nada se compara ao que a Finlândia está fazendo, com escolas sem paredes, mobiliário formado por sofás, pufes e bolas de pilates (eu estudava numa carteira de madeira extremamente desconfortável, e me disseram que o desconforto era para evitar que o aluno dormisse), os estudantes se juntam por projetos, não por turmas, e a tecnologia é parte fundamental do aprendizado. Simplesmente incrível. Educação como potência, não como forma de dominação e perpetuação de uma pequena casta privilegiada.

Lei da Atração

Essa semana pipocou na minha TL comentários falando que a Lei da Atração foi comprovada cientificamente. Cada um é livre para acreditar no que quiser, mas NÃO, a ciência não provou nada.

Ciência se faz com publicações em revistas especializadas. Se não houver um artigo publicado e aprovado por um comitê de cientistas, com metodologia que permita a replicação do experimento por outros pesquisadores e com resultados semelhantes, então não se pode afirmar que foi comprovado cientificamente.

Outra coisa: energia é uma grandeza física que pode ser medida. Quando coloco um voltímetro na tomada, sei exatamente quantos volts tem ali. Existem equipamentos que medem quantidade de luz, radiação, pressão entre outras energias. Ainda não existe nenhuma máquina que meça a quantidade de energia positiva que alguém está emanando. Ou de energia negativa. Nem o quanto essa emanação influencia a realidade.

Já vimos em filmes aqueles aparelhos que emitem um som que fica mais intenso quando próximo a uma área radioativa. No dia em que fizerem um desse para medir a energia emitida pelos pensamentos de uma pessoa, aí sim, poderemos falar que ficar sentado pensando em coisas boas vai influenciar a vida de alguém.

No vídeo, um físico falando do assunto. Veja bem: um físico. Não um parapsicólogo, não um astrólogo, não um guru espiritual.