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sábado, 30 de setembro de 2023

Como visitar o Campo de Concentração de Senador Pompeu - CE

Eram 20.000 pessoas confinadas em um terreno cercado com arame farpado. Crianças, idosos, homens e mulheres que, fugindo da fome e da seca, foram enviadas de trem para o campo de concentração com a falsa promessa de trabalho.

Foram sete campos criados em 1932 no estado do Ceará. Eles ficavam perto das linhas ferroviárias usadas como rotas de migração do interior para a capital. Milhares de flagelados iam para Fortaleza nos anos de seca, causando problemas sanitários e de segurança pública em uma cidade que passava por um processo de afrancesamento. Para evitar este cenário, a partir de 1915 os campos, também conhecidos como currais do governo, foram criados como política pública higienista.

Retirantes mortos na beira da linha do trem
Retirantes mortos na beira da linha do trem

Obrigados a realizar trabalhos forçados em obras de infraestrutura estatais, recebiam comida estragada e não possuíam nenhum tipo de assistência. As mortes eram diárias e os corpos enterrados em covas coletivas. Muitas vezes, pessoas ainda vivas eram jogadas nas valas.

O único espaço deste tipo que restou foi o de Senador Pompeu, que utilizou prédios de alvenaria abandonados por uma empresa inglesa que construiria a Barragem do Patu. Os demais utilizam barracas provisórias.

Estive lá em setembro de 2023. Tombado em nível estadual em 2022, a única obra que o conjunto arquitetônico formado por alguns casarões, duas estações ferroviárias e três casas de pólvora recebeu foi a troca do telhado de uma dessas construções. De resto, nada ainda foi feito.

A cidade não dispõe de uma placa que conte essa história. Só é possível chegar até os prédios com ajuda de algum morador, já que não existe nenhuma sinalização ou indicação em ferramentas de GPS como o Google Maps ou Waze. Também não existe um guia de turismo local. Dei sorte de conseguir ajuda de um morador que cresceu na região e me levou lá. Se você quiser o contato, pode me escrever que faço a ponte.

Tem bastante conteúdo sobre essa história, é só jogar no Google e Youtube Campo de Concentração Senador Pompeu. Fiz um vídeo da minha visita, que pode ser visto abaixo.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Forças Armadas Brasileira

Uma vez tentei explicar o conceito de aquecimento global para uma pessoa com poucos anos de estudo formal. Morador de uma favela, numa área violenta e com poucos equipamentos públicos, ele não conseguia entender como o mundo estava aquecendo já que estava diante de uma reportagem que mostrava um país passando por uma forte nevasca, debaixo de metros de neve, de uma forma como nunca antes tinha acontecido.

“Olha o aquecimento global aí”, dizia ele na frente da televisão.

Ele não tem culpa, é vítima do descaso do poder público que foi incapaz de fornecer uma estrutura educacional mínima que permitisse que ele aprendesse sobre um conceito elementar da matemática: média aritmética.

Numa conversa informal, fui incapaz de explicar. São necessários, no mínimo, dez minutos, papel e caneta para demonstrar exemplos e fazê-lo entender o que é o aquecimento global. Uma mini aula. Por causa do desconhecimento de conceitos elementares, os cientistas estão dizendo ‘mudança climática’ no lugar de ‘aquecimento global’, para se fazer entender pela massa que não teve acesso a uma educação básica de qualidade.

Ontem as Forças Armadas ameaçaram a democracia brasileira dizendo que se não houver voto auditável não haverá eleições ano que vem.

O voto atual é auditável, mas como explicar isso para nossos generais? As Forças Armadas acumulam vergonha atrás de vergonha, demonstrando total incapacidade de gestão e corrupção, e não possuem capacidade mínima de entender como as urnas eletrônicas funcionam, assim como o cidadão do início desse texto foi incapaz de entender o aquecimento global.

Tem dia que dá uma tristeza danada ver o Brasil desse jeito. Obscurantista, negando ciência, preconceituoso, violento, com uma população que não tem conhecimentos acadêmicos básicos, desde os mais pobres até os mais ricos e generais.

Se entrássemos em guerra, nosso generalato ia desviar munição, mandar tropas para o lugar errado, carregar drogas nos aviões e atacar a própria população, num típico quadro do quartel d’Os Trapalhões.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Refrigerante saudável e segurança alimentar

Eu realmente acho que um dia teremos uma fórmula saudável de refrigerante e outros ultraprocessados, como biscoitos, lasanhas congeladas e macarrões instantâneos, mas neste vídeo eu vou te contar porque mesmo quando este dia chegar devemos continuar evitando esses compostos alimentícios.


O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicação que serve como orientação para todas as políticas públicas nutricionais do país, elogiada por diversas entidades ao redor do mundo, está sendo atacada pelo governo Bolsonaro, o que representa um retrocesso na proteção da saúde do brasileiro.

As principais doenças crônicas que mais matam são oriundas da má alimentação, causadas principalmente pelo alto consumo de compostos alimentícios ultraprocessados, as chamadas comidas porcaria, e afrouxar esse entendimento junto à população é um ato que compromete ainda mais a escolhas de alimentos saudáveis.

Diabetes, câncer, hipertensão, osteoporose, doenças cardíacas são apenas algumas que estão diretamente relacionadas a uma dieta inadequada e são essas as principais causas de mortes no brasil e no mundo.

Mas eu acredito na tecnologia de engenharia alimentar e realmente acho que um dia essa comida porcaria vai ser saudável. Imaginem só, que maravilha, beber uma coca cola sem medo de desenvolver diabetes, ou comer um Big Mac sem risco de entupir as artérias de gordura e ainda nutrir seu corpo com nutrientes que vão te fortalecer.

Mas mesmo quando esse dia chegar, a gente precisa fazer consumo eventuais desses alimentos por um único motivo: soberania alimentar.

Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, decidir o que e como cultivar, o que destinar ao mercado interno e externo e a gestão dos recursos naturais. 

Comer é mais que o simples ato de nutrir o corpo, nossas escolhas têm implicações sociais, econômicas e ambientais, e quando alguém resolver comprar de uma multinacional alimentícia, está transferindo para essa multinacional todas as decisões relacionadas a cadeia produtiva e enfraquecendo outros setores, como a agricultura familiar.

A gente sabe que o objetivo das empresas sempre vai ser o lucro e o respeito aos trabalhadores, ao meio ambiente e clientes só acontece quando esses grupos possuem poder de pressão, caso contrário essas corporações vão fazer o que for possível para maximizar seu faturamento, como apertar salários e direitos trabalhistas e utilizar processos produtivos altamente poluentes, por exemplo.

Quando a gente tira o poder da população em produzir seus alimentos e transfere essa responsabilidade para apenas algumas corporações, a gente enfraquece a capacidade de pressão da população, colocando todos numa situação de vulnerabilidade e sujeita às ambições dessas empresas.

Soberania é uma palavra derivada do latim e significa poder supremo, ou seja, dar soberania aos cidadãos é dizer que não existe nada acima deles, nem o interesse predador de empresas multinacionais.

Em um estado onde impera a soberania popular é aquele no qual o povo é a fonte de todo o poder e está lá, na nossa Constituição, artigo primeiro, e para ser soberano o povo precisa ser livre para decidir suas estratégias alimentares e possuir os meios de produção, de forma a preservar culturas locais e a sustentabilidade das futuras gerações.

Precisamos ter o controle sobre nossos hábitos alimentares e não delegar essa responsabilidade para apenas algumas instituições financeiras e transnacionais alimentícias que vão colocar seus interesses à frente aos da população, como o agronegócio de monoculturas para exportação, enfraquecendo culturas tradicionais e aumentando o preço interno da comida, como estamos vendo agora, uso abusivo de agrotóxicos, produção de ultraprocessados prejudiciais à saúde, ocultação da informações como se os alimentos são ou não transgênicos, privatização da água, patenteamento de sementes e incêndios dos nossos biomas para aumento de áreas cultiváveis e pastos.

Falar sobre soberania alimentar é falar sobre reforma agrária, garantindo acesso de milhares de famílias ao trabalho e à produção de alimentos diversificados, trabalho de cooperativas, agroecologia, hortas urbanas, uso de energias renováveis, criando uma alternativa solidária ao atual sistema de produção que deixa milhões de pessoas passando fome no Brasil.

Atualmente apenas 10 empresas controlam o mercado de produção de alimentos no mundo, e aumentar ainda mais o poder destas empresas é muito preocupante e não é exagero imaginar um futuro distópico.

Apenas 10 empresas controlam o mercado mundial de alimentos

O poder não pode estar concentrado em poucos, é preciso pulverizar todas as responsabilidades sobre o que e como produzir, preços a serem cobrados, cadeia de distribuição e, principalmente, os lucros da comercialização, e isso não se aplica apenas aos alimentos, mas a toda manufatura humana.

Para fortalecer a soberania alimentar do Brasil, dê preferência para comida de verdade da agricultura familiar.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Quando surgiu a fome no Brasil?

Pensa rápido: quando começou a fome no Brasil?

O racismo e a xenofobia marcaram a história da humanidade, é nosso mito fundador. Assim como hoje existem várias raças de cachorros, já existiram várias raças de seres humanos que conviveram no mesmo período e território, e todos eles foram exterminados por nós, os sapiens, não apenas por uma disputa de recursos, mas por serem grupos diferentes dos nossos.

Esse genocídio, obviamente, não se deu sem que antes pudéssemos nos divertir um pouco e trazemos em nosso DNA a herança de cruzamentos sexuais com os neandertais entre outras famílias de humanos.

Avançando um pouco, passamos pelas Cruzadas, nas quais cristãos combatiam contra os infiéis, a colonização das Américas e da África, Holocausto, Guerra Fria entre outros milhares de conflitos que no fundo se resumem ao nós, superiores e melhores, contra eles, hereges, impuros.

O racismo é a base de todos os nossos problemas, inclusive a fome, que chegou ao Brasil nas caravelas que cruzaram o Atlântico.

Os povos tradicionais tinham na guerra o seu propósito, o constante objetivo de eliminação de outros grupos fomentava todo o sistema de organização política indígena. Entretanto, não há registro de fome neste período, e havia um certo respeito no processo bélico.
A máscara de flandres tinha o objetivo de impedir que negros comessem e bebessem
O ritual antropofágico, descrito em detalhes por Hans Staden, mostrava que o inimigo a ser devorado muitas vezes convivia anos na taba adversária, compartilhando das mesmas refeições e até casando com mulheres locais.

A limitação ao acesso aos alimentos no Brasil começou com a escravização nativa e africana feita pelo homem branco. A máscara de flandres, fixada na cabeça do cativo, tinha objetivo de impedi-los de ingerirem alimentos e bebidas.

O racismo é a base do capitalismo, assim como foi a base de todos os outros sistemas antes dele, e deve ser nossa pauta principal de luta.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Você não estava aqui

Certa vez conversava com um amigo sobre as condições de trabalho escravo encontradas nas Zonas Especiais de Exportações em países pobres, onde eram produzidos os tênis da Nike

Era uma época pré internet, conseguir esse tipo de informação não era fácil. Eu sabia por causa do livro Sem Logo, da Naomi Klein, no qual ela narra, entre outros assuntos, a construção de grandes marcas de consumo e toda sua cadeia de exploração na China, Vietnã e adjacências, pagando centavos por dia de doze ou mais horas de trabalho

Depois de considerar o que eu estava dizendo, meu amigo acabou agradecendo a Nike por estar lá, nesses lugares, mesmo que escravizando aquelas pessoas porque, segundo sua opinião, a realidade delas seria pior sem esses 'trabalhos'

Fiquei sem saber o que responder. Uma pessoa agradecendo por uma companhia bilionária estar explorando seus trabalhadores. No mundo que eu quero viver, nenhum ser humano é explorado por outro

Esse tipo de argumentação ainda é comum hoje em dia. Não é difícil encontrar quem defenda posições uberizadas alegando que sem esses subempregos a situação seria pior


Empresas riquíssimas, que constroem patrimônios equivalentes ao PIB de pequenos países, extorquindo a mais valia de seus 'colaboradores'

Acabei de assistir Você Não Estava Aqui e estou, neste exato momento, arrasado. Meu otimismo deu lugar a uma tristeza extrema com relação ao nosso futuro, e é impossível não se colocar no lugar daquele pai de família que precisa sustentar os seus. Nem consegui chorar

Vivendo num país com treze milhões de desempregados, sem falar daqueles que desistiram de procurar empregos, dos informais e precarizados, com um presidente incapaz e cruel, minha cabeça ficou a mil

Pensando aqui no meu futuro, sem aposentadoria, na minha decisão de não ter filhos por acreditar que não serei capaz de sustentá-los num mundo que não precisa da minha capacidade produtiva, do aumento da coerção do estado contra aqueles que vão contra o sistema, da destruição paulatina dos direitos conquistados com muita luta

Hoje sou uma péssima companhia, mas Você Não Estava Aqui é fundamental para nos dar esse choque de realidade

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O que a indústria nunca vai substituir

Na época da minha avó, para cozinhar um prato simples como um macarrão com molho de tomate e frango era necessário pegar a ave no quintal, matar, preparar a massa do macarrão, esticar e cortar, picar os tomates e cozinhar lentamente até virar molho.

De pouco tempo para cá, a indústria eliminou várias etapas. Preparar a mesma refeição requer apenas descongelar e assar o frango, esquentar o molho da caixinha e colocar o macarrão na água fervendo.

Agora, para muita gente, abrir uma embalagem deste mesmo prato e colocar no forno já é cozinhar. Certamente meus avós ficariam espantados se soubessem que em pouco tempo a galinha já viria limpa e cortada, o molho pronto dentro de um saquinho e o macarrão no ponto para ser fervido, assim como ficamos espantados quando alguém nos diz que esquentar uma refeição industrializada é cozinhar.
Cogumelos utilizados na receita
Mas qual é o limite? Quais são as ações básicas necessárias para podermos falar que cozinhamos nossa comida? Não existe resposta, e mesmo que houvesse ela mudaria com o tempo. Só uma coisa é certa: se alguém virar para mim e falar que cozinhou só colocando um congelado no forno vai levar um pescoção.

Independentemente disso, minha impressão é que a população tem passado cada vez menos tempo cozinhando, e esta também é a impressão de Michael Pollan em Cooked. Apesar do sucesso de dezenas de programas de televisão, como o Master Chef, e do surgimento de estrelas gastronômicas, a gente não coloca a mão na massa e vai deixado esta responsabilidade para a indústria, quem tem se esforçado muito para isso.

O resultado é o aumento do consumo dos ultraprocessados, ricos em sal, açúcar, gorduras e outros aditivos químicos que são comprovadamente prejudiciais à saúde. Mas mesmo que não fossem danosos (acredito que um dia não serão), existem outros motivos para a gente não ingerir esse tipo de composto que eles tentam chamar de comida.

A gente tem visto o que acontece quando empresas ficam ricas demais. Seus diretores e acionistas aferem milhões por ano enquanto, com a ajuda da tecnologia que vem substituindo o trabalho humano, seus funcionários recebem salários cada vez menores. Com o lobby que é feito junto a políticos, direitos trabalhistas e previdenciários são cortados e são criadas cada vez mais facilidades para exploração predatória da natureza. Comprar dessas empresas é deixá-las cada vez mais fortes e aumentar o abismo da desigualdade de social que está afundando o mundo.
Nosso espaguete ao pesto
Ao cozinhar mais e, consequentemente, ter que comprar ingredientes frescos, estamos fortalecendo pequenas famílias como as nossas. Estamos ajudando um pai a pagar um curso de inglês para seus filhos, comprar material escolar, roupas novas e quitar todos os boletos do mês. Vamos fazer nosso dinheiro circular entre a gente pois esta é apenas uma das formas de nos proteger do futuro da precarização do trabalho.

Esta decisão precisa ser colocada em prática em todo nosso consumo. Sou um apaixonado pelo meu Kindle, em segundos tenho na mão qualquer livro que quiser, mas não vou dar meu dinheiro para Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo e que explora seus funcionários. Vou comprar com o Ronaldo, livreiro dos bons e pai da Mila Flor. Ou na Livraria Folha Seca, com o Digão, um dos maiores bebedores de cerveja da Rua do Ouvidor.

Como já comentei aqui, estou me encontrando semanalmente com um amigo para cozinhar. Desta vez foi espaguete ao pesto e talharim com molho de cogumelos portobello. A massa foi feita do zero e só utilizamos ingredientes frescos ou minimamente processados. Derrubamos duas garrafas de vinho no processo e a vivência proporcionada pela experiência indústria nenhuma vai conseguir substituir.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Alimentação e justiça social

Ontem saiu a PNAD e o resultado foi um Xibom Bombom: o de cima subiu e o de baixo desceu ainda mais. Por isso trago novamente o tema: como nossa alimentação pode ajudar a gerar justiça social?

Atualmente, nossa produção e distribuição de alimentos tem contribuído com essa imoral concentração de renda e o mesmo pode ser visto em outras cadeias, como na indústria da moda, por exemplo.

Quando a gente escolhe comer um ultraprocessado da Nestlé, a gente escolhe deixar ainda mais rica uma empresa multibilionária e deixar mais pobre o pequeno produtor rural. Para quem não sabe, a Nestlé está promovendo um genocídio em comunidades ribeirinhas da Amazônia com uma cadeia de abastecimento de entrega domiciliar, deixando a população obesa, doente, poluindo a floresta com suas embalagens e destruindo tradições alimentares. Eles também acreditam que a água não deva ser um direito universal gratuito, mas sim um produto como outro qualquer, apesar de estarem acabando com fontes naturais e rios com extração predatória, impactando diretamente as comunidades em todo o mundo.

O tamanho e o uso das propriedades rurais que produzem alimentos, autonomia dos agricultores na escolha das sementes, fertilizantes e controle de pragas, condições de trabalho e geração de renda e partilha do lucro gerado pelo sistema são questões que precisam ser discutidas quando o assunto é distribuição de renda e erradicação da fome e da miséria.

Realmente acredito que a tecnologia um dia vai permitir a criação de ultraprocessados saudáveis. A Coca-Cola terá o mesmo sabor que tem agora e será uma bebida nutritiva. Mas não se trata apenas de nutrição. Não é apenas sobre o que comer ou vestir, é sobre o mundo que queremos construir.

A dica é simples: saiba de onde vem os produtos que você consome e dê preferência para pequenos produtores. Comer e se vestir é um ato político.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Soberania Alimentar

Meu atual passatempo é assistir Quilos Mortais (My 600-lb Life), reality que acompanha durante um ano um paciente com no mínimo 270 quilos candidato à cirurgia bariátrica numa clínica em Houston. São histórias muito tristes e a taxa de sucesso na manutenção do peso a longo prazo é de apenas 5%.

O que me incomoda é que toda a responsabilidade pela obesidade é colocada apenas nos pacientes, excluindo fatores sociais que estimulam o alto consumo de alimentos ultraprocessados, mas isso é bem típico dos Estados Unidos, país que busca soluções individuais para problemas coletivos.

Outro dia um cidadão que iria começar o primeiro dia no emprego novo teve o carro quebrado. Ele acordou de madrugada para andar os 20 quilômetros até a empresa, quando foi parado na highway por um policial que deu-lhe carona. O caso viralizou e o empregado ganhou um carro do patrão por causa da sua dedicação, mas ninguém discutiu o por quê de não haver linhas de ônibus urbanos para atender a população.

O mesmo acontece em Quilos Mortais. A culpa é do indivíduo e cabe a ele sozinho buscar a solução. Não são discutidos os subsídios governamentais que mantêm baixo o preço dos ultraprocessados, a falta de uma regulamentação que proteja as crianças do excesso de publicidade, a falta de estímulos para criação de uma cadeia produtiva de alimentos saudáveis, educação alimentar etc. Por isso a taxa de sucesso é tão baixa, porque é insano querer que um indivíduo sozinho vença uma indústria bilionária.

Nunca fui obeso, mas já estive acima do peso. Iniciei minha reeducação alimentar há oito anos e o primeiro passo foi comer apenas um, dos tradicionais dois, acarajé da Ciça, barraca na Praça XV onde batia ponto toda sexta-feira. Desde então tenho dado pequenos passos e o mais recente foi cortar a carne das minhas escolhas individuais. Bicho, agora, só em situações de coletividade, como num churrasco entre amigos ou naquele filé aperitivo para dividir com a galera no bar.
A preparação
Todo final de semana vou à feira, faço visitas constantes ao supermercado e cozinho quase todas minhas refeições, e isso consome muito do meu tempo, mas faço isso com prazer. Mas a alimentação vai além de questões nutricionais, é preciso falar também de soberania alimentar.

Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre suas políticas agrícolas e alimentares, decidir o que e como cultivar, o que destinar ao mercado interno e externo e a gestão dos recursos naturais. Ou seja, quando a maior parte da nossa comida vem apenas das 10 multinacionais que controlam o mercado mundial de alimentos, estamos abrindo mão da nossa soberania alimentar. O resultado disso é que estamos nos envenenando, poluindo o planeta por causa da quantidade absurda de resíduos das embalagens, concentrando renda nas mãos destas empresas, perdendo nossas tradições culturais alimentares entre outros problemas.

Existem várias visões de mundo. Na minha, a cadeia produtiva é controlada pela população e não pelos departamentos de marketing e P&D das multinacionais, respeitando culturas e o meio ambiente, com participação da sociedade em conselhos que orientam as políticas públicas do setor, incentivando a agroecologia e protegendo comunidades tradicionais.

Foi exatamente esse modelo, orientado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, criado pelo Betinho e extinto pelo Bolsonaro, que contribuiu para tirar o Brasil do Mapa da Fome da ONU em 2014. O Consea era formado por diversas entidades da sociedade civil e foi dele que saíram ideias de projetos que acabaram com a fome de milhões de pessoas, como o Programa de Aquisição de Alimentos, que consistia na compra de alimentos de pequenos produtores para abastecer aparelhos municipais, como escolas e hospitais, e o restaurante popular, para atender a população urbana em extrema vulnerabilidade.

Diante de extinção do Consea, está sendo organizada para maio a Conferência Nacional, Popular, Autônoma por Direitos, Democracia e Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Deve acontecer no Maranhão ou Bahia e tenho participado de algumas reuniões de organização representando a Ação da Cidadania, que recentemente lançou a campanha Natal Sem Fome para alertar sobre a volta do Brasil ao Mapa da Fome da ONU.

A gente trabalho no grande, forçando a criação de políticas públicas, mas a gente também trabalha no miudinho. Outro dia um amigo me pediu para ajudá-lo a mudar seus hábitos alimentares. Começamos aulas de gastronomia na minha casa e também vamos fazer visitas à feiras e ao Armazém do Campo - RJ, loja que vende produtos oriundos de assentamentos e da agricultura familiar. Vamos ler e discutir o Guia Alimentar Para a População Brasileira e, obviamente, comer boa comida.

Nosso primeiro encontro foi domingo e fizemos nhoque de batata roxa com molho de tomate e aspargos grelhados. A entrada foi salada. Tudo feito com ingredientes frescos. Ficou lindo. E delicioso.
O resultado
Deixo como referência o documentário Histórias da Fome no Brasil, que contou com apoio da Ação da Cidadania. Taí, completo para ser assistido.

sábado, 8 de junho de 2019

Recortes

Ano passado assisti num evento de cicloativismo a palestra da Clarisse Linke, diretora do ITDP, um instituto internacional que trabalha desenvolvendo a mobilidade sustentável em diversas cidades do mundo. Ela apresentou um recorte de gênero e etnia das locomoções por bicicleta.

Clarisse mostrou, em um estudo de caso, um mapa de calor que indicava os locais de moradia das mulheres negras e os locais que elas frequentavam, como supermercados, creches e escolas, de um determinado município. Em cima desse mapa colocou onde foram criadas as ciclovias, mostrando que a estrutura cicloviária tem cor e gênero, ou seja, foi colocada ali para atender homens brancos.

Há muito sabia que o movimento cicloativista é um movimento branco de classe média, mas foi nessa palestra entendi melhor essa dinâmica e compreender que é possível fazer recorte de classe, gênero, etnia sobre qualquer assunto.

Desde então tenho ficado mais atento durante as Escolas Bike Anjo, evento nos quais, dois domingos por mês, eu voluntariamente ensino adultos a andar de bicicleta. São raras as mulheres negras que vão, principalmente as com idade por volta dos trinta e quarenta anos. Quando aparecem, seguem o padrão de dupla jornada (trabalho e cuidados com a família) e que contaram com a ajuda de alguém para poderem deixar a casa num domingo. O tempo médio por aula é de trinta minutos, mas nestes casos sempre fico mais tempo. 


Gosto de conversar com meus alunos, saber um pouco de suas histórias e tentar criar algum vínculo emocional. Parece uma atividade frugal, de pouca importância, e em muitos casos realmente o é, mas ali lido com algumas questões muito importantes.

Uma vez atendi um mulher, nordestina, que levou uma surra do pai quando criança depois de subir numa bicicleta. Como se não bastasse, o pai passou um facão em sua orelha, mas do lado sem corte, para assustá-la ainda mais e fazê-la nunca mais subir numa bike. Isso não é coisa de menina.

Uma outra mulher perdeu a irmã atropelada enquanto pedalava na infância.

Idosas que sempre tiveram como sonho pedalar, atividade que só puderam realizar depois de ficarem viúvas e terem seus filhos criados.

No Bike Anjo lido com muitas dores e desigualdades, machismo, racismo, violências. Foram várias as lágrimas que vi correndo depois de proporcionar as primeiras pedaladas. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Do tamanho que eu possa limpar

Um texto que leio uma vez por ano é 'Da relação entre limpar seu próprio banheiro e abrir sem medo um Mac Book no ônibus'. Nele, o autor fala sobre a relação entre os salários dos holandeses. Se aqui o nosso abismo de desigualdade social faz o presidente de uma empresa ganhar cem vezes mais do que o faxineiro, lá essa diferença é menor, muito menor. As rendas são muito semelhantes, não importa se é gerente ou porteiro.

Por conta disso, o cidadão médio precisa limpar seu próprio banheiro, já que contratar uma diarista ou ter uma empregada é muito caro. Médico, engenheiro, advogado, não importa, vai ter que esfregar privada como todo mundo.

Esse cenário idílico de igualdade social traz várias vantagens, e uma delas é o baixíssimo índice de violência, ao ponto de permitir que qualquer um abra seu Mac Book caro dentro de um ônibus a noite sem medo de ser assaltado.

Essa história de ter alguém para limpar sua sujeira é uma herança colonial e escravocrata que quero longe da minha casa, por isso a faxina é uma atividade que nunca vou abrir mão de realizar. Logo, minha casa precisa ser do tamanho que eu possa limpar.

Hoje, enquanto passava pano no chão, fiquei pensando se essa expressão, 'do tamanho que eu possa limpar', poderia ser usada como metáfora para a vida. Se na nossa vida amorosa, pessoal, profissional e espiritual a gente precisa impor o limite da nossa capacidade de lidar com os resultados.

Ao começar um novo namoro, até que ponto podemos ir para que depois não fique aquela sujeira emocional acumulada sem que consigamos limpar?

Sei lá, acho que as psicólogas funcionam como as diaristas das nossas casas, ajudando a jogar fora o lixo do qual nossas ambições não souberam suportar. Por isso, fique atento à sua cobiça. Faça um prato do tamanho da sua fome.

sábado, 5 de agosto de 2017

Microrrevolução diária

Foliã
Meus pais são paraibanos e vieram para o Rio em busca de uma vida melhor. Minhas vós eram professora e costureira, e seus companheiros exerciam profissões igualmente simples, mas suficientes para colocar comida no prato e um teto sobre uma cama quente. Não são flagelados da seca que chegaram num pau de arara, mas meu pai vislumbrou um pouco mais de conforto migrando para o Sul Maravilha no final da década de 70 em companhia de uma multidão de outros homens e mulheres que fizeram a mesma aposta.

Muito trabalho e ovo frito no almoço depois, meu pai, guerreiro e exemplo de vida, entrou para Petrobras, o que proporcionou escolas particulares aos seus filhos e a possibilidade da prole poder se dedicar integralmente aos estudos. Minha vida não é diferente ao de uma parcela significativa da população, são milhares de famílias com um histórico parecido: migração do nordeste e uma casinha no subúrbio com alguns eletrodomésticos comprados a prestação.

Um degrau acima na escada social, minha geração foi extremamente mimada e desobrigada a realizar tarefas domésticas, já que, com uma educação melhor e a tendência de continuação da ascensão social, não precisaríamos aprender o trabalho braçal porque, afinal de contas, seríamos gerentes de multinacionais pouco depois dos 20 anos e ganharíamos mais do que nossos pais, com empregados responsáveis por essas tarefas.

Só que, como todos nós sabemos, o país não caminhou para o destino imaginado pelos nossos genitores. A geração Xuxa, que cresceu acreditando que o 'cara lá de cima' nos daria tudo que queríamos, chegou aos 30 subempregada e ainda morando com os pais. Com uma emancipação tardia, chegamos a idade adulta totalmente despreparados para cuidar de uma casa. Muitos ainda não descobriram como a roupa suja jogada no chão continua suja e jogada no chão no dia seguinte.

Hora do recorte de gênero: às meninas sempre foram ensinadas as tarefas domésticas. Não estou fazendo nenhum julgamento de valor nem dizendo que fomos criados de um jeito errado. Nossos pais se esforçaram para fazer o melhor, nos dando uma educação que segundo suas visões de mundo era a mais adequada, só que o ambiente mudou. Tenho certeza que farei o mesmo com meus filhos, ensinando valores e habilidades que serão obsoletas quando eles crescerem.

Essa reflexão me veio depois de observar um grupo de jovens com quem estou trabalhando. Eles são incapazes de jogar os copos descartáveis no lixo e arrumar as cadeiras depois de uma reunião. Vou ter que, no próximo encontro, pedir para fazerem isso. Mas não os culpo, também nunca tive que lavar um prato na idade deles. É um processo de aprendizado.

Ir ao mercado, cozinhar, lavar a louça e fazer faxina são minhas pequenas contribuições à equidade de gênero, atividades mais eficientes do que textão no Facebook. E lavar o próprio banheiro também tem muito sobre desigualdade social e violência, como foi brilhantemente relatado por Daniel Duclos num texto que para mim é referência. Por esses dois motivos, não delego esses trabalho a terceiros.

Coloquei a foto da Foliã para ilustrar a postagem porque essa desgraçadinha me faz lavar o quintal todos os dias: recolher o cocô, jogar água com sabão, esfregar com a vassoura, desinfetante e rodo. Não posso sair de casa sem fazer isso. Eu sei que é pouco, mas é minha microrrevolução diária.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Casa grande e senzala

Tive uma criação superprotetora. Apesar da rua na época da minha infância ter sido um lugar muito mais seguro do que é atualmente, poucas vezes tive permissão para viver o lado Capitães da Areia que cabe a toda criança. Não aprendi a jogar bola, não sei soltar pipa e perdia todas minhas bolinhas de gude.

Também não fui criado com o hábito de arrumar meu quarto ou cuidar das minhas roupas. Magicamente tudo aparecia limpo. Minha mãe até fazia parcas tentativas, mas era só reclamar e fazer cara feia que tudo se resolvia e a mágica continuava acontecendo. Obviamente ela fez isso pensando no melhor para mim, conforto e segurança, mas crescer em um ambiente no qual eu não precisava cuidar dessas tarefas me fez um adulto perdulário nesse quesito.

Agora, morando sozinho, minha casa é uma zona. Algumas vezes contratei uma faxineira, mas pagar R$120 numa diária pesa no orçamento. Resolvi cuidar eu mesmo da limpeza e, obviamente, não deu muito certo. Vez por outra dou uma varrida e passo um pano de qualquer jeito, mas este é um habito que pretendo mudar e o motivo apenas tangencia a economia financeira.

No meu lar as atividades eram muito bem separadas por gênero. Longe de mim dizer que se tratava de um ambiente machista, era apenas a configuração familiar que vigorou durante muito tempo. A vida atual permite (e exige) novos modelos, e eu não me encaixo nesse arquétipo mais "tradicional". Hoje em dia é comum que tanto o homem quanto a mulher trabalhem fora, e não é justo achar que a limpeza da casa é uma tarefa exclusivamente feminina. Também não se trata de ajudar a parceira, a questão é que eu quero cuidar da minha parte nos afazeres domésticos, já que quando se diz "ajudar" dá a impressão de que um dos membros é isento de responsabilidade.


Quero que meus filhos cresçam num ambiente mais equânime nas questões de gênero, e contribuo com este pensamento quando assumo minha parte do trabalho. Vivo me policiando para não emanar opiniões machistas, mas mesmo assim vez por outra falo alguma barbaridade. Minha namorada, antropóloga e com um olhar muito aguçado para o assunto, me alerta toda vez que me posiciono dessa forma e vou corrigindo meu curso.

A terceira razão tem a ver com o excelente texto que Daniel Duclos escreveu em 2009, Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus, que conta um pouco sobre como funciona a vida na Holanda. Fazendo um pequeno resumo, lá a diferença de salário entre um médico e um porteiro é muito pequena, por isso contratar um alguém para limpar sua casa não é um hábito comum. É normal, independente da profissão e classe social, as pessoas limparem suas próprias casas, e esse simples detalhe tem um impacto muito grande na saúde social do país, inclusive no baixíssimo índice de violência.

Outro dia, assistindo o Discovery, vi um programa que mostrava a construção do maior navio cargueiro do mundo na Coréia. O engenheiro responsável era norueguês, e mesmo depois de um dia exaustivo de trabalho, em casa, ele preparou a própria refeição. Aqui no Brasil, alguém com este cargo certamente estaria cercado de empregados que cozinhariam para ele.

Mais um exemplo: semana passada chegou lá em casa um alemão que vai ficar três meses de férias por aqui. Uma das primeiras coisas que ele fez foi uma faxina. Limpou banheiro, sala, cozinha, tudo. Isso faz parte da rotina dele e de muitas outras pessoas que vivem em países com renda que não são criminosamente díspares como aqui.

Ter quarto de empregada é um costume brasileiro, explicado por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala. Obviamente não estou combatendo a desigualdade social ao limpar meu banheiro, mas isso me faz lembrar que em sociedades mais justas essa prática é vista com naturalidade e me ajuda a romper um pouco com a herança escravocrata que ainda insiste em nos perseguir. Muitos dos conflitos que vemos atualmente tem origem na abissal diferença de renda entre a população, e vivemos em um dos países campeões nesse quesito.

Escrevi bobagem?

PS: esse artigo do site Geledes explica de forma muito mais clara o que eu quis dizer. Vale a leitura:
A contratação de trabalhadores domésticos em larga escala é consequência do atraso social de um país. O fato de que existem pessoas que ganham o suficiente para que outra pessoa faça o serviço que ela própria poderia fazer demonstra o abismo da desigualdade social de uma nação.
Publicado inicialmente em http://www.ilhados.com/2014/05/casa-grande-e-senzala.html